Mundo de ficçãoIniciar sessãoO café estava silencioso demais para um lugar que deveria ser acolhedor.
Mas eu gostava assim. Silêncio era a única coisa que não me lembrava dela. Eu estava sentado no canto mais afastado, com um café esfriando à minha frente e um celular vibrando sem parar. Mensagens da empresa. Reuniões. Assuntos importantes. Como se alguma coisa ainda fosse importante. Meus dedos apertaram a xícara de café. Fria. Assim como tudo dentro de mim. Quarenta dias. Era isso que minha filha tinha. Quarenta dias desde que nasceu… e quarenta dias desde que eu enterrei a mulher que eu amava. Isabela deveria estar aqui. Ela deveria estar segurando nossa filha nos braços. Deveria estar sorrindo… reclamando que eu não sabia trocar fralda… e me chamando de dramático quando eu entrasse em pânico por qualquer chorinho. Eu encarava a rua pela janela, com a expressão neutra… fria… a mesma máscara que eu usava todos os dias. Porque ninguém podia ver o que existia por baixo. Ninguém podia ver o homem quebrado. Laura morreu no parto. E o pior de tudo… foi que ela morreu sorrindo. Sorrindo pra nossa filha. Como se estivesse feliz por ter conseguido dar a vida… mesmo que isso custasse a dela. Aquele sorriso me assombrava desde então. Agora eu tinha uma bebê em casa. Tão pequena… tão frágil… e eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo. Eu era bom em comandar empresas. Bom em controlar números. Bom em vencer. Mas eu não sabia como segurar minha filha sem sentir medo de machucá-la. E eu também não sabia como viver sem Laura. Meus dedos apertaram a xícara com força. Eu respirei fundo. E foi então que ouvi a voz. Baixa. Tremida. — Eu… eu queria saber se o senhor está precisando de alguém pra trabalhar. Eu ergui os olhos devagar. E vi uma garota. Magra. Cansada. Com uma mala velha ao lado. Os olhos dela tinham algo que eu conhecia bem. Desespero. Mas também… força. Ela não parecia pedir emprego. Ela parecia pedir uma chance de continuar viva. O dono do café respondeu com gentileza, mas negou. Eu continuei observando. Sem querer. Como se meu corpo tivesse se lembrado sozinho do que era sentir alguma coisa. A garota agradeceu e tentou ir embora. E então eu vi o homem do balcão entregar a ela um pão e café. Ela segurou o copo como se fosse algo precioso. Como se aquele calor fosse a única coisa boa que existia naquele mundo. E aquilo… aquilo me atingiu. Porque eu sabia exatamente como era perder tudo. A diferença era que eu tinha dinheiro. E ela… ela tinha só uma mala. E coragem. A garota agradeceu com uma voz tão pequena que quase desapareceu no ar. E eu fiquei olhando, sem conseguir desviar o olhar. Ela era bonita. Mas não era isso. Ela tinha algo… uma força silenciosa. Uma dor escondida. Eu vi aquilo como se fosse um espelho. E foi aí que minha mente lembrou do que minha filha precisava. Eu precisava. Uma babá. Alguém de confiança. Alguém que cuidasse da minha filha enquanto eu tentava… existir. Eu respirei fundo. Levantei da mesa. E caminhei até o balcão. O senhor Augusto me olhou na mesma hora, respeitoso. — Senhor Arthur… Eu ignorei a formalidade e olhei diretamente para a garota. Ela me encarou por um segundo, desconfiada. Como se estivesse pronta para correr. — Qual seu nome? — perguntei. Ela hesitou. — Alice. Alice. O nome combinava com ela. Algo delicado… mas forte. Eu observei sua mala velha. — Você está procurando emprego mesmo? Ela engoliu em seco. — Sim… qualquer coisa. Eu vi nos olhos dela que ela estava desesperada. Mas ela ainda tentava manter a dignidade. E isso… isso me fez respeitá-la. — Eu estou precisando de alguém — eu disse, direto. O olhar dela se arregalou. — Aqui? Eu neguei. — Não. Na minha casa. Ela ficou rígida na mesma hora. O medo apareceu