Mundo de ficçãoIniciar sessãoContinuação.
Olha o que ela fez! — Laura gritava. — Olha o estado da minha filha! — Ela começou — tentei dizer. Papai me bateu. — Cala a boca! — gritou. — Por isso não vou mais pagar tua faculdade, ingrata. — Não, pai… por favor — implorei, chorando no chão. — Eu peço desculpa à Mariana, mas não faz isso comigo. Eu não tenho como pagar. — Já está decidido, Lis. Não me faça tomar outra providência. Ele virou as costas. Agarrei-me às pernas dele. — Eu trabalho aqui dia e noite… mas, por favor… pelo menos isso. Ele me olhou. Não havia raiva. Nem pena. Só indiferença. E saiu. A casa parecia maior naquela noite. O silêncio me esmagava. As palavras dele martelavam na minha cabeça: não vou mais pagar tua faculdade. Era a única saída que eu tinha. A única coisa que me fazia acreditar que eu podia ser mais do que a bastarda que limpava aquela mansão. Entrei no quarto e me sentei na cama, abraçando os joelhos. O peito doía como se estivesse sendo rasgado por dentro. Pensei em tudo o que já tinha suportado. E no que ainda teria que suportar sem a faculdade. Sem futuro. A ideia veio escura. Pesada. Não era coragem. Era cansaço. Não pensei. Só senti. Paulo entrou a tempo. Não lembro de muita coisa depois disso. Só do desespero nos olhos dele. Do meu nome sendo chamado. Do mundo ficando distante. Quando acordei, o cheiro forte de hospital invadiu meus sentidos. A luz branca machucava meus olhos. Meu braço estava enfaixado. Paulo estava ali, parado, com o rosto fechado. — Não faça besteira — disse, frio. — Não crie problema para si. Aquilo me quebrou de vez. Comecei a chorar, o corpo inteiro tremendo. — Eu não tenho direito nem de morrer — sussurrei entre soluços. — Não tenho direito a nada. Ele não respondeu. E eu chorei sozinha, mais uma vez. Voltei para casa no fim do dia. Cada passo doía. O curativo parecia pesado, mas nada pesava tanto quanto o vazio dentro de mim. Assim que entrei, ouvi vozes alteradas vindas do escritório. Parei no corredor. — Isso vai destruir nossa família! — Laura dizia, nervosa. — A perda disso acaba com tudo! — Eu não vou entregar meu tesouro — papai respondeu, ríspido. — A Mariana, não. Meu estômago revirou. — Então faça algo! — Laura rebateu. — Você está devendo. E ele não vai esperar. Houve um silêncio denso. — Eu não posso sacrificar minha filha — papai murmurou. — Tem outra — Laura disse, fria. — A Lis. O chão sumiu sob meus pés. — Ela pode casar no lugar da irmã. Com o filho dele. Resolve a dívida e ninguém perde nada. Meu pai demorou a responder. — Não… Entrei no escritório. — Então eu sou uma mercadoria? — Lis, não é isso que você está pensando — papai disse, vindo em minha direção. — Eu escutei claramente — gritei. — Vocês querem me casar com um desconhecido para pagar uma dívida! — Você é um covarde que negligenciou sua outra filha! Mal terminei de falar e ele me deu um tapa, me fazendo cair no chão. Pedro e Mariana entraram logo depois. — Como pode falar assim com seu pai, sua ingrata! — ele gritou. Pedro me ajudou a levantar. — Ingrata? — ri, entre lágrimas. — Eu sou apenas a sombra do seu erro. Aquilo que você tenta esquecer. Eu sou o seu pecado, papai! — Cala a boca! — ele gritou, segurando meus braços. — Eu devia ter feito sua mãe te abortar naquela época. Você é apenas uma lembrança ruim que eu sou obrigado a encarar toda vez que olho pra você. Aquelas palavras me atingiram em cheio. — Eu não tenho culpa se você traiu a Laura! — gritei. — Por que eu tenho que pagar pela sua infidelidade? Foi a gota d’água. Papai me bateu de novo. — Saia da minha casa! — apontou para a porta. — Pai, não aja no impulso! — Pedro tentou intervir. — Cala a boca! — ele gritou. Pedro apenas assentiu. — Eu nunca te quis, Lis. Nunca quis. E não quero mais te ver, nem sua mãe te quis porque sou obrigado a te aturar na minha casa não suportou nem olhar pra sua cara. — Pai, ela não tem para onde ir — Paulo insistiu. — Eu não preciso da sua pena, Paulo! — respondi. — Só agora você se lembrou de mim? Todos esses anos que fui maltratada por Laura e Mariana, você não fez nada. Eu dispenso qualquer pena que venha de você. Tentei ir para o quarto, mas fui barrada. — Daqui você não leva nada! — papai disse, sem me olhar. E, para completar minha ruína, estava chovendo. Saí dali apenas com uma bolsinha, sob a chuva, sem casa, sem família — e sem nada.






