Mundo de ficçãoIniciar sessão
O endereço era num bairro que eu só conhecia de novela. Sabe aqueles lugares que têm mais árvore do que gente? Pois é.
O portão abriu sem fazer barulho. SILÊNCIO. Na minha casa tudo range, tudo chia, tudo reclama. Ali parecia que até o ar tinha medo de fazer barulho. A casa era enorme. Mas não daquele jeito brega de novo-rico com coluna e leão de mármore. Era uma casa que sabia que era cara. Que não precisava provar nada pra ninguém. Muro alto, hera trepando, jardim perfeito. A porta de madeira parecia que custava mais do que tudo que eu já ganhei na vida. Uma mulher de uniforme abriu. Me olhou. Me mediu. Eu senti o olhar dela descendo, descendo, descendo até os meus sapatos de couro falso rachando na lateral. Eu queria sumir. Virar fumaça. — Oi, você deve ser Elena — ela disse. Voz eficiente. Como se estivesse lendo um manual. — Sim — minha voz saiu meio estrangulada. Que ódio. — O senhor Volpi está esperando. O corredor. Madeira lustrosa. Meu reflexo no chão. Meu Deus, como eu estava acabada? A minha única blusa social com a gola desfiada. Meu cabelo que eu tentei alisar mas já tava armado de novo. Eu parecia... eu parecia o que eu era. Uma intrusa. A sala. Meu coração disparou de novo. Sofá de couro bege que parecia uma nuvem. Tapete persa. Livros. Plantas enormes. Lareira — quem tem LAREIRA em São Paulo? Gente que não precisa se preocupar com o preço do gás, só pode. E ele. Sentado. Nem se levantou. Arthur Volpi. Camisa branca, manga dobrada, barba perfeita, olhos escuros que não pediam licença pra nada. Ele me olhou. Dos pés à cabeça. Vagarosamente. Como se eu fosse um documento que ele estava lendo antes de amassar e jogar fora. — Sente-se — disse. Nem era uma ordem. Era uma sentença. Sentei. Na beirada. O couro rangeu embaixo de mim e eu juro que quis morrer ali mesmo. — Me diga por que eu deveria contratar você — ele fez uma pausa, e os olhos dele DESCERAM pra minha gola desfiada, SIM, ELE VIU — e não as centenas de mulheres que se candidataram, e muito mais qualificadas que você. Um soco. Sabe quando alguém te dá um tapa e você fala "não doeu"? Dói, sim. Doeu pra caralho. — Senhor, eu sou muito proativa e... — Sabe por que estou fazendo essa entrevista pessoalmente? — ele me cortou. Nem deixou terminar. — Não, senhor — eu disse, com a voz já meio falhando. Raiva. Vergonha. Os dois misturados. — Porque meus filhos são tudo para mim. — Ele inclinou o corpo um pouco. Só um pouco. Mas foi o suficiente pra eu sentir o peso. — E você não me parece a pessoa ideal. Não me parece. QUEM ele pensa que é? Quem ele pensa que sou? Eu queria gritar. Queria falar que não sou só a minha roupa. Que não sou só a minha cara de cansada. Que eu estudei, que eu lutei, que eu sobrevivi a coisas que ele nem imagina. Mas eu precisava do emprego. Respirei. Fundo. Me segurei. — Senhor, se me der essa chance, eu prometo que vou me esforçar — minha voz TREMEU, droga, ela tremeu — eu preciso mesmo desse emprego. Eu preciso. Mostrei a carta. Mostrei o desespero. Ele viu. Os olhos dele brilharam alguma coisa. Não sei o quê. Tal pena? Talvez tédio? Não sei. Só sei que ele já tinha me descartado. — Entendi — ele disse, recostando. — Mas não vai ser possível. Você é inexperiente demais e muito jovem. Inexperiente. Muito jovem. Me levantei. Minhas pernas tremiam, mas eu não ia deixar ele ver. Ajeitei a bolsa no ombro. Puxei o cabelo. Olhei pra ele. — O senhor está certo — eu disse. Minha voz saiu limpa. Clara. Fria. A única coisa limpa em mim naquele momento. — Os seus filhos devem ser tudo para você. Por isso mesmo, eles mereciam alguém que soubesse olhar para uma pessoa sem julgá-la pelo que ela veste. Alguém que entendesse que a necessidade não é vergonha, e que juventude não é defeito. Mas o senhor não vai encontrar essa pessoa hoje. Virei as costas. Atravessei a sala. O tapete persa debaixo dos meus sapatos furados. A lareira fria. Os porta-retratos com os sorrisos das crianças. Eu não era a pessoa ideal. Nunca fui.






