Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu respirava fundo, tentando não chorar. Porque eu ia chorar. Sabia disso. A hora que eu entrasse no ônibus, ia desabar. Ia soluçar igual uma criança. Ia babar no colo da minha blusa e fingir que estava com alergia.
Foi quando eu ouvi. No começo achei que era coisa da minha cabeça. Um gemido abafado, lá de cima. Depois um soluço. Depois um grito. A funcionária gelou. — A Lara — ela sussurrou. A voz trincou. A mulher de aço tinha acabado de derreter. Passos no andar de cima. Portas batendo. A voz dele — Arthur Volpi, o gelado, o arrogante, o dono do tapete persa — gritando: — Lara! Lara, respira! Outra voz. Uma criança. Um menino. — Pai, o que a Lara tem? Pai, ela vai ficar bem? — Léo, vai para o seu quarto AGORA. — Mas eu quero ficar com ela! — AGORA, LÉO! Meus pés simplesmente se moveram. Subi a escada de madeira tão rápido que quase tropecei. A funcionária gritou alguma coisa atrás de mim, mas eu já não ouvia. Só ouvia aquele som. Aquele desespero. Eu conhecia aquele som. Passei por um corredor comprido. Portas de ambos os lados. Uma aberta. Luz vazando. Entrei. O quarto era de menina. Parede lavanda. Cama de dossel com cortina cor-de-rosa. Bichos de pelúcia alinhados na escrivaninha — coelhos, ursos, uma raposa laranja. Tudo perfeito. Tudo limpo. Tudo organizado. Exceto o que estava no chão. Lara. Ela não podia ter mais de seis anos. Era minúscula. Estava encolhida igual um ouriço, os joelhos no peito, os braços em volta da cabeça. Tremia. Tremia inteira. Parecia que ia se despedaçar a qualquer momento. Os olhos dela estavam arregalados. Vidrados. Abertos demais. Mas não estavam vendo nada. A boca se mexia, tentando formar palavras, mas nada saía. Ajoelhado ao lado dela estava ele. Arthur. O homem que me humilhou há dez minutos. Agora estava com a camisa branca amassada, o cabelo bagunçado, os olhos vermelhos. — ONDE ESTÁ O REMÉDIO? — ele gritou pra alguém atrás de mim. A voz trincou de vez. — Não achamos, senhor. A Lara escondeu de novo, ela não gosta de tomar... Um xingamento baixo. Pesado. Nunca ouvi ninguém xingar com tanto medo. E aí ele me viu. O olhar dele foi de ódio puro. — O que você está fazendo aqui? Sai. Isso não é da sua conta. Você não tem... — CALA A BOCA. Eu não gritei. Foi baixo. Mas foi firme. Ele calou. Uma garota de dezenove anos, com roupa velha e cara de cansada, tinha acabado de mandar o Arthur Volpi calar a boca dentro da própria casa. Eu nem esperei reação. Sentei no chão. Bem na frente da Lara. Não encostei nela. Coloquei as mãos nos joelhos, abertas, pra ela ver que eu não tinha nada escondido. Aí eu respirei. Fundo. Devagar. Puxei o ar pelo nariz contando até quatro. Segurei por dois. Soltei pela boca contando até seis. Fiz barulho ao soltar. Um barulho suave. O ar passando. Shhhhh. Não pedi pra ela imitar. Pedi nada. Só respirei. Shhhhh. Lara continuou balançando. Tremendo. Os olhos vidrados. Mas eu não parei. Atrás da porta, o menino — Léo — ainda chorava. Apertei meu coração. Depois eu pensava nele. Agora não. Shhhhh. E aí... aí alguma coisa mudou. O balanço começou a diminuir. Devagar. Quase imperceptível. Mas diminuiu. Os ombros dela, que estavam duros igual pedra, começaram a cair. — Você está indo muito bem, Lara — sussurrei. Minha voz saiu macia. A voz que eu queria ter ouvido quando era pequena e o mundo desabava. — Você não precisa fazer nada. Só ouvir. Só ficar aqui. Os olhos dela piscaram. Lentamente. Como quem acorda de um pesadelo. Ela me viu. Não sabia quem eu era. Não sabia por que eu estava ali. Mas me viu. Mais uma respiração. Mais outra. O choro foi virando soluços. Os soluços foram virando fungadas. As fungadas foram virando silêncio. Lara desencolheu os ombros. As mãos caíram pro colo. Ela piscou de novo. Olhou pro pai. Depois pra mim. — Eu... eu não consigo... respirar — a voz dela era fina, quebrada, mas era uma VOZ. Ela falou. Estava falando. — Você está respirando agora — eu disse, apontando pro peito dela. — Olha. Subindo e descendo. Você está respirando. Já conseguiu. Ela olhou pro próprio peito como se fosse a coisa mais incrível do mundo. — O remédio... está no estojo azul... eu escondi... Arthur se levantou num pulo. Achou o estojo. Um comprimido. Água. A menina tomou com a mão trêmula. Eu só fiquei ali. Olhando. Funcionárias entraram. Uma com cobertor. Outra com água. Ajudaram Lara a levantar. Ela estava pálida, suada, os cabelos loiros colados na testa. Mas estava em pé. Eu me levantei devagar. Meus joelhos doíam. Minha saia estava amassada. Molhada no joelho. Aí eu olhei pra ele. — O que você fez? — a voz dele saiu rouca. Não era grossa. Era... vulnerável. E isso me assustou mais do que qualquer grosseria. — Eu só respirei, senhor — respondi, baixando os olhos. Não por submissão. Porque doía olhar pra ele daquele jeito. Desmontado. — Terceiro semestre de Psicologia. A gente aprende algumas coisas. Arthur observou os dois filhos. Depois virou pra mim. — O emprego é seu. Moradia inclusa. Salário bruto. Começa hoje.






