Capítulo 3

— Alice… você tá aí?

Meu coração acelerou, mas quando vi o rosto dela na fresta da porta, eu soltei o ar preso nos pulmões.

Era Lívia.

A garota quietinha que ninguém percebia a existência.

Desde que eu cheguei ali, ela sempre aparecia depois dos castigos da diretora… como se tivesse um radar para a minha dor.

Ela era a única amiga que eu já tive.

— Lívia… — minha voz saiu rouca. — O que você tá fazendo aqui?

Ela entrou rápido e fechou a porta atrás de si, com cuidado, como se o silêncio fosse a única coisa que ainda nos protegia.

Na mão dela havia um pedaço de pão embrulhado num pano velho… e um cobertor fino.

— Eu trouxe isso pra você — ela sussurrou, colocando tudo no meu colo.

Eu olhei para o cobertor como se fosse algo impossível.

Meu peito apertou.

— Você… não precisava…

— Precisava, sim — ela disse, firme. Mas os olhos dela estavam tristes. — Você tá tremendo.

Eu percebi que era verdade.

Meu corpo inteiro tremia… não só de frio.

De medo.

Lívia se agachou ao meu lado e segurou minha mão.

A mão dela era pequena e quente.

— Alice… você voltou mesmo.

Eu engoli em seco.

— Eu não tinha escolha.

Ela olhou para o meu braço, e o arranhão ainda vermelho.

E depois seus olhos desceram até o meu pulso… onde ainda havia marcas roxas.

Ela franziu a testa.

— Foi ele, não foi?

Meu corpo travou.

E por um segundo eu pensei em mentir.

Mas Lívia me conhecia.

E, pior…

ela me via.

Eu apenas assenti.

E naquele instante, as lágrimas que eu estava segurando desde que entrei naquele lugar finalmente caíram.

Silenciosas.

Pesadas.

Lívia me abraçou forte.

— Eu sabia… eu sabia que isso ia acontecer — ela murmurou, com raiva e medo na voz.

Eu me afastei um pouco, limpando o rosto com a manga.

Contei rapidamente o que havia acontecido e vi várias emoções passarem pelo se rosto.

Ela levou a mão à boca.

— Meu Deus…

E então ela sussurrou, tremendo:

— Alice… hoje mais cedo eu vi um homem no portão.

Meu sangue gelou.

— Como ele era?

— Alto… bem vestido… e ele sorriu pra mim.

O mundo pareceu parar.

Eu senti meu coração bater tão forte que parecia que ele ia saltar pela minha garganta.

— Ele… perguntou alguma coisa? — minha voz saiu baixa, quase sem som.

Lívia assentiu devagar.

Os olhos dela estavam arregalados, como se ela ainda estivesse vendo a cena.

— Ele perguntou por você.

Meu sangue virou gelo.

— Por mim…?

Ela engoliu em seco.

— Ele disse seu nome, Alice… como se tivesse certeza de que você ainda estava aqui.

Minhas mãos começaram a tremer.

Eu me levantei rápido, andando de um lado para o outro naquele quarto pequeno, sentindo o desespero apertar meu peito.

— Não… não, não…

Lívia segurou meu braço.

— Alice, calma…

— O que ele falou, Lívia? Me diz! — eu quase implorei.

Ela respirou fundo, como se estivesse tentando ser forte por nós duas.

— Ele sorriu… aquele tipo de sorriso que dá medo.

Ela apertou os dedos contra o próprio vestido, nervosa.

— E disse que você ia voltar.

Meu estômago revirou.

— E a diretora?

Lívia abaixou a cabeça.

E naquele gesto eu soube.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

— Ela falou com ele? — perguntei, sentindo a voz falhar.

Lívia assentiu.

— Ela saiu no portão… e ficou conversando com ele por alguns minutos.

Eu senti as lágrimas voltarem, mas dessa vez elas eram de raiva.

— O que ela disse?

Lívia hesitou.

Então sussurrou:

— Ela riu, Alice…

Meu coração afundou.

— Ela… riu?

— Como se aquilo fosse engraçado — Lívia continuou. — Como se fosse uma piada.

O ar ficou pesado.

Eu senti como se as paredes estivessem se fechando ao meu redor.

Eu estava presa.

Presa no mesmo lugar onde eu tinha começado.

E ele sabia.

Lívia segurou meu rosto com as duas mãos.

— Você não pode ficar aqui.

Eu ri sem humor.

— Eu não tenho pra onde ir…

Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas antes que pudesse…

BAM.

Três batidas fortes ecoaram na porta.

Meu corpo inteiro travou.

A voz da diretora Cláudia atravessou o corredor como veneno:

— Alice. Abra essa porta.

Lívia ficou pálida.

Eu senti meu coração despencar.

E naquele instante eu entendi…

que o inferno não tinha me aceitado de volta.

Ele só estava esperando o momento certo pra me destruir.

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