Mundo ficciónIniciar sesiónEra quase meia-noite quando eu ouvi o barulho.
Estava no quarto, tentando ler um artigo pra faculdade — "Transtorno de Ansiedade Infantil: Abordagens Terapêuticas" — mas minha cabeça não parava quieta. Tinha tomado banho, vestido o pijama (um short e uma camiseta surrada do Nirvana), e me enfiado debaixo dos lençóis brancos cheirosos. Foi quando o portão abriu. Barulho de carro. Depois porta batendo. Depois passos arrastados no saguão. Pesados. Instáveis. Eu levantei da cama sem pensar. Bobagem. Eu não tinha nada a ver com aquilo. Não era da minha conta. Mas meus pés já estavam andando. No corredor, a luz era fraca. Só um abajur no fim da escada. O silêncio era tão absoluto que eu conseguia ouvir meu próprio coração. E aí eu vi a silhueta. Ele estava cambaleando. O paletó pendurado no ombro, a gravata frouxa, os cabelos bagunçados. Bêbado. Arthur Volpi, o gelado, o controlador, o homem que ensaiava cada palavra antes de falar — estava completamente bêbado. Eu congelei. Ele parou. Meu coração disparou. — Elisa...? — a voz dele saiu estranha. Rouca. Quebrada. Não era a voz que eu conhecia. Elisa? Ele deu um passo na minha direção. Atrapalhado. Os olhos vidrados, tentando focar. — Elisa, sou eu... eu tô aqui... — Senhor Arthur — eu tentei, recuando um passo. — Sou a Elena. A babá. A senhora está enganado... Ele não ouviu. Ou não quis ouvir. Outro passo. Outro. Até que eu bati nas costas contra a parede fria do corredor. Ele veio. Parou a centímetros de mim. Eu senti o cheiro de uísque, de colônia cara, de algo escuro e quente. Senti o calor do corpo dele irradiando. Senti cada músculo na penumbra. — Elisa — ele sussurrou. A mão dele subiu, tocou meu rosto. E eu... eu não consegui me mexer. — Você voltou. Sabia que você ia voltar. A mão dele estava na minha bochecha. Quente. Trêmula. Meu corpo inteiro reagiu. Foi como se um choque elétrico tivesse percorrido minha espinha, descido pelos meus ossos, chegado nas minhas pernas que começaram a tremer. Minha respiração ficou presa. Meu peito subia e descia rápido demais. Ele encostou a testa na minha. Olhos fechados. murmúrio. — Não sai de novo... por favor... não sai... — Eu não sou... — tentei de novo, mas a palavra morreu na garganta. Porque aí ele me prensou. Os dois braços na parede, ao lado da minha cabeça. O corpo colado no meu. Peito no peito. Quadril no quadril. Eu senti CADA CENTÍMETRO. O calor dele. A dureza. O cheiro. Meu Deus. Meu Deus do céu. Era errado. Tudo errado. Ele estava bêbado. Ele estava confundindo. Ele era meu chefe. Ele me tratava igual lixo. Ele me proibiu de falar com ele. Então por que minha mão estava subindo? Por que meus dedos tocaram o peito dele? Por que eu não afastei? — Elisa — ele gemeu, e o som daquela voz, daquele gemido, foi direto pra um lugar que eu nem sabia que existia dentro de mim. Os lábios dele roçaram a minha testa. Depois minha têmpora. Depois minha bochecha. Não beijou. Roçou. Como se estivesse tateando no escuro. — Eu sinto tanto a sua falta... Meu coração ia explodir. Minhas pernas ia ceder. A parede fria nas minhas costas, o corpo quente na minha frente — o contraste era quase insuportável. E aí, de repente, ele parou. Os olhos dele se abriram. Tentaram focar. Viram meu cabelo bagunçado. Meus olhos arregalados. Minha camiseta do Nirvana. O rosto dele mudou. A confusão deu lugar a alguma coisa parecida com horror. — Você não é... — ele recuou um passo. — Quem... — Elena — respondi, a voz saindo estrangulada. — A babá. O choque no rosto dele foi instantâneo. Fúria. Vergonha. E alguma outra coisa que eu não consegui identificar. Ele deu mais dois passos para trás, como se eu fosse uma cobra prestes a picar. A mão passou pelo cabelo, desgrenhando ainda mais. — Isso... isso não aconteceu — a voz dele já estava gelada de novo. O gelo voltando no lugar daquele calor insuportável. — Você não viu nada. A senhora vai esquecer. E virou as costas. Subiu a escada cambaleando, mas com uma dignidade forçada, como se cada passo fosse uma batalha contra si mesmo. Eu fiquei ali. Paralisada. Encostada na parede. Minha mão ainda tremia. Meu corpo inteiro tremia. E entre minhas pernas, uma umidade quente e vergonhosa. Porque, apesar de tudo — do medo, da confusão, da humilhação — o meu corpo tinha respondido. E como tinha respondido. — Puta merda — sussurrei sozinha no corredor escuro. Voltei pro quarto. Tranquei a porta. Deitei na cama e fiquei olhando pro teto por um longo tempo, com o coração batendo tão forte que doía. Eu não devia sentir nada. Ele era um babaca. Era frio. Era arrogante. Tinha me humilhado. Tinha me proibido de falar com ele. Mas o calor da mão dele ainda queimava no meu rosto. O cheiro dele ainda estava no meu cabelo. E aquele gemido — "Elisa" — ainda ecoava dentro de mim.






