Mundo de ficçãoIniciar sessãoMEU DEUS.
Moradia. Um teto. Um lugar sem barata. Sem mofo. Sem vizinho batendo na parede às três da manhã. Moradia. — Mas — ele ergueu um dedo. E o Arthur Volpi da entrevista voltou. Aquele homem duro. Blindado. — Com uma cláusula. Meu coração apertou. Sempre tem uma cláusula. Sempre tem um "mas". — Qual? — perguntei, já me preparando pra merda. — Não me dirija a palavra a menos que seja sobre Lara ou Léo. — Cada palavra foi um prego. — Não quero saber da sua vida. Dos seus problemas. Das suas opiniões. Não quero amizade. Não quero conversa. Você cuida das crianças. Do resto, você cala. Está claro? Meu sangue ferveu. Quer dizer, eu posso morar na sua casa, cuidar dos seus filhos, respirar o seu ar, mas não posso abrir a boca perto de você? Respirei. — Está claro, senhor — eu disse, olhando fixo nos olhos dele. Ele segurou meu olhar. Acho que esperava briga. Esperava choro. Não sei. Mas eu não desviei. Ele desviou primeiro. — A funcionária mostra o seu quarto. Fica no fundo do corredor, perto das crianças. — Ele já estava virando as costas. — Amanhã as regras valem. Hoje você se instala. E entrou no quarto dos filhos. Fechou a porta. Fiquei parada no corredor. O piso de madeira rangendo sob meus pés. O silêncio. Meu coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca. A funcionária apareceu do meu lado. Dessa vez, o olhar dela não era de desprezo. Era diferente. Respeito? Pena? Não sei. — Vou te mostrar o quarto, senhorita. Seguimos pelo corredor. Quarto simples. Mas maior do que qualquer lugar onde eu já morei. Cama de solteiro com lençóis brancos. Cômoda. Janela enorme pro jardim. Armário vazio. Ela disse que o banheiro era no fim do corredor. Que o jantar era servido às oito. Que eu não devia circular pela casa depois das dez. — O senhor é muito rigoroso com regras — ela completou, com um meio sorriso que não era sarcasmo. Era um aviso. Quando ela saiu, eu fechei a porta. Sentei na cama. O colchão era macio. Macio DEMAIS. O meu corpo doía. Tanto ônibus. Tantas noites mal dormidas. Tanto peso nas costas. Deitei. Olhei pro teto. Um teto que não era meu. Uma casa que não era minha. Regras que me transformavam em invisível. Mas um trabalho. Um salário. E duas crianças que precisavam de mim. E aí eu pensei nele. Arthur. O gelado. O arrogante. O homem que me tratou igual lixo e depois... depois me viu acalmar a filha. E os olhos dele... por um segundo... eles brilharam diferente. Não. Não vou por esse caminho. Ele é meu chefe. É um idiota. É um arrogante de merda que me proibiu de falar com ele. Eu não sinto nada. Só raiva. A mansão Volpi era um mausoléu. Não tô exagerando. Não era uma casa. Era um daqueles lugares que você entra e até a sua alma tira o chapéu e fica em silêncio por respeito. Paredes cinzentas, móveis escuros, cortinas pesadas que bloqueavam a luz. Parecia que o sol tinha medo de entrar ali. No primeiro dia, a funcionária — dona Marta, descobri depois — me mostrou tudo. Ela andava na minha frente com passos curtos e eficientes, apontando portas e explicando regras como se estivesse lendo um manual de instruções. — Ali é a sala de estar. O senhor não gosta que usem sem permissão. — Ali a biblioteca. Livros não podem ser retirados. — Ali o escritório. Entrada proibida. Proibida. Tudo era proibido. Parecia mais uma cadeia do que uma casa. Aí chegamos no segundo andar. Dona Marta baixou a voz. — O quarto do senhor é no fundo do corredor. Sozinho. Eu arqueei uma sobrancelha. Sozinho? Mas a casa era enorme. Dava pra colocar uma escola ali dentro. Por que ele dormia isolado? Como se lesse meus pensamentos, ela completou: — Desde que a senhora... desde que aconteceu... ele nunca mais dormiu no quarto principal. A falecida esposa. Assunto proibido. Eu já tinha percebido. Não tinha uma foto dela em lugar nenhum. Nenhum retrato. Nenhuma lembrança. Era como se ela tivesse sido apagada da existência. Mas o vazio que ela deixava estava em cada canto. Na mesa de jantar com um lugar sempre vazio. Na cadeira de balanço do jardim que ninguém usava. No silêncio que pairava sobre a casa igual uma nuvem de tempestade. — Posso perguntar o que aconteceu? — tentei, mesmo sabendo que não devia. Dona Marta me olhou por cima dos óculos. — Não, senhorita. Não pode. Beleza. Assunto encerrado. --- As crianças, pelo menos, eram um respiro. Lara ainda não falava muito. Saíam umas palavras soltas, perdidas, como quem tateia no escuro. Mas Léo... ah, Léo era uma metralhadora. O menino não calava a boca. — Você é nova — ele disse na primeira manhã, me encarando com os olhos enormes e curiosos. — As outras babás eram velhas. E fedidas. — Léo! — dona Marta repreendeu de longe. — Mas eram, ué — ele fez beicinho. — Uma usava um perfume que parecia inseticida. Eu ri. Não consegui evitar. — Prometo que não uso inseticida — falei, me abaixando na altura dele. Ele me estudou por um segundo, sério demais para uma criança de seis anos. Depois estendeu a mão. — Pode ficar, então. E pronto. Meu coração derreteu. Daquele jeito idiota, de quem não manda no próprio sentimento. Eu peguei a mãozinha dele e senti uma coisa estranha — uma mistura de ternura e medo. Medo de estragar tudo. Medo de me apegar demais e ter que ir embora. Lara, no começo, ficava observando de longe. Encolhida atrás do sofá, os olhões castanhos me vigiando como se eu fosse um bicho estranho. Eu não forcei. Sentava no chão e brincava sozinha, fingindo que não via. Montava blocos, fazia castelos, derrubava. Só pra mostrar que tava tudo bem. No terceiro dia, ela se aproximou. Ficou a dois metros de distância, me observando empilhar um cubo azul em cima de um vermelho. — Quer ajudar? — perguntei, sem olhar diretamente. Ela não respondeu. Mas, depois de um minuto, sentou no chão do meu lado e pegou um cubo amarelo. Colocou no lugar certo. Meu coração deu um pulo. Mas eu só sorri. Calma. Sem pressão. Léo chegou correndo com uma nave espacial de brinquedo. — Ela gostou de você! — anunciou, todo orgulhoso. — Eu sabia que ela ia gostar. Eu escolhi você. — Você me escolheu? — ri. — Claro. Eu disse pro pai que a gente tinha que contratar a moça de cabelo bagunçado. Puta merda. Cabelo bagunçado. Era assim que ele me classificava. Justo.






