Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu corri até minhas pernas queimarem.
Quando finalmente parei, a noite já tinha caído… e eu mal conseguia respirar. Minhas mãos tremiam, meu corpo doía inteiro, e o arranhão no meu braço ardia como se fosse fogo. Mas nada disso importava. O que importava era que eu precisava estar longe. Porque eu sabia que, quando Ricardo percebesse que eu tinha fugido… ele viria atrás de mim. Eu olhei para trás, para a rua escura e vazia. Por um segundo, achei que vi um carro parado do outro lado, como se estivesse me observando. Meu coração disparou. Então eu apertei a mochila contra o peito e continuei andando. Até que eu vi. O portão do orfanato ainda era o mesmo. Enferrujado. Alto. Frio. E quando ele se abriu… eu senti que estava voltando para uma prisão. Mas, pelo menos ali… eu ainda estava viva. Não que aquele fosse o melhor lugar. Pelo contrário. Era o inferno disfarçado de lar. Por algum motivo que eu não sei até hoje, a diretora não gostava de mim e fazia o que podia para me maltratar e me humilhar na frente das outras crianças. Segurei firme a alça da minha mochila e entrei. Conforme fui passando pelos corredores em direção à sala da diretora, senti um arrepio percorrer meu corpo. Lembrando de como vim parar ali. Eu tinha apenas cinco anos quando tudo aconteceu. A última coisa que me lembro do meu pai foi a mão dele segurando firme o volante… e o sorriso tentando me acalmar no banco de trás. Depois veio o barulho. O impacto. E o mundo girando. Eu acordei no hospital, com uma enfermeira dizendo palavras que eu nunca vou esquecer: — Sinto muito, querida… seus pais não resistiram. Naquele dia, eu perdi tudo. E como não tinha mais ninguém… ganhei o orfanato como destino. Saí dos meus devaneios e senti aquele cheiro enjoativo de incenso que a diretora Cláudia usava no escritório. Não que eu não gostasse do cheiro. Mas toda vez que eu sentia aquele aroma, eu era punida por alguma coisa. Sentia ânsia só de lembrar de tudo o que aquela mulher já tinha feito comigo. Mas ainda assim… era melhor do que o que aconteceria se eu continuasse naquela casa com aquele monstro. Cheguei diante da porta, respirei fundo e bati três vezes. — Entre! — a voz dela veio seca, impaciente. Eu empurrei a porta devagar. Cláudia estava sentada atrás da mesa, com seus olhos pequenos me analisando como se eu fosse sujeira. Ela me olhou de cima a baixo. — Hora hora, olha quem está de volta.— ela sorriu de um jeito cruel— Eu sabia que ninguém ficaria com um lixo igual você. Meu estômago se revirou. — Eu… eu precisei voltar. Ela soltou uma risada curta. — Precisou? Ou foi devolvida? Senti meu rosto queimar. Eu apertei a alça da mochila com ainda mais força, tentando segurar as lágrimas. Cláudia se levantou lentamente, caminhou até mim e puxou meu braço com brutalidade. — Escuta aqui, menina. Se você acha que pode voltar pra cá quando quiser, está muito enganada. Ela apertou meu braço com força. — Aqui você não é especial. Aqui você é só mais uma boca pra alimentar. Eu engoli em seco. — Eu só… não tinha pra onde ir. Cláudia riu, debochada. — Claro que não. Quem iria querer uma garota como você? Ela soltou meu braço com brutalidade e caminhou até a mesa. Pegou uma prancheta e começou a escrever como se eu nem estivesse ali. — Você vai dormir no quarto do fundo — ela disse, sem levantar os olhos. — O pior de todos. Meu coração afundou. — Mas… lá não tem cama… Cláudia ergueu o olhar lentamente, e sorriu. Um sorriso frio. — Exatamente. Vai aprender a não dar trabalho. Senti meus olhos arderem. Mas eu me recusei a chorar na frente dela. Cláudia abriu uma gaveta e tirou um envelope amassado. — Ah… quase esqueci. Ela jogou um envelope amassado em cima da mesa. — Isso chegou mais cedo… antes de você voltar. Um homem deixou aqui. Meu corpo inteiro congelou. Cláudia sorriu, satisfeita com o efeito que causou. — Ele disse que você apareceria. Disse que era só questão de tempo. Eu me aproximei devagar. E quando vi a letra… meu sangue virou gelo. Na frente do envelope estava escrito: “Eu sei onde você está, Alice.” Minhas mãos começaram a tremer. E naquele instante eu entendi… que eu nunca tinha fugido de verdade.






