Mundo de ficçãoIniciar sessãoMerda, merda, merda.
Tinha que ser aquela coincidência terrível? O mesmo cara do dia anterior? Eu queria era sair correndo dali. Mas não podia. O que faria sem aquele emprego? Era coincidência demais aquele homem ser o mesmo do dia anterior. Luther… esse era o nome dele, não era? Meu coração disparou com a possibilidade mais absurda de todas. E se ele fosse ligado ao George? E se, a qualquer momento, meu ex-marido surgisse atrás dele, sorrindo daquele jeito doentio? Fiquei parada, travada, encarando o homem alto e imponente à minha frente. — Está tudo bem com você? — ele perguntou, observando cada detalhe meu. — É… está. — Veio por causa do carro? — N-não… eu vim… — engoli em seco — vim para a entrevista. Os olhos dele permaneceram fixos em mim, atentos demais, como se estivessem tentando me desmontar camada por camada. Me controlei para não olhar por cima do ombro dele, procurando alguém escondido. — Ah, claro… — ele abriu espaço — entre, senhorita Rose. Que coincidência… Mas meu corpo demorou a reagir. Ele não parecia tão impressionado com a 'coincidência'. — Tem certeza de que está tudo bem? — Uhum — respondi — só a coincidência que me impressionou. — Tem razão. O destino é uma coisa, né? — Com certeza, senhor Luther. Entrei. O hall era amplo, elegante, com um chão tão bem encerado que quase refletia minha imagem. A decoração era sofisticada, mas sem exageros. A luz natural que entrava pelas janelas deixava o ambiente ainda mais imponente. Enquanto caminhava atrás de Luther, não consegui deixar de reparar em cada detalhe. Era tudo grande demais. Luxuoso demais. E senhor Luther… Bem, ele parecia pertencer perfeitamente àquele lugar. Seu perfume amadeirado voltou a me envolver, mais forte agora. Mesmo de costas, a presença dele era marcante, quase sufocante. Até mais que no dia anterior, quando batemos nossos carros. Em alguns momentos, notei que senhor Luther virava levemente a cabeça, como se conferisse se eu ainda o seguia. — Sente-se — disse, indicando uma poltrona. — Já volto. — Obrigada. A casa também era silenciosa. Imponente o suficiente para me fazer sentir pequena. E vulnerável. E se ele tivesse ido chamar alguém? E se George aparecesse? “Te peguei, sua vagabunda.” A frase ecoou na minha mente com tanta clareza que quase consegui ouvir a voz do meu ex-marido. Olhei ao redor, procurando rotas de fuga. Se algo acontecesse, eu não ficaria ali. — Respira — sussurrei para mim mesma — George está em coma… Tentava achar uma posição confortável na poltrona. Consegui, porém não completamente relaxada. Mantive as pernas juntas, levemente de lado, postura controlada. Parte do disfarce. Parte da sobrevivência. Ou talvez uma posição ideal para sair correndo ao menor sinal de perigo. “Melhor desistir, babyluv… eu vou te pegar” ria o George da minha mente. — Dane-se… — grunhi. Para tentar me distrair, comecei a arrumar a barra do vestido pela décima vez. Passei a mão discretamente pelo tecido, conferindo se tudo estava no lugar. — Será que ele vai demorar? — olhei para a saída. Na verdade eu queria dizer: ele voltará com o meu ex-marido? A casa estava fria — fria demais. O ar-condicionado central despejava um vento gelado que contrastava com o calor do lado de fora. Frio demais… como George. Cortante como ele. Fechei os olhos por um instante. Não. Ele não estava ali. Ele estava do outro lado do país. Em coma. Repita: em coma! Respirando por aparelhos. — Você é Rose agora — sussurrei. — Rose. Abri os olhos e tentei focar em algo que não fosse o medo. Sobre uma mesinha ao lado da poltrona, havia uma foto. Uma menina loirinha, com cabelos cacheados e um sorriso aberto, faltando um dentinho. Os olhos brilhavam, vivos. Sorri sem perceber. Por alguma razão, aquela imagem me acalmou. Por alguns segundos… eu quase me senti em paz. Até levar um susto. — Você usava óculos ontem à noite? A voz dele veio atrás de mim, grave, próxima. Dei um pequeno salto na poltrona. Quando me virei, senhor Luther já caminhava na minha direção, mãos nos bolsos, expressão séria. Sozinho. Ninguém atrás. Alívio imediato. Nada do maldito George. — Não… não estava de óculos. — Mas sempre usa? Droga. — Sim. Acho que foi por isso que aconteceu o acidente ontem. Ele me analisou por um instante. — Faz sentido. Muito, na verdade. Um pequeno orgulho surgiu dentro de mim. Eu estava conseguindo mentir. — Quer beber alguma coisa, senhorita Rose? — Não precisa se preocupar. Eu tô bem. — Certo — ele respondeu, ignorando completamente — pedi chá e suco. Escolhe quando chegar. No dia anterior ele já se mostrou levemente controlador. Hoje não seria diferente. Sentei mais ereta quando ele se acomodou no sofá à minha frente. Ele cruzou as pernas, apoiou os braços no encosto e ficou em silêncio. Me observando. Sem disfarçar. Sem qualquer rodeio ou cerimônia. Agora, com os olhos visíveis, a intensidade era outra. As pupilas escuras fixas em mim me deixavam sem saber para onde olhar. Ele era bonito. Bonito demais. E isso só piorava tudo. Senti meu rosto esquentar e desviei o olhar, tentando recuperar o controle. — Bela casa — comentei, apenas para quebrar o silêncio. — Obrigado — respondeu, olhando ao redor com tranquilidade — gosto daqui. Assenti, tentando parecer natural. — Sua esposa deve ter bom gosto, senhor Luther. Ele soltou uma leve risada, passando a mão pela sobrancelha. Algo na reação dele fez meu estômago apertar. — Eu não tenho esposa, senhorita Rose. Abri a boca para responder, mas me segurei. — Mas no anúncio… — Nada de esposa. Apenas Sofia, os empregados e eu… — ele riu se divertindo. Que espécie de homem maluco era aquele? — Eu pensei que… — Eu menti no anúncio. Minha testa franziu. Mentiu? — Mentiu que era casado? — Sim. — Mas… por quê? Uma sensação estranha começou a crescer dentro de mim. Errado. Aquilo estava errado. Muito errado. Meu coração acelerou novamente. Eu não podia falhar agora. Não depois de tudo. Eu não tinha passado por tudo aquilo… para cair em outra armadilha. — Por que merda o senhor mentiu no anúncio, senhor Luther? -------------------------- NOTA DA AUTORA: Rose não tem sorte. O cara já começa mentindo. Eu ficaria bem desconfiada. E vocês?






