Mundo ficciónIniciar sesiónElena Santos tem dezenove anos, a conta do aluguel vencendo, a faculdade de Psicologia trancada e um currículo que só tem experiência em levar porrada da vida. A última tentativa é um anúncio de babá. Salário generoso. Moradia inclusa. Ela coloca a única blusa social que ainda tem botões e vai. Arthur Volpi é o dono da mansão. Quarenta anos. Viúvo. Bilionário. Conhecido no mercado financeiro como o "Inverno de Manhattan". Ele também é um pau no cu. A entrevista dura cinco minutos. Ele a humilha. Diz que ela é "inexperiente demais, muito jovem". Ela revida. Sai andando. Só que no saguão, a filha dele de seis anos, Lara, tem uma crise de pânico. Elena a ajuda e então Arthur a contrata. Ela é sol. Ele é gelo. Elena tem dezenove anos. Ela não quer salvar ninguém. Ela quer um teto, um salário, e que o Léo pare de pular na cama dela às seis da manhã. O problema é que o Léo chama ela de mãe por engano. A Lara volta a falar. O Arthur Volpi, o Inverno de Manhattan, chora abraçado nela no jardim de inverno. Agora ela tem que decidir: fica ou vai embora? Porque ele já decidiu. Ele quer ela. Mesmo odiando querer. E ela? Ela quer ele. Mesmo sabendo que não devia. O gelo está derretendo. Quando derreter de vez, não vai sobrar nada. Só fogo. --- Leia se você gosta de: homens gelados que derretem só para uma, protagonista que não cala a boca, crianças que roubam a cena, cenas quentes, e histórias que não fingem que amor é fácil. Porque não é. Mas quando é bom? Não precisa ser.
Leer másO endereço era num bairro que eu só conhecia de novela. Sabe aqueles lugares que têm mais árvore do que gente? Pois é.
O portão abriu sem fazer barulho. SILÊNCIO. Na minha casa tudo range, tudo chia, tudo reclama. Ali parecia que até o ar tinha medo de fazer barulho. A casa era enorme. Mas não daquele jeito brega de novo-rico com coluna e leão de mármore. Era uma casa que sabia que era cara. Que não precisava provar nada pra ninguém. Muro alto, hera trepando, jardim perfeito. A porta de madeira parecia que custava mais do que tudo que eu já ganhei na vida. Uma mulher de uniforme abriu. Me olhou. Me mediu. Eu senti o olhar dela descendo, descendo, descendo até os meus sapatos de couro falso rachando na lateral. Eu queria sumir. Virar fumaça. — Oi, você deve ser Elena — ela disse. Voz eficiente. Como se estivesse lendo um manual. — Sim — minha voz saiu meio estrangulada. Que ódio. — O senhor Volpi está esperando. O corredor. Madeira lustrosa. Meu reflexo no chão. Meu Deus, como eu estava acabada? A minha única blusa social com a gola desfiada. Meu cabelo que eu tentei alisar mas já tava armado de novo. Eu parecia... eu parecia o que eu era. Uma intrusa. A sala. Meu coração disparou de novo. Sofá de couro bege que parecia uma nuvem. Tapete persa. Livros. Plantas enormes. Lareira — quem tem LAREIRA em São Paulo? Gente que não precisa se preocupar com o preço do gás, só pode. E ele. Sentado. Nem se levantou. Arthur Volpi. Camisa branca, manga dobrada, barba perfeita, olhos escuros que não pediam licença pra nada. Ele me olhou. Dos pés à cabeça. Vagarosamente. Como se eu fosse um documento que ele estava lendo antes de amassar e jogar fora. — Sente-se — disse. Nem era uma ordem. Era uma sentença. Sentei. Na beirada. O couro rangeu embaixo de mim e eu juro que quis morrer ali mesmo. — Me diga por que eu deveria contratar você — ele fez uma pausa, e os olhos dele DESCERAM pra minha gola desfiada, SIM, ELE VIU — e não as centenas de mulheres que se candidataram, e muito mais qualificadas que você. Um soco. Sabe quando alguém te dá um tapa e você fala "não doeu"? Dói, sim. Doeu pra caralho. — Senhor, eu sou muito proativa e... — Sabe por que estou fazendo essa entrevista pessoalmente? — ele me cortou. Nem deixou terminar. — Não, senhor — eu disse, com a voz já meio falhando. Raiva. Vergonha. Os dois misturados. — Porque meus filhos são tudo para mim. — Ele inclinou o corpo um pouco. Só um pouco. Mas foi o suficiente pra eu sentir o peso. — E você não me parece a pessoa ideal. Não me parece. QUEM ele pensa que é? Quem ele pensa que sou? Eu queria gritar. Queria falar que não sou só a minha roupa. Que não sou só a minha cara de cansada. Que eu estudei, que eu lutei, que eu sobrevivi a coisas que ele nem imagina. Mas eu precisava do emprego. Respirei. Fundo. Me segurei. — Senhor, se me der essa chance, eu prometo que vou me esforçar — minha voz TREMEU, droga, ela tremeu — eu preciso mesmo desse emprego. Eu preciso. Mostrei a carta. Mostrei o desespero. Ele viu. Os olhos dele brilharam alguma coisa. Não sei o quê. Tal pena? Talvez tédio? Não sei. Só sei que ele já tinha me descartado. — Entendi — ele disse, recostando. — Mas não vai ser possível. Você é inexperiente