Mundo de ficçãoIniciar sessãoEntre a mortalha e o desejo, ela será o elo mais frágil — e mais perigoso. Beatriz só queria sobreviver ao pai viciado e à favela. Mas quando ele rouba da máfia italiana, a dívida tem um novo nome: o dela. Sequiestrada e levada à Calábria, ela se torna babá das crianças de Vittorio Grimaldi — o Don mais temido da Ndrangheta. Ele é frio. Seus irmãos, piores: Lorenzo, o estrategista cruel, e Massimo, o executor sedento por sangue. Em uma mansão fortificada, Bia descobre que cuidar dos filhos do inimigo é sua única chance de viver. Mas quando três homens poderosos começam a vê-la não como refém, mas como obsessão, ela precisará escolher: Sobreviver… ou render-se ao perigo que a excita.
Ler maisDizem que os hóspedes da cobertura não gostam de ser vistos. Muito menos ouvidos. E, definitivamente, não gostam que toquem no que é deles. Descobri isso da pior forma possível.
O ar-condicionado do Hotel Áurea soprava um frio artificial e constante, mas nada era capaz de vencer completamente o calor úmido do Rio de Janeiro, que parecia infiltrar-se por cada fresta das janelas panorâmicas. Ajustei o lenço azul-marinho que prendia meus cachos rebeldes e parei por um instante diante da porta da suíte mais cara do hotel, tentando ignorar a sensação de que estava prestes a invadir um mundo que não me pertencia. Meu salário inteiro não pagaria uma única diária ali — talvez nem duas horas.
— Tá nervosa, Bia? — sussurrou Raquel atrás de mim, empurrando o carrinho de limpeza com cuidado para não fazer barulho no corredor silencioso.
— Só pensando que qualquer coisa aqui custa mais que tudo o que eu já tive na vida — respondi em voz baixa, girando a chave mestra.
A porta se abriu para um silêncio opulento, quase intimidador. A suíte era enorme, minimalista e perfeita demais, como se ninguém realmente vivesse ali. Tons de cinza elegante se misturavam à madeira escura e ao brilho polido do mármore, tudo impecavelmente organizado, sem um único objeto fora do lugar. Não havia fotografias, livros esquecidos ou qualquer sinal de humanidade — apenas controle. Um perfume discreto de bergamota e couro novo pairava no ar, sofisticado e frio, combinando perfeitamente com o ambiente.
— Parece cenário de filme — murmurou Raquel, passando os dedos pela superfície lisa de uma mesa antes de começar a limpá-la.
Italianos, pensei. A gerência havia nos alertado: três irmãos, extremamente reservados. E os seguranças no corredor do décimo oitavo andar não eram homens fáceis de ignorar. Tinham olhos vazios, postura rígida e uma atenção inquietante a cada movimento ao redor. Não pareciam estar ali apenas para proteger hóspedes; pareciam existir para impedir problemas — ou criá-los, se necessário.
Enquanto recolhia os lençóis de algodão egípcio, senti aquela pontada familiar no braço. O hematoma ainda doía sob o tecido do uniforme. Puxei a manga discretamente para baixo antes que Raquel percebesse. Dinheiro. Sempre acabava sendo sobre dinheiro. Meu pai já tinha sido muitas coisas — trabalhador, carinhoso, presente — mas agora era apenas um homem desesperado, consumido pelas drogas e por dívidas que eu nem ousava imaginar.
Raquel abriu uma gaveta da mesa de cabeceira e soltou um pequeno suspiro.
— Gorjeta.
Dentro havia três notas de cem reais, perfeitamente alinhadas. Não era gentileza; era silêncio comprado. Peguei o envelope e o guardei no bolso do avental sem comentar nada. Aquele dinheiro ajudaria nas contas, como sempre.
Terminamos a limpeza rápido demais, como sempre acontecia naquela suíte, onde parecia errado permanecer por muito tempo. Eu já empurrava o carrinho para fora quando a porta se abriu de repente.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Três homens entraram, conversando em italiano baixo e rápido, suas vozes cortando o ar com naturalidade. Não precisaram falar alto para dominar o ambiente; a presença deles bastou. O primeiro que me notou tinha olhos verdes calculistas e um sorriso fino demais para ser simpático, daqueles que não alcançam o olhar. O segundo passou direto, como se fôssemos invisíveis. Mas foi o terceiro que fez o ar mudar.
Ele levantou os olhos do celular e, por um segundo absolutamente ridículo, esqueci como respirar. Tinha cabelos escuros salpicados de prata nas têmporas e traços fortes, esculpidos com uma precisão quase cruel. Era um homem perigosamente bonito, do tipo que chamaria atenção em qualquer lugar — mas havia algo nele que afastava qualquer impulso de admiração descuidada. Se sorrisse, talvez parecesse gentil. Mas não sorria.
Seus olhos pousaram em mim por menos de dois segundos, e ainda assim tive a sensação desconcertante de ter sido completamente avaliada, classificada e arquivada.
— Scusate il disturbo — disse ele, a voz baixa, carregada de um sotaque que deslizou pela minha pele como veludo… ou uma lâmina.
