AMÉLIA COBALTO
A mesa estava posta como se fosse dia de festa. A toalha branca, recém passada, caía até quase tocar o chão. Os talheres de prata alinhados em perfeição, cada colher com o brilho polido por Gina e Joana; os pratos fundos colocados sobre travessas de cerâmica clara; a sopeira fumegante no centro exalava cheiro de caldo de legumes, leve, quase doce. Havia pães frescos em uma cesta coberta com um pano rendado. Garrafas de vidro marrom traziam água fresca retiradas do poço pela manhã. O relógio de parede marcava exatamente dezoito horas quando o senhor Cobalto se sentou.
Ou melhor… Afonso.
O nome ainda engatava na minha garganta.
Eu o observei se acomodar na cabeceira. O movimento de seus ombros largos, o modo como ajeitou o guardanapo no colo, tudo nele parecia calculado. Ele nunca demonstrava nada, mas naquela noite tinha algo diferente em seu olhar, algo pesado, fixo… como se ele estivesse tentando me ler.
Coloquei a sopa em sua tigela, tentando não derramar nada. Meu pulso tremia. Afonso ergueu os olhos para mim, e eu quase perdi o ar. Ele não disse nada. Mas sua atenção era tão intensa que meu estômago revirou.
Sentei-me ao seu lado, como a etiqueta mandava. O silêncio se instalou.
Gina recuou alguns passos, mas permaneceu perto o suficiente para ouvir. Joana cruzou os braços, observando como quem aguarda um erro.
Afonso limpou a garganta, pegou a colher devagar e tomou o primeiro gole da sopa. Assim que engoliu, seus olhos se desviaram para mim — sem disfarçar.
AFONSO
Ela não sabia, mas eu estava segurando o controle com unhas e dentes.
A menina sentada ao meu lado parecia tão frágil, tão nervosa… mas havia algo nela que me deixava inquieto desde a manhã. Talvez fosse o jeito como ela abaixava os olhos ao me obedecer, ou o modo tímido como arrumou o cabelo em uma trança antes de irmos à cidade. Ou talvez fosse porque eu sabia que, ao final daquela noite, ela seria minha. De verdade. Sem volta.
E Deus sabe que eu queria isso.
Eu a observei levar a colher à boca. Seus dedos estavam delicadamente manchados de tinta — um detalhe bobo, mas que me provocou um calor estranho. Ela era uma esposa nervosa, mas esforçada, e eu gostava disso mais do que deveria admitir.
A voz de Joana interrompeu meus devaneios:
— Está boa, senhor?
— Sim. — respondi curto, sem tirar os olhos de Amélia.
Ela percebeu. Mordeu o lábio. Olhou a tigela. As bochechas ficaram vermelhas.
Era isso.
Era esse o efeito que eu queria ver.
Eu pretendia terminar o jantar rápido.
Subir com ela.
Fechar a porta.
E ensinar tudo o que ela tinha tentado balbuciar pela manhã.
Hoje seria a noite.
Não importa o que tivesse que fazer.
Amélia Cobalto
Amélia respirou fundo antes de pegar o pão. Quando a ponta de seus dedos tocou o tecido da cesta, Afonso se inclinou um pouco, os olhos seguindo cada movimento, como se memorizar cada gesto dela fosse necessário para sobreviver.
Eu não ousava olhá-lo diretamente.
— Está bom? — perguntei baixinho, apenas por educação.
Ele respondeu com um simples:
— Sim, Amélia.
Mas sua voz soou profunda, quase grave, carregada de algo que eu não sabia nomear — e que me deixou ainda mais nervosa.
O jantar seguiu silencioso, até que ele terminou sua sopa e empurrou a tigela alguns centímetros. Foi um gesto pequeno, mas ali naquela casa aquilo significava muito: ele estava pronto para levantar.
E eu sabia o que isso queria dizer.
Meu estômago apertou.
Meu corpo inteiro congelou.
Afonso limpou a boca com o guardanapo, apoiou as mãos na mesa… e então o trovejar de cascos cortou a tensão como uma lâmina. Alguém batia com força no portão.
Gina correu até a janela.
— Senhor! — ela chamou. — É o Vicente! Parece urgente!
Afonso franziu o cenho, se levantando.
— O que houve? — perguntou ele, já caminhando.
Vicente surgiu na porta com o chapéu nas mãos, o rosto coberto de fuligem, a respiração curta.
— Fogo, patrão! — disse sem rodeios. — Na fazenda do sul! Começou no celeiro pequeno. O vento tá forte… já se espalhou!
O coração de Afonso mudou de ritmo. Eu senti. Não ouvi, mas senti.
Um silêncio caiu sobre a sala.
Afonso praguejou baixo, tão baixo que só eu ouvi. A mesa posta parecia agora inútil, abandonada. Eu me levantei devagar.
— Precisa de ajuda? — perguntei, tremendo.
Ele olhou para mim por um instante longo. Um instante pesado. Como se estivesse dividindo duas batalhas: a da terra pegando fogo… e a que queimava dentro dele desde o almoço.
Ele respirou fundo, recuando.
— Fique em casa, Amélia — disse por fim, a voz dura, como se cada palavra o ferisse. — Não saia por nada.
Vicente chamou mais uma vez. Afonso colocou o chapéu, virou-se para a porta…
Mas antes de atravessar o batente, ele voltou o rosto para mim, apenas por um segundo.
Um segundo que dizia tudo o que ele não pôde fazer naquela noite.
Tudo o que ele faria na próxima.
E tudo o que estava preso em seu corpo, latejante, pronto.
— Eu volto — foi tudo o que disse.
Mas o olhar completou:
E quando eu voltar, você será minha.
Ele saiu acompanhado pelos homens, e a sala ficou silenciosa outra vez. O cheiro de sopa já fria, a toalha branca impecável, a mesa perfeita… tudo parecia muito grande para mim.
Fui até a porta e observei a poeira subir atrás dos cavalos e da caminhonete. O céu começava a ficar vermelho com reflexos distantes do incêndio.
E pela primeira vez desde que cheguei naquela casa…
Eu desejei que Afonso voltasse logo.
Não por medo.
Mas porque a noite que não aconteceu…
Me deixou inteira tremendo.