Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu engoli em seco.
Lívia me olhou como se quisesse me impedir, mas eu apenas balancei a cabeça, tentando dizer sem palavras que estava tudo bem. Mesmo sabendo que não estava. Me aproximei da porta devagar. Minhas mãos tremiam quando toquei na maçaneta. E quando eu abri… A diretora Cláudia estava lá, com um sorriso cruel nos lábios. — Olha só… — ela murmurou, me analisando como se eu fosse um animal doente. — Recebendo visitas escondidas, Alice? Lívia deu um passo para trás, assustada. Cláudia olhou para ela com desprezo. — Volta pro seu quarto, Lívia. Agora. — Mas… — Lívia tentou. — AGORA! — Cláudia rosnou. Lívia me lançou um último olhar, cheio de medo, antes de sair apressada pelo corredor. E eu fiquei sozinha. Foi aí que eu vi… Ricardo estava atrás dela. Com o mesmo sorriso diabólico de quando eu o vi pela última vez. Meu sangue gelou. Meu corpo travou. — Venha logo, Alice. — Cláudia falou com frieza. — O senhor Ricardo quer conversar com você. Eu tremia. Mas eu não queria demonstrar fraqueza na frente deles. Então eu apenas obedeci. Segui pelo corredor, com passos lentos, como se cada movimento meu fosse uma sentença. O sol havia nascido há pouco tempo. Do lado de fora, o ar estava frio… cruel. E eu ainda estava com as roupas da fuga de ontem. Uma regata fina. Uma calça jeans. Nada mais. Eu tremia. Mas não era só pelo frio. Era pelo medo. Pelo pavor de ser arrastada para fora daquele lugar como se eu não tivesse escolha… Como se eu fosse dele. Cláudia abriu a porta da frente do orfanato e me empurrou para fora sem o menor cuidado. O vento bateu no meu rosto como um tapa. Ricardo saiu logo atrás. postura relaxada, com olhar afiado. Ele virou para a diretora com o seu sorriso mais doce e gentil. — Pode nos deixar a sós ? Cláudia hesitou por um segundo… mas logo abriu um sorriso. Um sorriso de cúmplice. — Claro, senhor Ricardo. E sem dizer mais nada, ela entrou e fechou a porta atrás de si. O barulho da porta batendo ecoou como uma sentença. Agora era só eu e ele. O vento soprava forte. E eu tremia, sentindo minhas pernas ameaçarem falhar. Ricardo caminhou ao meu redor devagar. Como um predador. Como se estivesse se divertindo. — Você correu bem ontem, Alice. — ele falou com calma, a voz baixa e controlada. — Confesso que me surpreendeu. Meu corpo inteiro congelou. Eu tentei respirar, tentei manter a cabeça erguida… mas minhas mãos tremiam tanto que fechei em punho ao lado do corpo para tentar controlar. — Eu não quero falar com você. Ricardo deu uma risada curta. — Não quer? — ele se aproximou um passo. — Mais que escolha você tem? Até aonde eu sei você não tem ninguém que possa vim te salvar. Ele tinha razão. se eu gritasse, ninguém viria. Ninguém nunca vinha. Ricardo parou bem perto. Perto demais. Eu consegui sentir o perfume dele. Um cheiro sufocante Doentio. E então ele se abaixou um pouco, ficando na altura do meu rosto. — Você achou mesmo que eu não ia te encontrar? Eu engoli em seco. Meu coração parecia bater dentro da garganta. — Eu… eu tô no orfanato. Você não pode me pegar aqui. Ricardo sorriu mais ainda. E naquele instante eu entendi. Ele não estava ali pra me pegar. Ele estava ali pra me lembrar… que ele podia. — Você sabe o que eu mais gosto em você, Alice? Eu não respondi. Eu não conseguia. Ele parou atrás de mim. Eu senti a presença dele tão perto que meu corpo inteiro arrepiou. — Você ainda tem medo. — ele sussurrou. — E medo é… viciante. Eu virei rápido, tentando me afastar. Mas antes que eu pudesse dar um passo… ele segurou meu braço. Com força. Com tanta força que eu senti a dor atravessar até o osso. — Ai! — minha voz saiu fraca. Ricardo apertou mais. E o sorriso dele não sumiu. Pelo contrário. Ele parecia gostar. Eu tentei puxar meu braço de volta, mas ele era mais forte. Muito mais forte. Meu peito subia e descia rápido, como se eu estivesse sufocando. — Me solta… — eu pedi, a voz tremendo. Ricardo inclinou o rosto até o meu ouvido. E sussurrou… devagar. Como se estivesse plantando uma maldição dentro de mim. — Eu vou esperar você crescer… e vou terminar o que comecei. Meu sangue virou gelo. Meu corpo inteiro travou. Eu não consegui respirar. E ele soltou meu braço como se eu não fosse nada. Como se eu fosse apenas um aviso. Ele entrou no carro como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de destruir tudo dentro de mim. Mas antes de fechar a porta… Ricardo olhou uma última vez. E sorriu. Um sorriso calmo. Certeiro. Como se ele já tivesse vencido. — Até logo, Alice. O carro dele foi embora. E o silêncio ficou. Eu olhei para o meu braço… as marcas estavam ali. E eu soube. Eu não tinha escapado. Eu só tinha ganhado tempo. Porque monstros não esquecem. Eles esperam.






