Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlice cresceu em um orfanato e aprendeu cedo que o mundo não tem piedade. Aos doze anos, ela acreditou ter encontrado uma família… mas acabou nas mãos de um homem que tentou destruí-la. Anos depois, ao completar dezoito, ela foge e tenta recomeçar. Sem ter para onde ir, aceita trabalhar como babá da filha de Arthur Monteiro, um bilionário viúvo e frio, marcado pela morte da esposa. Mas o que Alice não esperava era que ele se tornaria sua maior proteção… e sua maior fraqueza. Porque o passado voltou. E o monstro que a perseguiu nunca esqueceu sua promessa.
Ler maisEu nunca tive medo de ficar sozinha.
O orfanato me ensinou que a solidão era normal. O que eu temia… era ser encontrada. Porque, antes de eu voltar para aquele lugar, ele segurou meu braço com tanta força que deixou marcas. E sussurrou no meu ouvido... — Eu vou esperar você crescer… e vou terminar o que comecei. Eu tinha doze anos. E, naquele dia, eu entendi que o inferno era real… e usava terno e um sorriso doce. Eu fui adotada aos doze anos e, no começo, Ricardo e sua esposa, Rafaela, eram as pessoas mais amáveis possíveis. Faziam de tudo por mim. Mas, depois de seis meses, Ricardo começou discretamente a dar em cima de mim. E eu não disse nada. Por respeito à Rafaela, que era uma mulher boa… amorosa… que cuidava de mim como se eu fosse filha dela. E também por medo de voltar para aquele inferno que era o orfanato. Até que um dia ele voltou mais cedo do trabalho. Ele sabia que eu não teria aula naquela tarde. Assim que abriu a porta, gritou meu nome: — Alice! Meu corpo inteiro congelou. O som da porta se fechando atrás dele pareceu alto demais. Como se a casa inteira tivesse prendido a respiração junto comigo. Eu engoli em seco e saí devagar do quarto, tentando não demonstrar o medo que me consumia. Ricardo estava na sala, tirando o paletó com calma, como se não tivesse acabado de invadir a minha tarde. Ele sorriu. Mas aquele sorriso não era o mesmo do começo. — Pensei que você estaria dormindo — ele disse, andando até mim. Eu forcei um sorriso. — Eu… estava lendo. Ele olhou para o livro nas minhas mãos como se aquilo não importasse. Depois, seus olhos subiram lentamente até o meu rosto. — Você está crescendo rápido demais, Alice. A minha respiração falhou. Ele se aproximou mais um passo. Eu recuei instintivamente, mas minhas costas bateram no corredor estreito. Eu tentei passar por ele, mas Ricardo esticou o braço e segurou meu pulso. A força dos dedos dele me fez arder. — Me solta! — minha voz saiu baixa, fraca… quase um pedido. Ele riu. Um riso curto. Cruel. — Você devia ser mais grata — ele disse, apertando mais. — Eu te tirei daquele lugar horrível. Meus olhos se encheram de lágrimas. — Eu não pedi isso… — Mas aceitou — ele sussurrou. Eu senti o cheiro do perfume dele, forte, invadindo meu nariz. Ele se inclinou e falou bem perto do meu ouvido: — E agora você é minha. Meu sangue gelou e meu corpo travou no lugar. — Não por favor! — pedi entre as lágrimas. Tentei me esquivar dele mais ele estava determinado e me prendeu contra a parede. Ele passava a mão pelo meu rosto enquanto eu chorava. — Não precisa chorar. Você só está me retribuindo por tudo até agora.