Mundo de ficçãoIniciar sessãoDe repente, George voltou na minha mente.
Como um soco no estômago, daqueles que fazem você perder o ar.
Eu já esperava George me dando um murro bem daqueles.
E me arrastando para fora daquela linda mansão. Pelos cabelos.
George estava ali, não estava? Escondido atrás de algum móvel, pronto para aparecer e acabar com tudo.
Meu corpo ficou em estado de alerta.
Senhor Luther tinha percebido meu olhar ao redor, preocupada.
Claro que tinha.
Virei-me lentamente, tentando parecer normal, mas meus olhos ainda percorriam o ambiente, inquietos.
— Não foi bem uma mentira… — respondeu ele sobre o ter mentido no anúncio.
— Como não? — meu tom se elevou um pouco — lá estava escrito: CASAL.
— Deixa eu te explicar — a calma do senhor Luther me irritou.
— Explique-se. Ou eu vou embora.
O olhar dele como de alguém controlado olhando para uma maluca.
Mas dane-se o que aquele cara rico e prepotente pensaria.
Eu não seria enganada. Não mesmo.
— Quando fiz o anúncio, a gerente da plataforma colocou errado.
— E por que não consertou, senhor Luther?
— A maioria das babás se sente mais segura quando é um casal.
Ele deu de ombros, fazendo pouquíssimo caso:
— Então preferi deixar o erro passar… Não me pareceu o fim do mundo.
Eu hesitei.
Ele estava certo.
Eu mesma tinha ignorado anúncios de pais solteiros.
Um pai solteiro não era exatamente o tipo de situação em que eu queria me meter… não depois de tudo que vivi.
— Droga — arfei — eu não sei…
— Estou dizendo a verdade, senhorita Rose. Confie em mim.
Mas eu não confiava. Nele e em homem nenhum.
Só que quais opçoes eu tinha?
Aos poucos eu respirava melhor. Juntava um neurônio com o outro.
Aquele emprego era meu plano A, B, C e o resto do alfabeto todinho.
— Ainda assim, deveria ter sido honesto, senhor Luther — falei, com mais firmeza do que pretendia.
Ele me encarou por um segundo a mais.
— Tem razão. — Sua voz saiu calma. — Mas você parece ter visto um fantasma.
Meu coração falhou uma batida.
— Fui pega de surpresa. Estou parecendo ansiosa?
— Sim, senhorita Rose. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Diria que está prestes a sair correndo por aquela porta.
— Deve ser o ar condicionado — menti.
— Ou está com medo de mim?
Senhor Luther lia cada gesto meu.
Cada movimento. Cada respiração.
— Só estou nervosa com a entrevista. Eu teria motivos para ter medo do senhor?
A risadinha dele era quase calculada.
— Imagino que não.
Mas o olhar dele parecia dizer exatamente o contrário disso.
Havia algo inquietante em Luther. Uma sensação estranha de que ele conseguia enxergar além do que eu mostrava.
Como se fosse capaz de arrancar verdades sem que eu dissesse uma única palavra.
— Com licença, senhor — uma voz rouca nos interrompeu.
Virei-me e vi uma mulher mais velha, cabelos escuros presos em um coque impecável, fios grisalhos misturados.
O rosto rígido, anguloso, expressão difícil de ler.
— As bebidas estão prontas.
— Obrigado, Justine. Pode trazê-las?
— Claro, senhor Luther.
A tal Justine me lançou um olhar breve. Não foi exatamente um julgamento… mas também não foi acolhedor.
Foi suficiente para me deixar desconfortável.
— Você já tem uma governanta — observei, quando ela saiu.
— Justine está conosco desde que eu era criança.
Pensei bem antes de falar.
— Então… por que precisa de uma babá?
— Justine já trabalhou demais. Está na hora de descansar um pouco.
— Sua filha é difícil?
— Sofia? — ele pareceu considerar. — Não. Apenas uma menina comum.
Franzi levemente a testa.
— Então sua governanta daria conta. Não faz sentido…
Ele me encarou, dessa vez com um leve brilho nos olhos.
— Isso é uma maneira educada de desistir da vaga, senhorita?
Pisquei, surpresa com o corte rápido do senhor Luther.
Droga.
Eu não tinha o luxo de recusar aquele emprego.
Mas ainda estava irritada com a mentira dele.
— Não. Não é isso— me apressei. — Só estava curiosa. Não quis ser rude.
As bebidas chegaram antes que esse diálogo se prolongasse
Sob supervisão de Justine, a empregada me serviu chá e perguntou se eu queria adoçante.
Assenti, ainda tentando recuperar o controle.
Aquilo tudo parecia uma cena de novela.
Mas havia algo ali… algo que me deixava alerta.
Eu fingia concentração na xícara, porém conseguia sentir o olhar de Luther sobre mim. Mesmo sem encará-lo diretamente.
Era quase físico.
Eu reconstruía a imagem completa dele na minha mente.
O tipo de homem que eu deveria evitar… e, ainda assim, não conseguia ignorar.
Logo ficamos a sós novamente.
— Gostei do seu vestido — disse ele.
— Desculpe?
Ele suspirou após um gole em seu chá.
— O vestido. Caiu bem em você, senhorita Rose.
Olhei para baixo, sem graça.
— É só… prático — eu disse.
— Mais do que parece.
Levantei o olhar, e foi um erro. Luther me encarava.
Ele me prendeu ali, nas pupilas escuras dos seus olhos.
Como se eu fosse algo que ele estivesse analisando com calma… peça por peça.
— Muito diferente de como a vi ontem — acrescentou — estava de jeans, informal.
A observação me atingiu como uma agulha.
— Acho que aquele não foi um bom momento aquele, senhor.
— Acidentes nunca são — respondeu simples.
Fiquei sem reação por um segundo.
— Usar vestido aqui é um problema?
— De forma alguma. — Ele apoiou a xícara. — Só não esperava vê-la assim.
— Para dirigir, prefiro roupas mais confortáveis.
— Jeans são esse tipo de roupa, suponho.
— Para dirigir, eu acho ideal — falei.
Havia um leve sorriso nos lábios dele. Sempre estava ali, brincando comigo.
Como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
Comigo.
Com meu desconforto. E eu estava inquieta, incômoda.
Cruzei as pernas automaticamente, sem pensar. Tentava achar uma posição.
Foi um erro ter feito isso.
O olhar do senhor Luther desceu pelas minhas pernas.
Lento.
Atento, perspicaz.
E parou vaagarosamente. Cirúrgico.
Segui a direção do que ele observava em mim… e senti o sangue gelar.
A tatuagem.
Eu tinha esquecido completamente dela. Aquela marca no tornozelo.
Idiota. Você burra, Susan. Burra!
— Você tem uma tatuagem, senhorita Rose? — a voz dele veio mais baixa agora.
Meu coração disparou.
237 piscando para todos. Gravado na pele.
Os números queimavam mais do que quando foram feitos.
Não era só uma tatuagem.
Era uma marca.
Uma lembrança.
Uma prisão.
George amava aquela marca.
"Assim eu sempre vou saber que você me pertence, babyluv"
Minha respiração falhou.
Eu deveria ter escondido aquela droga de tatuagem.
Agora precisaria iventar uma história que não estava prevista.
Eu tinha ensaiado quase tudo, previstos inúmeras situações da entrevista.
Mas mentir, com aquele homem me observando daquele jeito…
parecia impossível.
— O que significa? — ele perguntou me encarando curioso.
----------------------------
NOTA DA AUTORA: Meu Deus, esse homem tá deixando ela maluquinha. O que será que ela vai dizer?







