Mundo ficciónIniciar sesiónEle construiu um império baseado em controle e precisão. Ela cria fragrâncias guiada pelo instinto e pelo desejo. Eles se encontram uma vez — apenas negócios — e nada volta a ser como antes. Porque, no momento em que seus mundos colidem, algo mais profundo toma forma. Não é só atração. É reconhecimento. Do tipo que fica na pele, que vibra por trás de cada olhar, de cada toque acidental. Em particular, a conexão se torna inebriante — fácil, avassaladora, impossível de ignorar. Como se tivessem sido feitos para desvendar um ao outro. Ele não está acostumado a perder o controle. Ainda assim, com ela, a contenção escapa por entre seus dedos. Ela desperta algo mais sombrio, mais possessivo… algo que quer mais do que um gosto passageiro. Ela sabe que não deveria se apaixonar. Ele é tudo o que ela passou a vida evitando — poderoso, exigente, perigoso de maneiras que vão muito além da superfície. E, ainda assim, seu corpo a trai, inclinando-se à gravidade dele, desejando a forma como ele a olha como se ela já lhe pertencesse. O que eles têm arde rápido demais, fundo demais. Cada toque permanece. Cada momento se alonga. Cada limite se desfaz. Eles dizem a si mesmos que é temporário. Apenas desejo. Apenas calor. Mas um desejo assim não desaparece — ele se infiltra, se instala, toma posse. E quanto mais se aproximam, mais difícil se torna dizer onde a paixão termina… e a obsessão começa.
Leer másDário
Essas reuniões da empresa me deixam de cabelo em pé.
A única coisa que ouço são reclamações e queixas; esses velhos esquecem com quem estão lidando. Costumo sentar na cabeceira da mesa; à minha direita fica Romina, minha secretária, e à esquerda, Felipe, esse inútil que tenho a ousadia de chamar de amigo. Passo três horas tentando blindar meu cargo. Meus dias estão escritos numa agenda, programados. Começam com a escolha de um terno e terminam quando eu o tiro.
Chegar ao apartamento à noite e ouvir apenas o murmúrio do motor da geladeira e os miados de Cristóbal marca o fim do meu dia.
Lá eu respiro um pouco: coloco música, encho o prato de Cristóbal enquanto ele corre de um lado para o outro, sobe e desce dos móveis, e abro uma garrafa de vinho antes do jantar.
Deve ser algo já incorporado no meu jeito de ser. Viver de forma rígida. Mas é a vida que escolhi: assumir a rede de hotéis da família. No canto da sala, ao lado da poltrona, está a prova dos meus anos de trabalho. Gosto de me aproximar e olhar para ela de cima: o Monteiro Riviera, a maquete do edifício.
Ninguém acreditava no projeto. Levei dois anos para tirá-lo do papel: conseguir o imóvel, reformá-lo, decorá-lo. Quando finalmente ficou pronto, virou o hotel-marca. Tenho orgulho; ele foi reconhecido no World Travel Awards como o hotel mais luxuoso do mundo.
Minha outra conquista — a maior de todas — é, sem dúvida, Caetano, meu filho. Mas ele mora com a mãe; decidimos que era o melhor quando conversamos sobre o divórcio com Letícia. Foram dez anos de casamento, dez anos de nada. Por isso, assinar os papéis não foi muito difícil para nenhum dos dois.
Na verdade, foi Letícia quem levantou a ideia do divórcio.
Naquela tarde, ela me pediu para ir ao restaurante onde costumávamos almoçar. Cheguei atrasado; sempre havia algo que me retinha. Ela nem se abalou — já estava acostumada. Pedimos café e ela cruzou as pernas antes de falar:
— Quero que a gente se divorcie — pelo menos esperou o garçom se afastar alguns passos —. Faz um tempo que conheci um homem; ele é advogado e trabalha numa empresa de investimentos. A gente tem se visto.
Imaginei que qualquer outro marido no meu lugar, qualquer outro homem, teria se sentido humilhado ou traído. Tomei um gole de café. Embora sentisse uma pontada de inveja, ela havia encontrado alguém que a fazia sentir de verdade. Pensei que, lá no fundo, eu estivesse esperando que isso acontecesse.
