Capítulo 2

Continuação.

Olha o que ela fez! — Laura gritava. — Olha o estado da minha filha!

— Ela começou — tentei dizer.

Papai me bateu.

— Cala a boca! — gritou. — Por isso não vou mais pagar tua faculdade, ingrata.

— Não, pai… por favor — implorei, chorando no chão. — Eu peço desculpa à Mariana, mas não faz isso comigo. Eu não tenho como pagar.

— Já está decidido, Lis. Não me faça tomar outra providência.

Ele virou as costas. Agarrei-me às pernas dele.

— Eu trabalho aqui dia e noite… mas, por favor… pelo menos isso.

Ele me olhou. Não havia raiva. Nem pena. Só indiferença.

E saiu.

A casa parecia maior naquela noite. O silêncio me esmagava. As palavras dele martelavam na minha cabeça: não vou mais pagar tua faculdade. Era a única saída que eu tinha. A única coisa que me fazia acreditar que eu podia ser mais do que a bastarda que limpava aquela mansão.

Entrei no quarto e me sentei na cama, abraçando os joelhos. O peito doía como se estivesse sendo rasgado por dentro. Pensei em tudo o que já tinha suportado. E no que ainda teria que suportar sem a faculdade. Sem futuro.

A ideia veio escura. Pesada. Não era coragem. Era cansaço.

Não pensei. Só senti.

Paulo entrou a tempo.

Não lembro de muita coisa depois disso. Só do desespero nos olhos dele. Do meu nome sendo chamado. Do mundo ficando distante.

Quando acordei, o cheiro forte de hospital invadiu meus sentidos. A luz branca machucava meus olhos. Meu braço estava enfaixado.

Paulo estava ali, parado, com o rosto fechado.

— Não faça besteira — disse, frio. — Não crie problema para si.

Aquilo me quebrou de vez.

Comecei a chorar, o corpo inteiro tremendo.

— Eu não tenho direito nem de morrer — sussurrei entre soluços. — Não tenho direito a nada.

Ele não respondeu.

E eu chorei sozinha, mais uma vez.

Voltei para casa no fim do dia. Cada passo doía. O curativo parecia pesado, mas nada pesava tanto quanto o vazio dentro de mim.

Assim que entrei, ouvi vozes alteradas vindas do escritório. Parei no corredor.

— Isso vai destruir nossa família! — Laura dizia, nervosa. — A perda disso acaba com tudo!

— Eu não vou entregar meu tesouro — papai respondeu, ríspido. — A Mariana, não.

Meu estômago revirou.

— Então faça algo! — Laura rebateu. — Você está devendo. E ele não vai esperar.

Houve um silêncio denso.

— Eu não posso sacrificar minha filha — papai murmurou.

— Tem outra — Laura disse, fria. — A Lis.

O chão sumiu sob meus pés.

— Ela pode casar no lugar da irmã. Com o filho dele. Resolve a dívida e ninguém perde nada.

Meu pai demorou a responder.

— Não…

Entrei no escritório.

— Então eu sou uma mercadoria?

— Lis, não é isso que você está pensando — papai disse, vindo em minha direção.

— Eu escutei claramente — gritei. — Vocês querem me casar com um desconhecido para pagar uma dívida!

— Você é um covarde que negligenciou sua outra filha!

Mal terminei de falar e ele me deu um tapa, me fazendo cair no chão. Pedro e Mariana entraram logo depois.

— Como pode falar assim com seu pai, sua ingrata! — ele gritou. Pedro me ajudou a levantar.

— Ingrata? — ri, entre lágrimas. — Eu sou apenas a sombra do seu erro. Aquilo que você tenta esquecer. Eu sou o seu pecado, papai!

— Cala a boca! — ele gritou, segurando meus braços. — Eu devia ter feito sua mãe te abortar naquela época. Você é apenas uma lembrança ruim que eu sou obrigado a encarar toda vez que olho pra você.

Aquelas palavras me atingiram em cheio.

— Eu não tenho culpa se você traiu a Laura! — gritei. — Por que eu tenho que pagar pela sua infidelidade?

Foi a gota d’água. Papai me bateu de novo.

— Saia da minha casa! — apontou para a porta.

— Pai, não aja no impulso! — Pedro tentou intervir.

— Cala a boca! — ele gritou. Pedro apenas assentiu.

— Eu nunca te quis, Lis. Nunca quis. E não quero mais te ver, nem sua mãe te quis porque sou obrigado a te aturar na minha casa não suportou nem olhar pra sua cara.

— Pai, ela não tem para onde ir — Paulo insistiu.

— Eu não preciso da sua pena, Paulo! — respondi. — Só agora você se lembrou de mim? Todos esses anos que fui maltratada por Laura e Mariana, você não fez nada. Eu dispenso qualquer pena que venha de você.

Tentei ir para o quarto, mas fui barrada.

— Daqui você não leva nada! — papai disse, sem me olhar.

E, para completar minha ruína, estava chovendo.

Saí dali apenas com uma bolsinha, sob a chuva, sem casa, sem família — e sem nada.

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