“AMÉLIA COBALTO
Eu não deveria estar pensando na minha irmã naquele momento.
Mas enquanto observava o movimento lento das mãos do Afonso virando as páginas do livro — apenas com o braço bom, porque o outro repousava na tipóia feita com um lenço grosso — meu coração bateu dolorosamente no peito, chamando um nome que eu vinha evitando há dias.
Anelim.
Ela jamais aprenderia a ler.
Minha irmã jamais veria as letras tomando forma, jamais formaria palavras, jamais entenderia a diferença entre uma vírgula e um ponto final.
Tudo aquilo que eu estava prestes a aprender, que ele — meu marido, meu medo, meu protetor confuso — estava disposto a me ensinar, ela nunca teve.
Papai dizia que mulheres não precisavam disso.
Que o destino delas era obedecer, cozinhar, casar e parir.
Anelim morreu acreditando nisso.
Morreu sem saber que podia desejar mais.
Quando toquei o livro e senti a textura áspera do papel grosso na ponta dos dedos, uma onda quente subiu pela minha garganta.
Não era tristeza.