— Como você quer fazer isso?
— Isso não te incomoda? Bom, na verdade, nem espero que te incomode — disse ela.
— Não, não me incomoda. Confesso que sinto uma pontada de inveja, mas você merece ser feliz como qualquer pessoa.
O processo foi simples: ela pediu o que lhe cabia — e um pouco mais, também. Eu ia negar isso a ela? Ela é a mãe do meu filho. Combinamos os dias que Caetano passaria comigo, embora fosse morar com ela.
Voltar à vida de solteiro me jogou de volta naquele processo inteiro de conhecer alguém. Aos quarenta e dois anos, isso é tedioso. Você já sabe o que procura, como prefere e o que não aceita. Quero companhia e sexo, sem melodramas e fora do meu apartamento.
Encontrar alguém com a mesma perspectiva é muito difícil. Não me considero um mulherengo nem um machista. Sei que existem mulheres que pensam igual a mim — sobretudo aquelas que estão fartas de mentiras e de relacionamentos que não levam a lugar nenhum. Não sou o tipo de homem que enche a orelha de elogios para conseguir uma transa.
Felipe acha que estou ficando velho e que perdi o tesão. Eu acho que ele é um idiota. Ele é casado, tem duas filhas e uma amante. Acredita nessa história de que homem só é homem de acordo com quantas "descargas" consegue numa semana. A esposa sabe, as filhas sabem, e quem leva a pior é sempre a outra.
Conheço a Renata. Ela trabalha na empresa, no departamento de contabilidade. É jovem e bonita, mas, pelo que parece, não muito esperta. Não é a primeira conquista do Felipe no escritório, mas essa já dura um bom tempo.
A gente se conheceu na faculdade e sempre foi assim com ele. Tem uma necessidade constante de estar cercado de mulheres ou de dormir com elas. Como ele faz isso, presume que todo homem deve fazer o mesmo. E por isso não se cansa de insistir para que eu me apresente a alguém.
Caí duas vezes nas armações dele. Me arrependi nas duas.
A primeira foi uma amiga da esposa. Jantamos num daqueles restaurantes onde até a água custa uma fortuna. Ela chegou produzida como se fosse desfilar no tapete vermelho do Oscar: impecável, altiva e muito bonita. Mas quando abriu a boca, me deixou sem chão.
— Desculpa pelo atraso, mas o trânsito a essa hora é uma merda. O que a gente pede?
Todo o charme daquela aparência não tinha nada a ver com a linguagem ou os modos dela. Ela abriu o cardápio como se fosse um pacote de salgadinho. Não me incomodam palavrões nem gestos bruscos, mas aquele contraste tão marcado realmente me tirou do sério.
Na cama é diferente. Gosto de mandar e ser obedecido; gosto de ouvir gemidos misturados com palavrões. Isso me excita, me deixa fora de mim. Vê-las tentando respirar enquanto me afundo completamente nelas, fazer com que me olhem nos olhos enquanto me chupam.
Quando a levei para o hotel, achei que ela fosse ser tão grosseira na cama quanto na conversa. Mas ela acabou sendo um peixe morto jogado na cama, que só abriu as pernas para mim. Sem emoção, sem excitação. Só sexo porque era o próximo passo. Decepcionante.
De qualquer forma, fiquei duro quando a vi nua. Ela tinha seios grandes, coxas grandes também e uma bunda deliciosa. Quis enfiar um dedo nela enquanto ela ficava de quatro, mas ela se assustou tanto que me apertou com força — e eu gostei. Então continuei tentando, só para que ela continuasse reagindo do mesmo jeito.
Ela me fez gozar assim, sem nem perceber. Pintei as costas dela todinha de branco. Foi aí que soube que não iríamos muito além, porque ela desabou sobre os lençóis, ofegante.
Sou um cavalheiro: não saí correndo depois de transar com ela. Passamos a noite no hotel. Ela, dormindo; eu, me batendo no banheiro para dar vazão ao tesão que ainda me restava.
Na manhã seguinte, a levei para casa e não a vi mais.