demais e muito jovem. Inexperiente. Muito jovem. Me levantei. Minhas pernas tremiam, mas eu não ia deixar ele ver. Ajeitei a bolsa no ombro. Puxei o cabelo. Olhei pra ele. — O senhor está certo — eu disse. Minha voz saiu limpa. Clara. Fria. A única coisa limpa em mim naquele momento. — Os seus filhos devem ser tudo para você. Por isso mesmo, eles mereciam alguém que soubesse olhar para uma pessoa sem julgá-la pelo que ela veste. Alguém que entendesse que a necessidade não é vergonha, e que juventude não é defeito. Mas o senhor não vai encontrar essa pessoa hoje. Virei as costas. Atravessei a sala. O tapete persa debaixo dos meus sapatos furados. A lareira fria. Os porta-retratos com os sorrisos das crianças. Eu não era a pessoa ideal. Nunca fui.-Depois do kart, fomos para a roda-gigante.O Léo não quis ir. "É ALTO DEMAIS!" Ele ficou com o Arthur, comendo algodão-doce. A Lara subiu comigo. A cabine era pequena, de madeira pintada, com uma janela redonda. O sol entrava. O vento batia.A Lara sentou ao meu lado. O caderno no colo.— A senhora gosta do meu pai?— Gosto.— Muito?— Muito.— Mais do que ele gosta da senhora?— Não sei.— Ele gosta muito. Eu vejo.— Como você vê?— O olho dele brilha.— Brilha?— Brilha. Quando a senhora chega. Quando a senhora fala. Quando a senhora ri.Meu coração apertou.— E você? Gosta de mim?— Gosto.— Muito?— Muito.— Mais do que do seu pai?— Diferente.— Diferente como?— O pai é pai. A senhora é... — ela pensou. — É casa.A roda-gigante subiu. A cidade apareceu. Os prédios, as casas, as árvores. O céu.— Casa? — perguntei.— Casa é onde a gente se sente seguro. O pai é seguro. Mas a senhora é quente. Casa quente.Eu não sabia o que dizer. Então segurei a mão dela. Ela apertou de volta.
Elena— Não vou.— Vai.— Não vou.— Elena.— Arthur.Ele suspirou. A paciência dele estava no limite. Fazia dez minutos que a gente discutia no meio do corredor, eu com os braços cruzados, ele com a chave do carro na mão.— É só um parque de diversões.— "Só um parque de diversões" não existe. É um parque. De diversões. Com gente. Barulho. Fila. Criança chorando. Criança correndo. Criança...— Você é criança.— Sou, não. Sou adulta.— Adulta que tá fazendo birra.— Tô não.— Tá, sim. Igual o Léo quando não quer comer cenoura.— Cenoura é diferente.— É a mesma coisa.— Não é.— É.— GENTE! — Léo interrompeu, aparecendo correndo com o tênis no pé errado. — A GENTE VAI OU NÃO VAI?— Vai — Arthur respondeu, me olhando.— VAI — eu respondi, bufando.Léo gritou. Correu para o carro.A Lara apareceu devagar. O caderno de desenho debaixo do braço. A mochila nas costas. Ela me olhou. Depois o pai.— Vocês brigaram?— Não.— Sim.— Nós discutimos.— É a mesma coisa.— Não, não é.— É, sim. Ma
ElenaDuas horas depoisO carro preto deslizou pelo portão. Arthur já tinha ido. Reunião. Ele foi. Contra a vontade. Mas foi. Eu tomei banho. Vestir um short azul e uma regata branca. O cabelo preso. Os pés descalços.O carro parou. O Sebastião desceu. Abriu a porta.As crianças saíram correndo.— ELENA! — Léo gritou. Ele se jogou no meu pescoço. Quase me derrubou. — A VOVÓ COMPROU UM CELULAR PRA MIM!— Um celular? Você tem seis anos.— É DE MENTIRA!— Ah.— MAS É IGUAL O SEU! TEM TELA! TEM BOTÃO! TEM SOM!Ele apertou um botão. O celular fez "piu". Ele sorriu.— Legal — eu disse.— LEGAL? É O MÁXIMO!Lara chegou devagar. Segurando o caderno de desenho. O caderno novo, a capa de couro, o presente da avó. Ela não correu. Ela nunca corria. Ela andou até mim. Me olhou. Abriu o caderno.Era um desenho. A casa. O jardim. O sol. Um homem, uma mulher, duas crianças. Em cima do homem: "PAI". Em cima da mulher: "ELENA". Em cima das crianças: "EU" e "LEO".— A vovó ajudou? — perguntei.— Só com
ElenaAcordei com o sol na cara.Não era o sol chato de São Paulo, cinzento e preguiçoso. Era um sol dourado, quente, que entrava pelas frestas da cortina pesada e pintava o quarto de luz. E acordei com braços em volta da minha cintura. Braços fortes. Pesados. Quentes.Tentei me soltar. Devagar, sem fazer barulho. Deslizei o quadril para o lado, puxei a cintura, tentei escapar. Ele puxou mais forte. Meu corpo colou no dele de novo. O peito dele nas minhas costas. A respiração quente no meu pescoço. A barba por fazer roçando a minha pele.Sorri.— Eu sei que você não está dormindo.— Hmmm — ele murmurou. A voz rouca de sono. O braço apertou mais. Eu ri. Uma risada sincera, gostosa, que escapou sem pedir licença.— Eu tenho que me preparar. As crianças já estão voltando.— Elena... — ele arrastou a mão pelo braço, pegou o celular no criado-mudo, apertou os olhos para a luz da tela. — São 7 e 34 minutos.— Sim. E você tem que trabalhar.— Eu sou o dono da empresa.— Ainda assim.— Ainda
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