AMÉLIA COBALTO
A porta range antes mesmo que eu termine de prender o cabelo. A madeira velha sempre anuncia visitas indesejadas antes que elas apareçam — mas nenhuma porta no mundo conseguiria me preparar para minha mãe atravessando o batente como um furacão de saias engomadas e expectativas pesadas.
Ela nem bate. Nunca bateu.
Entra como se ainda fosse dona da minha vida.
— Amélia. — O tom é uma sentença. — Ainda não consumou?
Eu fecho os olhos por um instante. Só um.
O suficiente para pedir paciência a um santo que eu nem sei se existe.
— Mãe… — começo, mas ela levanta a mão como quem cala uma criança.
— Não me venha com desculpas. Como espera garantir seu lugar nesta casa? Acha que casamento se sustenta por caridade?
Eu aperto os dedos contra as próprias saias para não tremer.
— Afonso está ferido, mãe. Não seria…
— Ferido! — ela debocha, bufando. — Homens trabalham feridos, guerreiam feridos, fazem filhos feridos. Não lhe falta braço, falta coragem.
É como levar um tapa na a