Não havia um pedido real de desculpas naquela frase; apenas constatação.
Quando a porta do quarto principal se fechou, Raquel soltou o ar devagar.
— Aquele homem me deu um calafrio.
Concordei em silêncio. Não era exatamente medo — era instinto. Aquela percepção primitiva que um animal deve sentir ao reconhecer um predador.
No corredor, Raquel tocou meu braço com cuidado.
— Seu pai de novo?
Mostrei o hematoma, e os olhos dela se encheram de indignação.
— Você precisa sair daquela casa, Bia. Ele está cada vez pior.
Eu sabia. Mais cedo, tinha ouvido meu pai gritar ao telefone com uma voz que mal reconheci: “Eles vão me matar.” Ele tinha roubado alguém — disso eu não tinha mais dúvida — e não parecia ser alguém que aceitasse desculpas ou atrasos.
Raquel me ofereceu um quarto na casa da avó. Quase aceitei. Quase. Mas abandonar meu pai ainda parecia um tipo diferente de morte, uma culpa que eu não sabia se conseguiria carregar.
Nos separamos no décimo andar, e só quando cheguei ao depósito percebi que havia esquecido as toalhas extras da cobertura. Voltar sozinha até lá fez um arrepio subir pela minha coluna. O corredor estava silencioso demais, como se o andar inteiro prendesse a respiração.
Bati na porta e esperei. Nada. Girei a maçaneta com cuidado e ela cedeu.
— Com licença? — chamei, entrando.
O pôr do sol tingia tudo de âmbar, alongando sombras pelo chão impecável. A suíte parecia ainda maior vazia. Deixei as toalhas dobradas na poltrona e já me virava para sair quando algo chamou minha atenção.
Uma bandeja de prata repousava sobre o buffet, e nela havia chocolates importados embrulhados como pequenas joias coloridas. Meu estômago apertou imediatamente. Não comia um chocolate inteiro havia meses — talvez desde o último Natal.
Olhei para a porta do banheiro. Fechada. Nenhum som.
Só um, pensei. Ninguém vai notar.
Peguei o vermelho, de avelã, sentindo meus dedos tremerem enquanto o papel fazia um ruído metálico suave. Eu estava tão concentrada no meu pequeno crime que não ouvi a porta do banheiro abrir.
— Ti piace il cioccolato?
A voz grave surgiu atrás de mim, baixa e inesperada.
Meu coração bateu tão forte que doeu. Virei devagar — e parei.
O homem estava a poucos passos, usando apenas uma toalha branca presa na cintura. Gotas de água escorriam por seu peito marcado por cicatrizes finas, algumas antigas, outras claras demais para serem esquecidas. Não tinham aparência de acidentes. O vapor do banho ainda o envolvia, misturando-se ao cheiro de bergamota.
Seus olhos não demonstravam surpresa nem irritação — apenas interesse. Como se eu fosse um fenômeno improvável.
O chocolate começou a derreter na minha mão suada enquanto o silêncio entre nós se esticava, fino e cortante. Ele deu um passo, depois outro, cada movimento calmo demais, controlado demais.
Não era vergonha que me paralisava.
Era a certeza instintiva de estar diante de algo capaz de me destruir… se quisesse.
Seu olhar desceu para o chocolate, depois para o crachá preso ao meu avental, e então voltou aos meus olhos.
— Na minha casa — disse ele, a voz baixa — ninguém pega o que é meu sem permissão.
Meu pulso disparou. Eu devia pedir desculpa, explicar, correr — qualquer coisa. Mas minha boca não obedecia.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando cada reação minha com uma atenção quase científica. Então sorriu.
Não foi um sorriso gentil.
Foi o tipo de sorriso que nasce segundos antes de algo irreversível acontecer.
— Agora que roubou algo meu — continuou — vai ter que aceitar a consequência.
