Mundo de ficçãoIniciar sessãoContinuação.
A chuva caía como uma sentença sobre mim. Meus pulsos ainda doíam pelo que tentei fazer, e o grande portão à minha frente trazia lembranças cruéis de tudo o que vivi naquela família. Olhei para trás, mas não havia mais nada ali para mim. Andei por ruas e avenidas sem destino, encharcada, sem ter para onde ir. Em uma parada de ônibus, com as mãos trêmulas, peguei o celular e resolvi ligar para Dona Luiza — a antiga empregada da casa de papai, a única que sempre cuidou de mim de verdade. (Ligação) — Eu preciso da senhora… Bastaram aquelas palavras. Ela não fez perguntas, não pediu explicações. Veio ao meu encontro sem hesitar. E foi assim que acabei acolhida em sua casa simples, onde morava com a filha, Estela. […] — Você sofreu tanto, minha filha… — Dona Luiza dizia enquanto me enxugava com uma toalha quente. Estela apenas me encarava, os braços cruzados. — Que cuzão! — ela soltou, cerrando os dentes. — Olha os modos, menina! — Dona Luiza repreendeu. — Ele simplesmente cortou todos os laços comigo… se é que algum dia existiram — falei, a voz embargada. — Nem sequer olhou para mim. Só disse palavras duras e me expulsou de casa. Ele tirou até a faculdade de mim… — um soluço escapou antes que eu pudesse conter. — Você pode ficar aqui — Dona Luiza disse, puxando-me para o peito num abraço apertado. — A senhora tá louca, né? — Estela se levantou do sofá. — A gente mal tem pra nós duas. Como vamos sustentar mais uma? — A gente dá um jeito — respondeu firme. — Não vou jogar essa menina na rua. — Eu posso ir embora… — murmurei, levantando devagar. — Não quero incomodar. — Ei — Estela bufou e voltou a se sentar. — Eu não quis ser grossa. Também não sou tão ruim a ponto de completar sua desgraça. — Obrigada… — disse, sentindo o peso no peito aliviar um pouco. — Eu prometo que vou procurar um emprego e ajudar. No instante em que falei aquilo, a expressão de Estela mudou. Os olhos dela brilharam de um jeito estranho enquanto me analisava dos pés à cabeça, como se estivesse calculando algo. Mas não disse nada. Por sorte, papai já tinha pago aquele mês da faculdade. Os próximos, porém, eram um abismo à minha frente. Eu precisava arrumar um emprego. Precisava comprar o mínimo para sobreviver. O pouco dinheiro que eu tinha guardado não daria para tudo. Nos dias seguintes, saí de casa antes do sol nascer e só voltava quando ele já tinha ido embora. Entreguei currículos em lojas, mercados, farmácias, bares. Sorri mais do que devia, engoli respostas secas, ouvi promessas vazias. — A gente liga. Nunca ligavam. Quando finalmente consegui um emprego, foi como atendente em uma lanchonete pequena, escondida entre duas ruas movimentadas. O uniforme era apertado, o horário puxado e o salário… ridículo. No primeiro pagamento, fiz as contas sentada na cama estreita do quarto que dividia com caixas e silêncio. O dinheiro mal dava para ajudar Dona Luiza em casa, pagar passagem e comprar o básico. A mensalidade da faculdade parecia uma piada cruel escrita em números grandes demais para minha realidade. Trabalhava cansada, com os pés doendo, as mãos cheirando a gordura e desinfetante. Mesmo assim, não faltei às aulas. Não podia. Aquela era a única coisa que ainda me fazia sentir alguém. Na faculdade, os olhares começaram rápido demais. Alguns curiosos. Outros de pena. E os piores… de julgamento. Sussurros atravessavam corredores quando eu passava. Comentários velados sobre minha roupa simples, meu cabelo preso de qualquer jeito, meu atraso constante. Eu já não pertencia àquele lugar — e eles faziam questão de me lembrar disso todos os dias. — Ela não era filha do empresário? — ouvi uma vez, fingindo procurar algo na mochila. — Deve ter feito alguma coisa errada… — Essas sempre fazem. Engoli seco e segui andando.