— Sua mão foi descendo para minha cintura— Prometo que você vai gostar. Assim que ele começou abrir o botão da minha calça ouvimos um barulho na porta.. — Ricardo! Trouxe uma cerveja para assistirmos o jogo. Abre logo! Nunca pensei que ficaria tão aliviada de Lucas estar aqui. Ele era o melhor amigo de Ricardo. Era um homem bom, gentil e respeitoso. Não faço ideia de como é amigo de um monstro como Ricardo. Ele abaixou a cabeça encontrando na minha e suspirou alto e disse. — Bom. Isso vai ficar para mais tarde. Agora seja boazinha e vai para o seu quarto e fique lá até ele ir embora. Assim que ele for eu vou te ver para terminar isso. Não sei como voltei para meu quarto porque minhas pernas tremiam tanto que não sei como fui capaz de ficar em pé. Assim que cheguei no quarto eu só tinha certeza de duas coisas. 1. Ele tentou abusar de mim. 2. Se eu ficasse... ele conseguiria. Então peguei minha mochila e coloquei minhas coisas dentro e pensei em um plano de fuga. Como meu quarto era no 2° andar complicava um pouco as coisas. Mais no quarto ao lado tinha uma árvore enorme do lado da janela então seria por ali que sairia. Abri lentamente a porta para não chamar atenção e passei pela janela. Eu estava muito nervosa e acabei escorregando, acabei com um arranhão no braço mais o desespero de sair dali era tanto que nem me importei. Assim que cheguei no chão corri o mais rápido que pude e só parei quando tive certeza de que estava longe o suficiente. Não conhecia ninguém e para não ficar nas ruas andando sem rumo e correndo o risco dele me achar só tinha um lugar para onde eu ir. de volta ao inferno... ao orfanato. E o pior… era que eu não sabia que o inferno ainda me seguiria.Na manhã seguinte ao evento, Miguel já estava no meu escritório antes das oito. Ele não trouxe café. Trouxe uma pasta. — Começaram a mexer — ele disse, jogando os documentos sobre a mesa. — Ricardo protocolou notificação formal. Eu li em silêncio. Solicitação de afastamento imediato de Alice sob alegação de risco à imagem pública e possível comprometimento da guarda de Sophia. Ele estava tentando me pressionar. Publicamente. — Ele está blefando — Miguel continuou. — Mas é um blefe perigoso. Se o Conselho achar que você está emocionalmente envolvido, podem usar isso para questionar seu julgamento. Eu fechei a pasta com calma. — E o que você encontrou? Miguel encostou na cadeira. Ele deslizou outro documento. — E olha isso. Eu li o nome. Cláudia. Diretora do orfanato onde Alice cresceu. — Arquivamentos feitos com justificativas vagas — Miguel explicou. — Sempre os mesmos padrões. Denúncia surge. Documento desaparece. Processo encerrado por “falta de pro
O salão do hotel estava iluminado demais.Lustres enormes refletiam no piso polido. Conversas sofisticadas. Taças tilintando. Perfumes caros misturados no ar.Eu me senti pequena no instante em que entrei.Arthur percebeu.Ele não segurou minha mão.Mas caminhou ao meu lado.E aquilo foi suficiente.Havia fotógrafos perto da entrada. Alguns flashes. Perguntas direcionadas a ele.— Senhor Arthur, o Instituto já tem previsão de inauguração?— O Conselho confirmou parceria formal?Ele respondia com naturalidade.Seguro.Até que um dos jornalistas me olhou.— E essa é…?O silêncio foi rápido.Mas existiu.Arthur não hesitou.— Alice. Ela trabalha comigo.Não “a babá”.Não “a funcionária”.O evento era sobre proteção à infância. Sobre acolhimento responsável. Sobre fiscalização séria em processos de adoção e tutela.Cada palavra do discurso parecia uma ironia cruel ecoando na minha cabeça.“Nenhuma criança deve crescer com medo.”Eu quase parei de respirar quando ele disse isso no palco.O