Abri os olhos devagar, as pálpebras pesadas de uma inconsciência que não tinha sido natural. Agora estava deitada em um sofá de couro bege, em uma cabine de avião que parecia mais uma sala de estar de milionário do que um meio de transporte.Pela janela oval, apenas a escuridão profunda da noite e, ocasionalmente, uma nuvem iluminada pela lua, passageira e fantasmagórica. Estávamos sobre o oceano. Tentei sentar-me, mas as cordas me puxaram de volta contra o couro macio.— Ah, a nossa pequena passageira acordou — uma voz disse em italiano, carregada de uma ironia que me fez gelar por dentro.Virei a cabeça com dificuldade, os músculos do pescoço doloridos.O mais jovem dos três irmãos, o de olhos azuis gelados e sorriso predatório, estava relaxado em uma poltrona de couro a alguns metros de distância, girando lentamente um copo baixo com um líquido âmbar dentro. — O que você acha, Lorenzo? — ele continuou, ainda em italiano, dirigindo-se ao irmão do meio. — A ratinha vai virar mascote
A casa cheirava a pobreza, álcool e medo. Um cheiro que eu conhecia bem, das vielas de Reggio Calabria, dos cortiços onde homens fracos morriam por ambições pequenas. Permiti que meu olhar percorresse o ambiente — móveis quebrados, paredes manchadas, uma garrafa vazia rolando no chão — antes de finalmente pousar nela.Beatrice.Encostada na parede, pálida, os olhos arregalados de compreensão tardia. Via os fragmentos se encaixarem na mente dela: o homem do hotel, o roubo do pai, a invasão. Era quase divertido, esse momento de iluminação, quando a presa entende que já estava na armadilha muito antes de ouvir o estalo do aço.Ignorei-a.A arte do poder não está no que se mostra, mas no que se escolhe não ver. E naquele momento, ela era invisível.Meu foco era o homem ajoelhado no centro da sala, sangrando pela boca onde Lorenzo o atingira com um soco seco. José Oliveira. Pequeno. Desesperado. O tipo de rato que acha que pode roubar do leão e sair ileso.— O produto — disse, em português
O ônibus cheirava a suor, gasolina e desespero barato, o mesmo cheiro que carregava minha vida inteira. Encostei a testa no vidro sujo, sentindo cada solavanco da rua esburacada ecoar direto nos ossos. Meus lábios ainda formigavam.Ainda.Doze horas depois e meu corpo teimava em lembrar o que minha mente queria enterrar.O calor da boca dele. A firmeza das mãos na minha cintura. O som rouco que ele fez quando eu me enrosquei contra ele. Meus dedos apertaram a alça da bolsa até as unhas ficarem brancas. Idiota. Idiota completa. Eu não era uma garota de novelas, que beijava príncipes em coberturas de hotel. Eu era Beatriz Oliveira, vinte e dois anos, camareira do Áurea, filha de um viciado e especialista em más decisões.E uma das piores decisões da minha vida tinha gosto de chocolate e whisky caro.O ônibus freou bruscamente, jogando-me para frente. Um homem mal-encarado resmungou quando esbarrei nele. Desci na parada da Rua do Mercado com o coração batendo feito um tambor de guerra. C
A dor pulsava atrás dos meus olhos antes mesmo de eu despertá-los por completo, uma pressão ritmada e irritante que parecia acompanhar cada batida do meu coração. Permaneci imóvel por alguns segundos, encarando o teto alto da suíte enquanto tentava reunir os fragmentos da noite anterior — o brilho exagerado dos lustres do restaurante, o tilintar insistente de copos que nunca ficavam vazios, a voz grave de Massimo brindando pela terceira vez e Lorenzo observando tudo com aquela calma cirúrgica de quem jamais perde o controle.Eu raramente bebia além do necessário, mas o noivado do meu primo exigia uma demonstração pública de união, e na nossa família até a felicidade era tratada como estratégia.O celular começou a vibrar sobre o criado-mudo, o som seco cortando o silêncio da manhã. Não precisei olhar para saber que não era uma ligação trivial; ninguém que me conhecia se atreveria a telefonar naquele horário sem um motivo sólido. Atendi ainda com a voz rouca.— Fale.— Temos um problem
A porta da suíte fechou-se atrás de nós com um clique que ecoou na espessa quietude do quarto. Vittorio não me soltou — suas mãos ainda cingiam minhas coxas, meus tornozelos ainda cruzados atrás de suas costas, meu corpo colado ao dele como uma segunda pele. Na penumbra, seu rosto era uma escultura de sombras e ângulos afiados, seus olhos escuros fixos nos meus com uma intensidade que roubou o ar dos meus pulmões.Ele me carregou até a cama como se eu não pesasse mais que um casaco. Quando minhas costas tocaram o colchão macio, um suspiro escapou-me — parte surpresa, parte antecipação. Ele ficou sobre mim, seus joelhos pressionando a maciez do edredom, seus quadris se encaixando entre minhas pernas com uma naturalidade que fez meu estômago contrair.Ninguém nunca me beijara daquele jeito.Não com essa mistura de fúria e reverência. Seus lábios moveram-se contra os meus devagar primeiro, explorando, testando. Sua língua tocou a minha, e um arrepio percorreu-me da nuca até a base da col
O ar voltou aos meus pulmões de maneira irregular, quase trêmula, como se meu próprio corpo tivesse sido pego de surpresa pela proximidade. Afastei-me rápido demais — não por educação, nem por profissionalismo, mas por puro instinto de sobrevivência. Ainda assim, o calor das mãos dele parecia ter atravessado o tecido do uniforme e se alojado na minha pele, espalhando uma consciência incômoda por cada centímetro do meu corpo.— Me desculpe — falei, ajustando o vestido preto com dedos menos firmes do que eu gostaria. — O chão está molhado… eu deveria ter avisado.Ele não respondeu imediatamente.Quando ergui os olhos, encontrei o olhar dele já fixo em mim, atento de uma forma silenciosa que me fez sentir observada não como uma funcionária qualquer, mas como algo que ele tentava decifrar. Vittorio Moretti não parecia um homem que se surpreendia com facilidade — e talvez por isso sua calma fosse mais perturbadora do que qualquer irritação.— Então a culpa foi sua — disse por fim, a voz ba





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