no rosto dela como uma sombra. E eu entendi. Não perguntei por quê. Mas eu entendi. — Eu tenho uma filha — eu continuei. — Quarenta dias. Ela piscou, surpresa. — Uma bebê…? Eu assenti. — Sim. Ela precisa de cuidados. E eu… — minha voz falhou por um segundo, mas eu me controlei. — Eu preciso de alguém que saiba o que está fazendo. Alice apertou os dedos contra a alça da mala. — Eu… eu já cuidei muito de crianças e posso garantir que sei cuidar muito bem de bebês. Ela disse aquilo rápido. Como se estivesse tentando me convencer antes mesmo que eu desistisse. Como se aquela fosse a última porta antes do abismo. Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, observando. Ela tinha firmeza na voz… mas o corpo dela denunciava o contrário. Os ombros tensos. O olhar atento demais. Como alguém que sempre esperava o pior. — Você tem experiência? — perguntei, direto. Ela assentiu. — Tenho… cuidei de crianças a vida toda. Eu percebi que ela evitou dizer onde. E eu não insisti. Não ali. Não agora. — E você tem pra onde ir hoje? — minha pergunta saiu mais fria do que eu queria. Ela hesitou. Só um segundo. Mas foi o suficiente. — Não. A palavra caiu entre nós como um peso. Eu respirei fundo. Meu olhar desceu para a mala velha dela. Era pequena. Simples. Quase vazia. Como se toda a vida dela coubesse ali. — Quanto você quer receber? — perguntei. Ela piscou, confusa. Como se ninguém nunca tivesse perguntado isso pra ela. — Eu… qualquer coisa. Eu só preciso trabalhar. Eu senti algo apertar dentro do meu peito. Porque aquilo não era ambição. Era sobrevivência. — Certo. — eu disse, firme. — Você vai trabalhar pra mim. Alice arregalou os olhos. — Sério? Eu assenti. — Sério. Ela parecia prestes a chorar, mas segurou. Com orgulho. Ou talvez medo. — Mas… por que o senhor…? — Porque eu preciso de alguém agora. — eu interrompi. — E porque você parece ser alguém que não vai abandonar uma criança. Ela engoliu em seco. E eu vi a garganta dela se mover, como se estivesse segurando uma dor. — Eu nunca abandonaria. A forma como ela disse aquilo… não foi uma promessa. Foi uma ferida. Eu peguei minha carteira, tirei algumas notas e coloquei no balcão, empurrando na direção dela. Alice recuou na hora. — Não… eu não posso aceitar isso. — Pode sim. — minha voz saiu firme. — Considere um adiantamento. Ela ficou olhando para o dinheiro como se aquilo fosse uma armadilha. Mas então seus dedos tremeram… e ela pegou. Devagar. Como se estivesse tocando em algo que podia desaparecer. — Obrigada… — ela sussurrou. Eu assenti. — Você vai comigo agora. Ela apertou a alça da mala, respirando fundo. Mas antes de responder… o olhar dela desviou para a janela. E eu percebi. Ela estava olhando para fora como se tivesse sentido algo. Como se alguém estivesse observando. Eu segui o olhar dela. E vi um carro preto parado do outro lado da rua. Imóvel. Escuro. Como um presságio. Meu maxilar travou. Alice apertou a mala com mais força. — Você conhece aquele carro? — perguntei, baixo. Ela demorou um segundo. E então respondeu: — Não… Mas o tom dela dizia exatamente o contrário. Eu olhei de volta para ela. E naquele instante eu soube… Alice não estava apenas perdida. Ela estava fugindo. E quem quer que estivesse atrás dela… não parecia o tipo de pessoa que desiste fácil. Eu estendi a mão. — Vamos, Alice. Ela hesitou. Mas pegou. E quando seus dedos tocaram os meus… eu senti o gelo que existia nela. Frio de medo. Frio de trauma. Frio de alguém que aprendeu cedo demais que o mundo não era seguro. E eu não sabia por que… mas eu tive certeza de uma coisa: se aquele carro estivesse ali por causa dela… então o problema tinha acabado de entrar na minha vida também. E eu não deixaria ninguém chegar perto da minha filha. Nunca.