Arthur tinha me dado um celular há alguns dias.Por segurança. Para qualquer coisa que Sophia precisasse.Eu fiquei animada. Nunca tive um antes.A mensagem chegou no meio da tarde, enquanto Sophia dormia depois do passeio ao sol. Peguei o celular apenas para ver as horas.Número desconhecido.“Eles não vão acreditar em você dessa vez.”Meu estômago virou pedra.Fiquei olhando para a tela por tempo demais.Como ele conseguiu meu número?Mas não tive tempo para pensar em mais nada. Miguel entrou sério no quarto. Arthur veio logo atrás.— Alice… — a voz dele estava controlada demais.Foi assim que eu soube.Uma foto antiga minha no orfanato estava circulando em um blog local. Uma daquelas fotos frias de atualização de cadastro. Eu devia ter quinze anos. Olhar duro. Defensivo.O título era pior que a imagem.“Babá com histórico problemático trabalha na casa do empresário Arthur…”Não precisei ler o resto.Eu já sabia como aquilo terminava.Helena foi a primeira a falar o que todos estava
Eu não gosto de perder controle. E definitivamente não gosto quando alguém acha que pode entrar na minha casa e ditar regras. Ricardo cometeu dois erros. O primeiro foi subestimar Alice. O segundo foi me envolver. Na manhã seguinte à visita do Conselho, Miguel entrou no meu escritório com uma pasta grossa demais para ser coincidência. — Você vai querer ver isso. Eu já sabia que ia. Abri a pasta. Ricardo Valença. Promotor exemplar. Carreira limpa. Impecável demais. E é justamente isso que sempre me incomoda. — As adoções — Miguel começou. — Não são ilegais. Mas são… frequentes. Folheei os documentos. Cinco meninas ao longo de oito anos. Todas entre 11 e 14 anos. Todas vindas da mesma instituição. Todas transferidas para outras cidades em menos de um ano. Meu maxilar travou. — E depois? — Depois, poucas informações. Algumas retornaram para abrigos diferentes. Outras… desapareceram do radar público. Silêncio. — E a diretora? — perguntei. Miguel virou outra págin
A campainha tocou às nove da manhã.Não foi comum.Foi formal.Arthur já estava de pé quando o segurança entrou na sala.— Senhor, Conselho Tutelar.Meu estômago despencou.Helena, que organizava alguns papéis na mesa lateral, não demonstrou surpresa.Nenhuma.— Mande entrar. — Arthur disse, calmo demais.Duas mulheres e um homem entraram. Pastas nas mãos. Postura neutra. Olhares treinados.E atrás deles…Ricardo.De terno escuro.Expressão serena.Como se estivesse ali por dever moral.Nossos olhos se encontraram por meio segundo.O suficiente.Ele sorriu.Arthur percebeu.Claro que percebeu.— Doutor Ricardo. — Arthur cumprimentou, frio. — Não sabia que fazia visitas domiciliares.— Apenas acompanho casos sensíveis. — ele respondeu. — Principalmente quando envolvem menores.Aquilo foi calculado.Uma das conselheiras tomou a frente.— Recebemos denúncia formal questionando a idoneidade da funcionária responsável pela criança. Precisamos realizar averiguação.Funcionária.A palavra ba
Dois dias depois, Sophia já estava melhor.A febre tinha ido embora.Mas a tensão não.A casa estava mais silenciosa que o normal.Arthur tinha dobrado a equipe de segurança sem anunciar oficialmente.Ele não falava sobre isso.Ele simplesmente agia.E aquilo me dava uma mistura perigosa de conforto e culpa.Na tarde de quinta-feira, o próximo movimento veio.Eu estava na cozinha quando o telefone fixo tocou.Helena atendeu.O semblante dela mudou quase imperceptivelmente.— É para você. — disse, me estendendo o aparelho.Meu estômago revirou antes mesmo de eu encostar no telefone.— Alô?Silêncio.Depois.A respiração.Eu reconheceria em qualquer lugar.— Está gostando da nova vida? — a voz de Ricardo soou suave demais.Minhas mãos ficaram frias.— Como conseguiu esse número?— Você sabe que isso nunca foi difícil para mim.Eu não respondi.— Bonita casa. Segurança reforçada. — ele continuou. — Achei… ambicioso.Meu coração disparou.— O que você quer?Uma pequena pausa.— Conversar.





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