Mundo ficciónIniciar sesiónSaí vagando sem rumo.
Não tinha ninguém por mim… e muito menos um lugar para ir. Não tinha dinheiro. Nem emprego. Nem nada. Só a minha mala… e a minha força de vontade de nunca mais voltar para aquele inferno. Senti meu estômago arder. A miserável da Cláudia não me deixou nem tomar café antes de me expulsar. Como se eu não fosse gente. Como se eu não merecesse nem o mínimo. Foi então que eu lembrei dos pães que Lívia tinha me dado. E resolvi ir até a praça, procurando um banco para me sentar… antes que minhas pernas simplesmente desistissem de mim. Sentei em um banco vazio perto da fonte. A última vez que estive naquela praça foi quando eu ainda era criança… junto com meus pais. Eu me lembrava perfeitamente. Lembro de ficar sentada na beirada da fonte, brincando com a água, enquanto eles riam ao meu lado. Naquela época, eu ainda acreditava que o mundo era seguro. Eu engoli em seco. Peguei o pão que Lívia tinha me dado e comi apenas metade. Eu não sabia quando conseguiria algum serviço… e precisava economizar meus mantimentos, que já eram escassos. Senti uma lágrima solitária escorrer pela minha bochecha. Mas limpei rápido. Aquela seria a única que eu deixaria escapar. Eu seria forte. Por mim… e por Lívia. Eu estava com os pensamentos longe quando virei o rosto e vi um café do outro lado da rua. Aquela poderia ser a minha chance de conseguir um emprego. Eu nem pensei duas vezes antes de pegar minha mala velha e atravessar. Mas, no meio do caminho… eu vi. O mesmo carro preto. Parado a poucos metros dali. Meu coração disparou. Senti um frio subir pela espinha e apressei o passo, fingindo que não tinha notado. Fingindo que não estava com medo. O café era pequeno… mas aconchegante. Tinha um casal com uma criança sentado em um canto. E, mais ao fundo, um homem de terno. Ele estava com o semblante triste… como se carregasse o mundo nos ombros. Mas aquela expressão durou apenas alguns minutos. Logo, ele endireitou a postura… e colocou no rosto uma máscara séria e fria. Eu passei em silêncio, sem querer chamar atenção. E fui até o balcão. Lá, um senhorzinho de cabelos brancos limpava um copo com calma. Quando me viu, ele sorriu. Um sorriso gentil… daqueles que eu quase tinha esquecido que existiam. — Bom dia, minha filha… o que você vai querer? O cheiro de café fresco e pão quente invadiu meu nariz, e meu estômago reclamou na mesma hora. Mas eu não estava ali pra comer. Eu estava ali porque precisava sobreviver. — Bom dia… — minha voz saiu baixa. — Eu… eu queria saber se o senhor está precisando de alguém pra trabalhar. O sorriso dele diminuiu um pouco. Não por maldade… mas por tristeza. Ele me olhou de cima a baixo, reparando na minha mala velha, nas minhas roupas simples e no meu rosto cansado. Parecia que ele entendia tudo sem que eu precisasse dizer uma palavra. — Ah, minha querida… — ele suspirou. — Eu queria muito dizer que sim. Meu coração apertou. Ele apoiou as mãos no balcão e balançou a cabeça. — O movimento aqui caiu demais. Eu tô lutando pra manter esse lugar aberto. Se eu contratar alguém agora… eu fecho as portas em uma semana. A esperança que eu senti por alguns segundos… desabou dentro de mim. Eu assenti devagar, tentando não demonstrar o quanto aquilo me atingiu. — Eu entendo… desculpa incomodar. Eu já estava virando as costas… quando ele falou rápido: — Ei, espera. Eu parei. Ele sumiu atrás do balcão e voltou com um copo de café quente e um pão fresco. Colocou os dois na minha frente, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Meu corpo travou. Eu fiquei olhando… sem saber o que fazer. — Eu… eu não tenho dinheiro — eu falei, quase num sussurro. Ele sorriu. Mas não era um sorriso de pena. Era um sorriso de humanidade. — Eu sei, minha filha. Aquelas palavras me atingiram mais forte do que qualquer tapa. Porque ninguém nunca dizia que sabia. Ninguém nunca enxergava. — Come — ele disse. — Você tá pálida. Vai desmaiar na rua se continuar assim. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu pisquei rápido. Eu não queria chorar. Não ali. Não na frente de alguém que estava sendo bom comigo. — Obrigada… — minha voz falhou. Ele assentiu, como se estivesse tentando fingir que aquilo não era nada demais. — Qual seu nome? Eu hesitei por um segundo, mas respondi: — Alice. — Alice… — ele repetiu, como se gravasse o nome. — Eu sou Augusto. Eu segurei o copo com as duas mãos. O calor do café passou para meus dedos gelados. E por um momento… eu senti como se estivesse segurando um pedacinho de paz. Dei um gole pequeno. O gosto amargo e quente me fez fechar os olhos por um segundo. Eu não lembrava a última vez que alguém tinha me oferecido algo sem querer nada em troca. — O senhor tem certeza? — minha voz saiu baixa. — Eu posso trabalhar… nem que seja só pra pagar esse pão. — Não precisa, Alice — ele respondeu. — Só come. — Mas… — A vida já te tirou demais. Deixa eu te dar pelo menos isso. Ele sorriu de leve, mas seus olhos ficaram sérios. — Só come, Alice… e toma cuidado. Eu franzi a testa. — Cuidado com o quê? Mas antes que ele respondesse… eu senti. Alguém estava me observando do lado de fora.






