Mundo ficciónIniciar sesiónNa manhã seguinte, eu acordei com o coração já apertado.
Não dormi direito. Fiquei revirando na cama até umas três da manhã, remoendo cada segundo. A mão dele no meu rosto. O peito dele contra o meu. Aquele gemido. Aquela confusão. Quando o sol entrou pela janela, eu já estava de pé. Tomei um banho demorado, tentei me arrumar como se nada tivesse acontecido. Coloquei um vestido leve — um dos poucos que eu tinha, de algodão azul desbotado — e prendi o cabelo num coque frouxo. Respirei fundo. Segue o jogo. Desci para a cozinha. Jussara já estava lá, fazendo panquecas. O cheiro era divino. — Bom dia, senhorita — ela disse, sem tirar os olhos da frigideira. — Bom dia, Jussara. Precisa me chamar de senhorita não. Elena tá bom. Ela deu um sorriso pequeno. — Elena, então. A senhorita... quer café? Desisti. Ela ia me chamar de senhorita até o fim dos tempos. Peguei a xícara e fui para a sala. O coração martelando. Se ele estivesse ali... se ele fosse... Não estava. O sofá vazio. A mesa vazia. Só o silêncio. Dona Marta apareceu. — O senhor já saiu. Reunião cedo. Um alívio. E, ao mesmo tempo, uma ponta de... decepção? Não. Decepção não. Curiosidade. Raiva. Um misto de tudo. — Ele... ele chegou tarde ontem? — perguntei, tentando soar casual. Dona Marta me olhou de lado. — Chegou. E saiu cedo. É assim. É assim. Ninguém falava nada. Ninguém comentava. O assunto "senhor" era igual o assunto "falecida esposa": proibido. --- As crianças me salvaram. Léo veio correndo com um brinquedo novo — um dinossauro de borracha que rugia quando apertava a barriga. — ELENA, OLHA! Ele morde! Quer ver? — Mostra. O dinossauro mordeu o dedo dele. Ele gritou. Depois riu. Depois colocou o brinquedo na minha mão. — Agora você. — Ele vai morder meu dedo? — Claro. É um tiranossauro. Eles mordem todo mundo. Ri. Sentei no chão da sala e comecei a brincar com ele. Lara estava perto, encostada no sofá, me observando. Como sempre. A sombra silenciosa. — Lara, vem brincar — chamei. — A gente pode fazer o dinossauro lutar contra o... contra o quê? Você tem outro bicho? Ela pensou por um momento. Depois foi até o quarto e voltou com um triceratops de pelúcia. Sentou do meu lado. Sem dizer uma palavra. Mas sentou. Foi aí que eu vi. O jardim. Através da porta de vidro. O jardim enorme, verde, com flores que eu nem sabia o nome. E além do jardim, a piscina. E além da piscina... ele. Arthur. De volta. Mais cedo do que eu esperava. Ele estava encostado na sacada, no andar de cima. Camisa branca (sempre branca), manga dobrada, café na mão. Olhava para o jardim sem ver. E aí os olhos dele encontraram os meus. Meu coração parou. Os segundos se alongaram. Ele não sorriu. Não acenou. Não fez nenhum sinal. Apenas... olhou. Com aqueles olhos escuros que eu já conhecia bem. Só que agora tinha alguma coisa diferente ali. Não era mais só frieza. Era outra coisa. Uma fenda na armadura. Uma trinca no gelo. Eu desviei o olhar primeiro. Droga. No jardim, mais tarde, eu estava brincando de bola com Lara. Tinha tirado os sapatos. A grama estava molhada. Meu vestido azul voava com o vento. Corri, pulei, fingi que era goleira. Lara ria. Léo gritava "GOL! GOL!". Foi quando eu senti. Aquele olhar. De novo. Ele estava na sacada. A mesma posição. O mesmo café (ou outro, sei lá). Mas os olhos... os olhos dele estavam cravados em mim. Não no rosto. Nas minhas pernas. Meu vestido tinha subido um pouco com a corrida. Nada demais. Só um pouco acima do joelho. Mas os olhos dele... meu Deus... parecia que ele estava queimando cada centímetro da minha pele. Eu senti um arrepio. Da nuca até a base da coluna. E aí desceu. Desceu mais. Até um lugar que eu não queria admitir. Parei de correr. Endireitei o vestido. — Tudo bem, Elena? — perguntou Léo, puxando minha mão. — Tudo, amor. Tudo. Olhei pra cima. Ele ainda estava lá. A expressão impenetrável. Mas os olhos... os olhos traíam o resto. E aí ele simplesmente virou. Entrou. A porta de vidro fechou com um clique. Como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei ali. Parada no meio do jardim. Com os pés descalços na grama molhada e o coração na garganta. — Ele te observa muito — disse Lara. Minha respiração falhou. Lara tinha falado. Uma frase completa. Direto. Sem titubear. — O quê? — me ajoelhei na frente dela. — Lara, você falou! Ela deu de ombros. Como se não fosse nada. Mas tinha um brilho diferente nos olhos. — Ele te observa. Quando você não olha. Meu Deus. A menina não falava há meses. E a primeira frase que ela solta é sobre o pai me secando? — Lara... o que você quer dizer? — Nada — ela se virou, pegou a bola, e correu na direção do Léo. — Vamos jogar! Fiquei ali, ajoelhada na grama, tentando processar. A menina falou. Por minha causa. Porque ela se sentiu segura. E, ao mesmo tempo, o pai... o pai tinha me olhado como se eu fosse a coisa mais tentadora e mais perigosa que já pisou naquela casa. Bia ia pirar quando eu contasse. Eu também ia pirar. Porque, no fundo, eu sabia de uma coisa: O gelo estava derretendo. E quando ele derretesse de vez, eu não fazia ideia do que ia sobrar. Nem se eu ia sobreviver.