LíviaO hotel era lindo. Renata me havia mostrado as fotos nas redes sociais, mas elas não chegavam nem perto da estrutura real.A cidade estava cheia de prédios assim: uma mistura de estilos arquitetônicos, texturas e épocas. Se alguém caminhasse pelo centro, pelo coração da cidade, prestando atenção de verdade, o lugar virava um labirinto temporal e espacial.Felipe estava na porta, recebendo a equipe. Cheguei cedo para me instalar com calma, para não entrar em pânico quando as pessoas já estivessem lá dentro.—Vou te mostrar onde você pode se acomodar —disse Felipe, indicando o interior de uma sala.—Tudo bem —respondi.A sala não era muito grande; funcionava como sala de espera ao lado da recepção. Obviamente, tinham reformado parte do interior. Alguns móveis da época tinham sido recuperados ou garimpados e combinados com esculturas minimalistas e quadros modernos.Felipe ia e vinha, e de vez em quando parava para perguntar se eu precisava de alguma coisa. Vendo-o assim, no seu el
DárioEla estava parada, o corpo tomado pela raiva e as mãos trêmulas, juntando suas coisas às pressas. Fiquei em silêncio e a observei da cabeça aos pés: cabelos castanhos, olhos castanhos; a boca que terminava num arco de cupido bem marcado e a linha do pescoço que se dissolvia nas clavículas. Não era uma beleza de capa de revista, mas, pra mim, ela era linda.Ela com certeza me achou um pervertido.Eu tinha esquecido completamente que a experiência incluía ela com seus perfumes. Estava tão envolvido com a reforma que deixei meu sócio cuidar do resto.Não sei o que me deu ao entrar no Nostalgia, mas me virei automaticamente para o canto de onde vinha a discussão. Do hall, eu não precisava ouvir nada — o rosto de Lívia dizia tudo.Vi a expressão desesperada do Felipe e como ele se aproximava quase correndo, e fui atrás.— Você é amiga daquela vadia — ouvi ele dizer. Ela se virou com um pano na mão; estava limpando algo que havia caído sobre a mesa onde guardava seus perfumes.A mulhe
LíviaA dona Velázquez era uma das minhas clientes habituais. Ela comprava perfumes para si, para a irmã, para dar de presente. Trazia as amigas — quase as arrastava —, mas elas também voltavam. Tinha uma fragrância favorita e, pelo jeito, tomava banho com ela, porque todo dia seis do mês entrava na loja e pedia mais.— Aquela velha é doida, o que ela vai fazer com tantos perfumes?— Ela me disse que é o aroma do marido falecido, Renata. Deve espalhar por tudo quanto é lugar.Eu guardava minha própria lembrança engarrafada, por isso a entendia e me esforçava para torná-la perfeita. A minha era a do meu pai — uma lembrança distante, e eu não podia garantir que fosse exatamente aquele o aroma certo. Mas gostava de pensar que sim.Não sabia bem como fazia, era algo natural, embora às vezes fosse mais difícil. Como na semana passada: entrou um homem meio estranho, que tinha vindo por indicação de outro cliente. Me disse que queria um perfume que trouxesse de volta a época em que havia viv
LíviaAbro a Essenza como sempre, pontualmente às nove. Gosto do ritual de acordar cedo, tomar banho, preparar um café e aproveitar meu tempo antes de sair. Nunca entendi as pessoas que acordam quinze minutos antes de encarar o dia. Eu não consigo; tenho a sensação de estar desperdiçando algo.Cinco quarteirões separam meu apartamento da loja. Percorro-os toda manhã sem pressa, sem correria, cumprimentando os vizinhos. Quatro em cada cinco dias piso em cocô de cachorro — nunca falha. Por isso, quando termino de levantar a persiana metálica, tiro os sapatos antes de entrar. Já me acostumei a ter sempre um par — às vezes dois — guardado no estúdio.Tenho uma perfumaria. Uma perfumaria artesanal, e é uma coisa linda. Não porque eu diga, mas porque meus clientes a descrevem assim. Coloquei minha alma em cada detalhe: do beiral pendem frascos de formas e tamanhos diferentes. Adoro como a luz do sol se quebra neles, como se fossem lanternas acesas. Uma passiflora que plantei abrindo o chão
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