Mundo de ficçãoIniciar sessãoLis sempre foi tratada como um erro dentro da própria família. Uma armadilha cruel muda seu destino após uma noite marcada pela escuridão e pelo pecado e pelo fruto de homem desconhecido e pelo outro lado está o poderoso Saulo, herdeiro de uma poderosa família, jamais esqueceu a mulher daquela noite. Mesmo sem lembrar do rosto, ele passa anos obcecado pela lembrança que o persegue. Quando o destino os cruza novamente, verdades vêm à tona, feridas se abrem… e uma noite do passado nasce um grande amor.
Ler maisLis Narrando.
A luz do sol atravessava a fresta da janela do meu pequeno quarto. Acordei com aquele feixe claro batendo no rosto e, por alguns segundos, permaneci imóvel, reunindo forças para enfrentar mais um dia. Peguei o celular, vi o horário e me levantei depressa. Tomei banho às pressas, vesti-me como sempre e segui para o trabalho. Comecei varrendo o pátio da mansão. O espaço era grande demais. Silencioso demais. Depois, ajudei a pôr a mesa do café da manhã. Tudo precisava estar impecável como se a perfeição do ambiente pudesse esconder a podridão daquela casa. Papai estava sentado à cabeceira, lendo o jornal. Mariana e Pedro mexiam no celular. Laura, minha madrasta, folheava uma revista de moda — a mesma em que Mariana estampava a capa. — Bom dia, pai — disse, colocando o café à sua frente. Ele não respondeu. — Minha filha é linda! — Laura disse animada, erguendo a revista. — Olha, amor, quando nossa princesa brilhou nessa capa. Papai pegou a revista. Não sorriu, não comentou nada. Mas vi em seus olhos o orgulho escancarado por Mariana. Aquilo doeu mais do que qualquer palavra. — Minha princesa linda! — Mariana riu, me olhando com superioridade. Pedro permaneceu em silêncio, como sempre. Meu peito se apertou. As mãos começaram a tremer e, sem querer, o café escapou, manchando o vestido de Laura. O tapa veio no mesmo instante. — Sua rata! — ela gritou. — Como você consegue ser tão lerda? — Desculpa, madrasta — murmurei, abaixando-me para recolher os cacos da xícara quebrada. Mariana se levantou. Enquanto eu pegava pedaço por pedaço, ela pisou com força na minha mão, pressionando-a contra os cacos de vidro. Gritei. — Só uma pequena lição — disse, fria. Olhei para papai. Esperei qualquer coisa. Um olhar. Um gesto. Ele não teve coragem de me encarar. — Eu avisei você, Marcos! — Laura gritava. — Uma filha bastarda não serve nem para servir café. Toda vez que olho para essa garota sinto ódio ao lembrar que você me traiu! As lágrimas caíam enquanto o sangue escorria pela minha mão. Levantei-me rápido para não sujar o tapete caro de Laura e corri para o quarto. Assim que fechei a porta, desabei. Que culpa eu tinha da infidelidade do meu pai? Lembro do dia em que minha mãe me deixou ali. Eu tinha cinco anos. Papai não deixou Laura por ela. Eu fiquei. Desde então, pagava o preço pela traição dele. Eu não era filha. Era lembrança. O erro que não podia ser apagado. Tenho apenas dezoito anos e já vivi coisas que jamais imaginei. Não tenho família por parte de mãe, não tenho amigos, não tenho com quem contar tinha meu avô mas ele partiu quando eu era ainda criança. Mas acreditava que, quando terminasse a faculdade, tudo mudaria. Eu sairia dali. Enfaixei a mão, engoli o choro e voltei ao trabalho. — Ô, bastarda! — Mariana gritou enquanto eu passava pano nos móveis. — Quero que limpe meu quarto. Concordei em silêncio. O quarto dela era grande, iluminado, bonito. Senti inveja não das coisas, mas do amor que ela recebia. Recolhi as roupas espalhadas pelo chão e meus olhos pararam em um vestido lindo. Nunca tive um vestido sequer. Nós duas fazíamos aniversário no mesmo dia. Ela ganhava tudo; eu apenas trabalhava. Quando fui recolher o lixo, vi um colar bonito, com