Mundo de ficçãoIniciar sessãoUma semana depois de envenenar meu marido… eu ainda estava fugindo.
Agora precisava apenas fingir ser Rose, minha nova identidade.
E era com essa identidade que assumiria a vaga de babá de uma menininha chamada Sofia.
No anúncio que vi na internet, dizia apenas que era a família de um empresário muito rico.
Não dizia que ramo empresarial. Nem havia foto do casal.
Ou seja, não fazia ideia de como eram.
Mas isso pouco importava. O salário era bom. Bem acima da média para uma babá sem experiência como eu.
Um sorriso invadiu meu rosto. Parecia que tudo ia funcionar.
Contudo, por um momento, meu coração gelou. Os documentos falsos.
Desacelerei o carro no meio da rodovia. A luz laranja do entardecer se estabilizou no horizonte.
Abri o porta-luvas e dei uma vasculhada.
A pastinha estava lá. Meu RG falso com a foto virada para mim.
— Graças a Deus… — murmurei, sentindo um pequeno alívio.
Ia dar certo. Tinha que dar. George era passado. Apesar de não ter morrido, eu soube que estava em coma, entre a vida e a morte.
E, pela primeira vez em anos, eu estava livre. Ou pelo menos… era o que eu pensava.
Assim que retomei a atenção para a rodovia, meu corpo foi jogado contra o volante.
Um grito agudo preencheu o carro.
Em seguida senti meu peito doer. Houve impacto do tórax contra o volante.
Pisei no freio com força, o coração disparado, tentando recuperar o controle. O veículo desacelerou até parar no meio da rodovia.
Minha respiração estava irregular, e um desespero frio percorreu meu corpo.
— Respira, Susan… respira…
Buzinas soaram atrás de mim, me trazendo de volta à realidade. Liguei o pisca-alerta com mãos trêmulas e, então, olhei pelo retrovisor.
Um carro preto estava parado alguns metros atrás. Luxuoso. O para-choque dianteiro quase completamente destruído.
Bati contra o volante. Estava contando vitória antes do tempo.
— Droga…
Dei uma olhada para trás. Um Porsche.
Claro que tinha que ser um carro caro.
MERDA.
Mas o que realmente me gelou foi outro pensamento.
E se não foi acidente? E se alguém me encontrou? E se foi ele? E se George estava em coma coisa nenhuma?
Minha respiração travou na hora.
A porta do carro atrás de mim se abriu e um homem desceu.
Não era qualquer homem.
Alto, de terno preto, com uma postura impecável. Ele caminhou até a frente do próprio carro, tirou os óculos escuros e se abaixou para analisar o estrago.
Depois se levantou. Limpou as mãos de uma poeira invisível.
E então… Olhou diretamente para mim. Vi pelo reflexo do retrovisor.
Desviei o olhar na mesma hora.
Meu coração batia ainda mais forte.
Instinto. Fugir. Eu precisava fugir.
VAI!
Girei a chave no contato, nem tinha notado que o carro desligou.
Nada. Apenas um ronco tímido do maldito motor.
Tentei de novo.
O motor falhou miseravelmente, rindo de mim.
— Não… não… não…
Mais uma tentativa, mas agora o carro permaneceu em silêncio.
Quando olhei novamente pelo retrovisor, o homem de terno preto já estava vindo na minha direção.
Não parecia apressado. Ou irritado. Aquilo, de alguma forma, era ainda pior.
Eu não acreditava que depois de tudo que fiz, eu seria pega.
Eu voltaria para aquele inferno ao lado de George?
Fechei os olhos por um segundo. Talvez eu fosse teletransportada.
Mas então senti um aroma agradável.
Um perfume amadeirado invadiu o carro.
Ele estava perto demais.
— Você está machucada?
A voz grave me fez abrir os olhos. Minhas mãos ainda estavam presas ao volante, rígidas.
— Eu?
— Sim, senhorita — um tom monótono.
— Estou bem sim.
— Tem certeza?
O olhar dele deslizou até meus dedos tensos apertando o volante. Eu os soltei imediatamente.
— Tenho. Tá tudo tranquilo.
— Seu carro não ligou — disse ele, sem emoção.
— Pois é. Deve ter dado pau com o impacto.
Droga. Eu estava falando demais.
Reparei na fisionomia dele. De longe era um homem charmoso. De perto era mais bonito ainda. Mas de um jeito distante. Misterioso.
Mas não parecia ser um dos capangs do George.
George não poderia pagar um homem como aquele.
Não precisava prestar muita atenção para notar que era refinado.
— Foi um belo impacto — disse ele olhando para o seu para-choque destruído.
— Sim, sim… Eu vou descer — falei rápido — pra ver o estrago.
Saí do carro e fui até a traseira. Apenas um arranhão.
Já o Porsche não teve a mesma sorte. Uma ironia inacreditável.
