Capítulo 3

Continuação.

A chuva caía como uma sentença sobre mim. Meus pulsos ainda doíam pelo que tentei fazer, e o grande portão à minha frente trazia lembranças cruéis de tudo o que vivi naquela família. Olhei para trás, mas não havia mais nada ali para mim.

Andei por ruas e avenidas sem destino, encharcada, sem ter para onde ir. Em uma parada de ônibus, com as mãos trêmulas, peguei o celular e resolvi ligar para Dona Luiza — a antiga empregada da casa de papai, a única que sempre cuidou de mim de verdade.

(Ligação)

— Eu preciso da senhora…

Bastaram aquelas palavras. Ela não fez perguntas, não pediu explicações. Veio ao meu encontro sem hesitar. E foi assim que acabei acolhida em sua casa simples, onde morava com a filha, Estela.

[…]

— Você sofreu tanto, minha filha… — Dona Luiza dizia enquanto me enxugava com uma toalha quente.

Estela apenas me encarava, os braços cruzados.

— Que cuzão! — ela soltou, cerrando os dentes.

— Olha os modos, menina! — Dona Luiza repreendeu.

— Ele simplesmente cortou todos os laços comigo… se é que algum dia existiram — falei, a voz embargada. — Nem sequer olhou para mim. Só disse palavras duras e me expulsou de casa. Ele tirou até a faculdade de mim… — um soluço escapou antes que eu pudesse conter.

— Você pode ficar aqui — Dona Luiza disse, puxando-me para o peito num abraço apertado.

— A senhora tá louca, né? — Estela se levantou do sofá. — A gente mal tem pra nós duas. Como vamos sustentar mais uma?

— A gente dá um jeito — respondeu firme. — Não vou jogar essa menina na rua.

— Eu posso ir embora… — murmurei, levantando devagar. — Não quero incomodar.

— Ei — Estela bufou e voltou a se sentar. — Eu não quis ser grossa. Também não sou tão ruim a ponto de completar sua desgraça.

— Obrigada… — disse, sentindo o peso no peito aliviar um pouco. — Eu prometo que vou procurar um emprego e ajudar.

No instante em que falei aquilo, a expressão de Estela mudou. Os olhos dela brilharam de um jeito estranho enquanto me analisava dos pés à cabeça, como se estivesse calculando algo. Mas não disse nada.

Por sorte, papai já tinha pago aquele mês da faculdade. Os próximos, porém, eram um abismo à minha frente. Eu precisava arrumar um emprego. Precisava comprar o mínimo para sobreviver. O pouco dinheiro que eu tinha guardado não daria para tudo.

Nos dias seguintes, saí de casa antes do sol nascer e só voltava quando ele já tinha ido embora. Entreguei currículos em lojas, mercados, farmácias, bares. Sorri mais do que devia, engoli respostas secas, ouvi promessas vazias.

— A gente liga.

Nunca ligavam.

Quando finalmente consegui um emprego, foi como atendente em uma lanchonete pequena, escondida entre duas ruas movimentadas. O uniforme era apertado, o horário puxado e o salário… ridículo.

No primeiro pagamento, fiz as contas sentada na cama estreita do quarto que dividia com caixas e silêncio. O dinheiro mal dava para ajudar Dona Luiza em casa, pagar passagem e comprar o básico. A mensalidade da faculdade parecia uma piada cruel escrita em números grandes demais para minha realidade.

Trabalhava cansada, com os pés doendo, as mãos cheirando a gordura e desinfetante. Mesmo assim, não faltei às aulas. Não podia. Aquela era a única coisa que ainda me fazia sentir alguém.

Na faculdade, os olhares começaram rápido demais.

Alguns curiosos.

Outros de pena.

E os piores… de julgamento.

Sussurros atravessavam corredores quando eu passava. Comentários velados sobre minha roupa simples, meu cabelo preso de qualquer jeito, meu atraso constante. Eu já não pertencia àquele lugar — e eles faziam questão de me lembrar disso todos os dias.

— Ela não era filha do empresário? — ouvi uma vez, fingindo procurar algo na mochila.

— Deve ter feito alguma coisa errada…

— Essas sempre fazem.

Engoli seco e segui andando.

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