o fecho quebrado. Olhei para os lados e o coloquei no bolso. Já era noite quando lembrei que teria uma prova na faculdade. Pelo menos aquilo ainda era meu. Papai pagava minha faculdade — somente isso. No dia seguinte, acordei cedo, preparei o café da manhã e vesti o mesmo vestido de sempre. Todo dinheiro que conseguia com bicos eu guardava para, um dia, alugar um canto só meu. Fui para a faculdade a pé. Na entrada, jovens de famílias ricas me olhavam como se eu fosse algo que não deveria estar ali. Entrei e sentei no fundo da sala, onde ninguém queria sentar. Naquele dia haveria uma premiação para os melhores alunos. Quando vi a lista, meu coração disparou. Meu nome estava em primeiro lugar. Senti orgulho. Alegria. Até algo gelado encostar nas minhas costas. Mariana estava atrás de mim, cercada pelas amigas. O nome dela aparecia em último lugar. Meses antes, ela sempre ficava no topo — porque eu fazia suas atividades. Até o dia em que me recusei. — Sua maldita bastarda! — ela gritou, na frente de todos. Tentei sair, mas ela me puxou. — Espera. Esse é meu colar? Você roubou meu colar! — Não! Eu achei no lixo. Eu não roubei! — respondi, desesperada. Ela arrancou o colar do meu pescoço, quebrando-o de vez. — Olhem só! — gritou. — Ela está no topo, mas não passa de uma bastarda, filha de prostituta, empregada da minha casa… e agora ladra! Riam. Filmavam. — Eu já disse que não roubei porcaria nenhuma! — gritei. Ela me deu um tapa. Cansada de apanhar, bati nela também. Nós duas rolamos no chão.Lis Narrando. A volta para a mansão dos Lucchese foi carregada de emoção. Ele estava de volta, e eu sentia, finalmente, que nossa vida seria feliz e sem guerras. Os pais de Saulo o abraçaram com fervor enquanto ele retomava seu posto como líder da família. — Eu sempre soube que você era a pessoa certa — Saulo disse, enquanto eu colocava o bebê para dormir. — Você colocou nossa casa em ordem e ainda me deu dois herdeiros. — Eu sabia que você voltaria! Todas as noites eu me deitava confiando que, um dia, você cruzaria aquela porta. — Eu sei... — Ele me abraçou por trás. — Estou de volta. Três meses se passaram voando. Eu deixara o posto de braço direito dos Mendonça, e Diego assumira meu lugar. Eu sabia que ele era capaz; agora, ele estava à frente dos negócios enquanto Maria e Paulo viajavam em lua de mel. Eu me sentia, enfim, preparada para ver minha mãe. Nervosa, cheguei à mansão dos Mendonça carregando meu bebê no colo e com Matias agarrado à minha saia. Assim que entrei no ja
Continuação. Outro menino, Saulo — Maria disse, com um sorriso fraco em meio ao cansaço. — Outro homenzinho forte como você. Matias agora tem um irmão. Eu olhei para o pequeno Lucchese nos braços da minha irmã. Ele era pequeno, mas o choro era vigoroso. A sensação de ver Maria ali, cuidando da minha esposa e do meu filho enquanto eu estava "morto", me deu um nó na garganta. — Obrigado, minha irmã — murmurei, tocando a mão dela por um segundo antes de olhar para Lis. — Se não fosse por você... — Não me agradeça agora — Maria me cortou, recuperando a postura firme que herdamos do nosso pai. — Lis está apenas exausta. O parto foi brutal, Saulo. Ela lutou como uma leoa. O desmaio é o corpo dela pedindo trégua, nada mais. Ela vai acordar e vai querer ver você. Eu beijei a testa de Lis, que dormia um sono pesado, e depois encostei meu dedo na mãozinha do meu novo filho. Lis Narrando. Eu estava sonhando. Pelo menos foi o que pensei quando abri os olhos lentamente. Tudo parecia