— Bem, mas o seu motor deve ter afundado, senhorita.
— Não foi nada grave — murmurei.
O homem, sem pedir, entrou no meu carro.
Eu ia dizer algo, mas me detive. As palavras ficaram entaladas.
Os motores rangeram um pouco, mas desistiram de ligar.
— É — falou ele me olhando — deu ruim pra você.
— Tá tudo bem. Estamos quites. Arrebentei seu para-choque. Deve ser bem mais caro que meu motor.
Como se ignorasse minha observação, ele disse de maneira seca:
— Eu pago seu motor — disse ele descendo do carro.
— Não é necessário.
— Sua recusa está fora de questão, senhorita.
— Como assim?
Eu cruzei os braços, sentindo a irritação me invadir.
— Olhe ao redor… Orgulho não vai te teletransportar, moça.
— Ei, ei… como vou sair daqui, não é porblema seu.
Por um segundo, o silêncio pesou entre nós.
Então ele deu um passo mais perto.
— Desde o momento em que você entrou na frente do meu carro, o problema é meu.
Na verdade, eu estava na merda. Mas não podia chamar atenção.
E bater boca com um ricaço era uma boa forma de ferrar com tudo.
— Que inferno… — bufei.
— Qual é o seu nome? — perguntou ele do nada.
Por um segundo, meu mundo travou.
Susan. Foi o nome que quase saiu.
Engoli seco.
— Rose — apertei a mão dele — Rose é meu nome.
Ele assentiu lentamente, como se analisasse a resposta.
— Luther.
O nome combinava com ele. Frio. Controlado.
Seus músculos do rosto quase não se expressavam.
Mas ainda assim, o olhar te atravessava como uma lâmina afiada.
Senti um arrepio frio.
Havia algo naquele homem que me deixava inquieta. Não era só a aparência ou a voz — era a presença.
E o pior de tudo era admitir que ele era bonito. Muito bonito.
Meu estômago deu uma leve afundada.
Quanto tempo fazia que eu não ficava perto de outro homem? Desde George…
— Vou pegar meu telefone para ligar para o guincho. Um instante.
Antes que eu pudesse protestar, ele já estava caminhando em direção ao Porsche. Pegou o telefone e veio até mim enquanto discava o número.
— Sim, no quilômetro 57 — falava olhando para a estrada — Talvez precise de reboque — assentia — Certo, vou aguardar… Pouco importa o valor… Só venha.
Ao finalizar a ligação, ele mexia no telefone. Acho que mandando mensagens.
Eu também fingia mexer no meu celular.
Pela visão periférica, eu o observava. A cada instante mais charmoso e atraente. Estranhamente encantador.
Contudo, algo dentro da minha mente dizia: “afaste-se”.
E esse sentimento ficou mais forte depois do último olhar que Luther lançou.
Era como se eu estivesse me afogando nas pupilas escuras dos olhos dele.
— Tudo certo, senhorita Rose?
Demorei segundos para responder. Estava em transe.
— S-sim… desculpa.
O telefone dele vibrou. Mensagens.
Primeiro Luther tentou responder por mensagem, Mas parecia irritado.
Então desistiu e resolveu telefonar.
— Avise que vou me atrasar para buscar minha filha. Eu disse que vou — falou impaciente — Não, não… Ela tem só cinco anos. Não pode decidir nada.
A mandíbula contraída. Ele disse mais alguma coisa e desligou o celular.
Em seguida olhou para mim:
— Para onde você vai, senhorita Rose?
— Quarta avenida, 209.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios, mas não era simpático. Era de entendimento.
Ele sabia. Era um motel.
O guincho chegou pouco depois. A conversa acabaria ali.
— Espero que fique bem — ele disse.
— Você também, Luther.
Após colocar o para-choque no porta malas, ele arrancou com seu Porsche pela estrada.
Fiquei ali por alguns segundos, observando a estrada, tentando entender por que aquele homem ainda me deixava inquieta.
E depois senti uma coisa estranha. Eu nunca mais o veria de novo.
Não passaria de um desconhecido que foi minimamente gentil comigo.
*
O guincho me levou até o motel. Meu novo lar, ainda que temporário. No dia seguinte, eu começaria minha nova vida. Uma entrevista. Eu seria babá. Um trabalho simples, discreto, seguro.
Ou pelo menos era o que eu queria acreditar.
Achei estranho o cliente não ter se identificado. Tudo foi tratado com a secretária.
Mas ignorei.
E foi aí que eu errei.
Eu deveria ter perguntado. Deveria ter investigado. Deveria ter desconfiado.
Porque, meses depois, eu entenderia.
Eu não tinha escapado.
Eu só tinha mudado de prisão.
E dessa vez eu não seria capaz de escapar.
NUNCA MAIS.
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NOTA DA AUTORA: Luther sói se prova um homem misterioso. Susan/Rose não sabe onde tá se metendo.







