Mundo de ficçãoIniciar sessão6 ANOS DEPOIS…
Era uma quarta-feira de manhã. Dia 25 de março. Eu acordei cedo… na verdade, eu nem consegui dormir. Estava ansiosa E ao mesmo tempo… apavorada. Lívia dormiu comigo naquela noite, com a desculpa de me ajudar a guardar minhas coisas. Mas a verdade era que não existia quase nada pra guardar. Apenas algumas mudas de roupa… e um ursinho velho, de quando eu era criança. Coloquei tudo dentro de uma mala velha… uma das poucas coisas que sobraram da minha mãe. E junto com ela… eu carregava meu maior segredo. Um colar de safira verde. Eu escondi aquela joia com cuidado durante todos esses anos. Porque se Cláudia tivesse descoberto… eu teria perdido. Lívia estava sentada na cama, abraçando os joelhos, com os olhos inchados de tanto chorar. — Eu não quero que você vá… — ela sussurrou. Eu fechei a mala devagar e sentei ao lado dela. — Eu também não queria ir sem você. mais prometo vou voltar. Eu segurei o rosto dela entre as mãos. Ela tinha dezesseis anos agora. Mas ainda parecia a mesma menina quieta… a mesma menina invisível… que o mundo fazia questão de esquecer. — Eu juro, Lívia. — eu disse firme. — Assim que eu conseguir um trabalho… um lugar… qualquer coisa… eu volto e te tiro daqui. Ela me olhou como se eu fosse a única esperança dela. E talvez eu fosse. — Eu tenho medo… — ela sussurrou. Eu engoli o nó na garganta. — Eu também tenho Ela me entregou a sacola. — Eu guardei isso pra você. Eu abri. Dentro tinha… dois pães. Uma garrafinha de água. E algumas moedas. Poucas. Mas pra mim parecia ouro. — Lívia… — eu sussurrei. — Você não precisava... — Você precisa mais do que eu. Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu segurei o rosto dela entre as mãos. Ela tinha dezesseis anos agora. Mas ainda parecia a mesma menina quieta… a mesma menina invisível… que o mundo fazia questão de esquecer. — Eu juro, Lívia. — eu disse firme. — Assim que eu conseguir um trabalho… um lugar… qualquer coisa… eu volto e te tiro daqui. Ela me olhou como se eu fosse a única esperança dela. E talvez eu fosse. Ela segurou minha mão. — E se ele te achar? Meu coração apertou. Eu engoli em seco. — Ele não vai me achar. Mas nós duas sabíamos que aquilo era mentira. Passei a mão no rosto dela, limpando uma lágrima. — Promete que vai voltar? — Eu prometo. Vou voltar para te buscar. Ela me abraçou forte, como se estivesse tentando me prender ali. E eu abracei de volta. Porque por mais que aquele lugar fosse um inferno… Lívia era a única coisa boa que eu tinha nele. E então eu ouvi os passos. Cláudia. Ela surgiu na porta principal como se fosse uma rainha observando seus servos. Com aquele mesmo olhar cruel. A mesma expressão de desprezo. — Que cena patética. Eu me virei na hora. Cláudia estava parada na porta, com os braços cruzados e aquele sorriso de desprezo. — Então é isso? — ela olhou para a minha mala. — Vai embora achando que é alguém? Lívia se encolheu. Ela caminhou até mim, devagar… como se quisesse aproveitar o momento. — Só não esquece uma coisa, Alice… Ela inclinou o rosto, falando baixo. — O mundo lá fora não é gentil. E ninguém vai te querer. Meu estômago revirou. — Você vai voltar — ela continuou. — Igual você sempre volta. Eu levantei os olhos, encarando-a. E pela primeira vez em anos… eu não abaixei a cabeça. — Eu prefiro morrer na rua… do que passar mais um dia aqui. O sorriso dela vacilou. Só por um segundo. Mas eu vi. Eu vi que ela odiou ouvir aquilo. E isso… foi a única vitória que eu tive naquele lugar. Cláudia se aproximou mais e estendeu um envelope. — Ah… quase esqueci. Meu coração disparou. Mas era só… papel. Ela jogou o envelope na minha mala. — Aqui está sua “ajuda”. Como sempre. Eu abri. E dentro… havia apenas um papel com a assinatura dela. Autorizando minha saída. Nenhum dinheiro. Nenhuma passagem. Nenhuma orientação. Nada. Eu senti uma risada amarga subir na garganta. Porque eu sabia… outras meninas saíam dali com pelo menos alguma coisa. Um emprego. Uma recomendação. Alguns trocados. Mas comigo… Cláudia fez questão de garantir que eu saísse do orfanato do mesmo jeito que entrei. Sozinha. Sem nada. — Boa sorte, Alice. — ela disse, fingindo doçura. — Você vai precisar. Eu fechei o envelope com força. Meu sangue ferveu. Mas não falei nada Eu não ia dar esse gosto pra ela. Cláudia deu um passo para trás, abriu a porta e apontou para o corredor. — Anda logo. Antes que eu me arrependa e decida que você não vai sair hoje. Eu segurei a alça da mala. E antes de passar pela porta, olhei para Lívia. Ela estava chorando em silêncio. E eu senti meu peito se quebrar. Dei um último abraço em Lívia e fui rumo a minha liberdade... Mas quando atravessei o portão… eu entendi que liberdade não era sinônimo de segurança. Eu dei alguns passos… e então senti. Aquela sensação. Como se alguém estivesse me olhando. Eu virei o rosto devagar. E do outro lado da rua… um carro preto estava parado. Com os vidros escuros. Esperando.