Uma semana se passou. Cada passo que eu dava era acompanhado por uma dor latente e uma claudicação persistente. Minha perna nunca mais seria a mesma; aquela era a marca eterna da minha guerra com Magnus, um lembrete físico de que o inferno tinha deixado cicatrizes. — Silas, não tem nenhum celular por aqui? Alguma forma de comunicação? — perguntei, observando o velho organizar algumas ferramentas. — Aqui no vale não pega nada, meu jovem. Só na cidade, lá no alto, onde o sinal alcança. Eu vou para lá agora buscar alguns suprimentos, se quiser, pode vir comigo. No momento da partida, vi Magnus parado perto do cercado, acenando para nós com aquele olhar vazio e pacífico. O ódio subiu pela minha garganta. Era humilhante vê-lo ali, "esquecido" de suas atrocidades, vivendo uma vida simples enquanto eu carregava o peso de tudo o que ele destruiu. Mas eu tinha uma promessa a cumprir com Elara. Virei o rosto e subi na carroça. Assim que chegamos à pequena cidade, a primeira coisa que fi
O ranger das tábuas da varanda me tirou dos meus devaneios sobre Lis. Eu não estava sozinho. Elara estava ali, envolta em um xale pesado, com os olhos refletindo a luz pálida da lua. Ela não parecia surpresa em me ver de pé, nem com o meu olhar de ódio voltado para o canto onde Magnus dormia. — Você se lembrou, não foi? — a voz dela era um sussurro quebrantado. Eu não respondi de imediato. Apenas apertei o cajado com mais força. — Meu pai... ele é um homem de muita fé, Saulo. Ele acredita na vida acima de tudo — ela continuou, aproximando-se do parapeito. — Mas eu não sou cega. Quando os tiramos do rio, vocês não tinham apenas ossos quebrados. Vocês dois tinham ferimentos de bala. Um no ombro dele, outro perto da sua costela. Parecia que tinham tentado se matar antes mesmo da queda. Ela parou ao meu lado, e vi o brilho das lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Eu sei que vocês eram inimigos. Sei que o que quer que tenha acontecido naquele rio foi o fim de uma guerra sangrent
O cansaço físico finalmente venceu minha guarda alta, e eu apaguei. Mas o sono não trouxe descanso, trouxe fantasmas. No sonho, o cheiro de mofo da cabana deu lugar ao perfume de jasmim que ela sempre usava. Lis estava lá, com aquele sorriso que iluminava até os meus dias mais sombrios. Ela tocava meu rosto, e o calor da sua mão parecia tão real que meu coração disparou. — Saulo... — ela sussurrou, a voz suave como a brisa de um fim de tarde. — Você precisa voltar. Eu tentava alcançá-la, mas minhas pernas pesavam como chumbo. Ela começou a se afastar, envolta em uma névoa fria, e o desespero tomou conta de mim. A saudade apertou meu peito de uma forma tão violenta que eu acordei num sobressalto, com o nome dela preso na garganta. A cabana estava silenciosa, apenas o som da respiração pesada de Magnus no canto oposto e o estalar baixo das brasas na lareira. Olhei para o teto, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Onde ela estaria agora? Será que ela pensava que eu estava mor
Saulo.. Meus olhos estavam pesados, mas fui recobrando a consciência aos poucos. O cheiro de mofo misturava-se a um bafo de ar quente próximo a mim. Tentar abrir as pálpebras parecia um sacrifício cruel; minha cabeça latejava e a garganta estava tão seca que acabei tossindo. Quando finalmente venci a resistência e abri os olhos, senti mãos tocarem as minhas e uma voz exclamar: — Ele acordou! A primeira visão foi a de um teto simples, de madeira. Olhei ao redor e vi um senhor e uma jovem. — Quem são vocês? — perguntei, tentando me levantar no impulso. — Calma, você não pode se mexer assim. Passou muito tempo dormindo — a moça me ajudou com cuidado e logo gritou: — Pai! Ele está bem! Olhei para a porta e, para minha surpresa, Magnus apareceu atrás do velho. Fiquei alerta instantaneamente. — Pensei que você não voltaria. Passou nove meses em coma — explicou o senhor. — Além da perna quebrada, você teve uma fratura no crânio. Esse aqui também estava com você quando os achamos





Último capítulo