Mundo de ficçãoIniciar sessão— Alice… você tá aí?
Meu coração acelerou, mas quando vi o rosto dela na fresta da porta, eu soltei o ar preso nos pulmões. Era Lívia. A garota quietinha que ninguém percebia a existência. Desde que eu cheguei ali, ela sempre aparecia depois dos castigos da diretora… como se tivesse um radar para a minha dor. Ela era a única amiga que eu já tive. — Lívia… — minha voz saiu rouca. — O que você tá fazendo aqui? Ela entrou rápido e fechou a porta atrás de si, com cuidado, como se o silêncio fosse a única coisa que ainda nos protegia. Na mão dela havia um pedaço de pão embrulhado num pano velho… e um cobertor fino. — Eu trouxe isso pra você — ela sussurrou, colocando tudo no meu colo. Eu olhei para o cobertor como se fosse algo impossível. Meu peito apertou. — Você… não precisava… — Precisava, sim — ela disse, firme. Mas os olhos dela estavam tristes. — Você tá tremendo. Eu percebi que era verdade. Meu corpo inteiro tremia… não só de frio. De medo. Lívia se agachou ao meu lado e segurou minha mão. A mão dela era pequena e quente. — Alice… você voltou mesmo. Eu engoli em seco. — Eu não tinha escolha. Ela olhou para o meu braço, e o arranhão ainda vermelho. E depois seus olhos desceram até o meu pulso… onde ainda havia marcas roxas. Ela franziu a testa. — Foi ele, não foi? Meu corpo travou. E por um segundo eu pensei em mentir. Mas Lívia me conhecia. E, pior… ela me via. Eu apenas assenti. E naquele instante, as lágrimas que eu estava segurando desde que entrei naquele lugar finalmente caíram. Silenciosas. Pesadas. Lívia me abraçou forte. — Eu sabia… eu sabia que isso ia acontecer — ela murmurou, com raiva e medo na voz. Eu me afastei um pouco, limpando o rosto com a manga. Contei rapidamente o que havia acontecido e vi várias emoções passarem pelo se rosto. Ela levou a mão à boca. — Meu Deus… E então ela sussurrou, tremendo: — Alice… hoje mais cedo eu vi um homem no portão. Meu sangue gelou. — Como ele era? — Alto… bem vestido… e ele sorriu pra mim. O mundo pareceu parar. Eu senti meu coração bater tão forte que parecia que ele ia saltar pela minha garganta. — Ele… perguntou alguma coisa? — minha voz saiu baixa, quase sem som. Lívia assentiu devagar. Os olhos dela estavam arregalados, como se ela ainda estivesse vendo a cena. — Ele perguntou por você. Meu sangue virou gelo. — Por mim…? Ela engoliu em seco. — Ele disse seu nome, Alice… como se tivesse certeza de que você ainda estava aqui. Minhas mãos começaram a tremer. Eu me levantei rápido, andando de um lado para o outro naquele quarto pequeno, sentindo o desespero apertar meu peito. — Não… não, não… Lívia segurou meu braço. — Alice, calma… — O que ele falou, Lívia? Me diz! — eu quase implorei. Ela respirou fundo, como se estivesse tentando ser forte por nós duas. — Ele sorriu… aquele tipo de sorriso que dá medo. Ela apertou os dedos contra o próprio vestido, nervosa. — E disse que você ia voltar. Meu estômago revirou. — E a diretora? Lívia abaixou a cabeça. E naquele gesto eu soube. Meu corpo inteiro ficou rígido. — Ela falou com ele? — perguntei, sentindo a voz falhar. Lívia assentiu. — Ela saiu no portão… e ficou conversando com ele por alguns minutos. Eu senti as lágrimas voltarem, mas dessa vez elas eram de raiva. — O que ela disse? Lívia hesitou. Então sussurrou: — Ela riu, Alice… Meu coração afundou. — Ela… riu? — Como se aquilo fosse engraçado — Lívia continuou. — Como se fosse uma piada. O ar ficou pesado. Eu senti como se as paredes estivessem se fechando ao meu redor. Eu estava presa. Presa no mesmo lugar onde eu tinha começado. E ele sabia. Lívia segurou meu rosto com as duas mãos. — Você não pode ficar aqui. Eu ri sem humor. — Eu não tenho pra onde ir… Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas antes que pudesse… BAM. Três batidas fortes ecoaram na porta. Meu corpo inteiro travou. A voz da diretora Cláudia atravessou o corredor como veneno: — Alice. Abra essa porta. Lívia ficou pálida. Eu senti meu coração despencar. E naquele instante eu entendi… que o inferno não tinha me aceitado de volta. Ele só estava esperando o momento certo pra me destruir.






