Mundo de ficçãoIniciar sessãoApós humilhar-se diante do milionário Rafael Mendes em um jantar, Elisa, tratada como criada pela própria família, é forçada a trabalhar como babá de suas filhas para pagar um estrago. Presa entre a hostilidade de seu novo patrão – um viúvo amargurado – e o desprezo da família que a explora, ela encontra nas crianças negligenciadas um propósito. Aos poucos, seu cuidado paciente derreta o gelo da casa e transforma não só as vidas das gêmeas, mas também o coração fechado de Rafael. Quando a ambição desmedida de sua família ameaça alcançá-la, as duas realidades colidem, forçando uma verdade dolorosa à tona e uma escolha definitiva entre o passado de abuso e um futuro inesperado construído sobre ruínas. Uma história onde a maior dívida não é a que se paga com dinheiro, mas a que se salda com amor.
Ler maisO casarão range. Cada degrau da escada principal solta um lamento diferente quando desço para mais um dia idêntico aos anteriores. Conheço todos os sons, cada queixa da madeira envelhecida. O terceiro a partir do topo grita mais alto — quase como minha voz, entalada na garganta, querendo escapar.
Paro no hall, como sempre, diante do único retrato que resta da minha mãe. Ana. O sorriso dela congelou na tinta e no tempo; mal consigo lembrar como era em movimento. Eu tinha dez anos quando tudo parou. Uma dor de cabeça repentina, um desabafo no sofá após o jantar. Fim.
Meu pai, Alberto, nunca se recuperou. As mãos de pintor, que antes davam vida às telas, agora se fecham em punhos inertes no colo. Ele passa os dias afundado na poltrona do escritório, TV no volume máximo — talvez para sufocar o silêncio, talvez para não precisar me escutar.
Aquele silêncio pesado durou um ano inteiro. Até Valéria chegar.
Ela entrou feito furacão perfumado, sorriso sob medida, trazendo duas filhas adolescentes. Bianca, a mais velha, alta e magra, gelada, com olhos azuis que escaneiam sem ver. Me encara como se eu fosse uma mancha no tapete persa. Camila, a caçula, pior ainda: baixinha, astuta, sorrisinho torto que só surge depois de enfiar uma facada verbal pelas costas.
— Meninas, deem boas-vindas à Elisa — anunciou Valéria na primeira noite, mão já possessiva no braço do meu pai. — A partir de hoje somos uma grande e feliz família aqui.
A primeira grande mentira. E a mais cruel.
Dez anos depois, a “família feliz” ecoa lá de cima: música pop pulsando, risadas estridentes, portas de armário batendo. Enquanto isso, aqui embaixo, no hall escuro, sobra para mim o silêncio e os restos.
— Elisa!
A voz de Valéria corta o ar morno da cozinha como lâmina. Ela surge na porta, impecável no roupão de seda pérola, olhos azuis-gelo varrendo a bagunça deixada pelas filhas — taças de vinho, pratos com canapés, cinzas de cigarro.
— Ainda não começou a louça? Esperando convite escrito? As meninas têm brunch no clube em duas horas; essa cozinha precisa ficar impecável antes que desçam.
— Já começo — murmuro, olhos fixos na torneira enferrujada.
— Fale mais alto, menina. E olhe para mim quando eu falo.
O tom sai doce, paciente — o que a torna ainda mais assustadora.
Levanto o rosto. Ela me mede com tédio puro, como se eu fosse uma mancha teimosa no mármore Carrara.
— Onde está o avental? Não quero você sujando a única blusa decente que tem. Já parece mendiga com esses jeans velhos.
O avental está dobrado no fundo da gaveta do meu quarto, mas apenas aceno e mergulho as mãos na água fria, entre pratos gordurosos. A crosta esbranquiçada já se formou na superfície.
Bianca surge atrás da mãe, espiando com nojo.
— Mãe, ela passou minha blusa de seda? A branca, da Dolce?
— Pergunte diretamente, querida. Elisa não morde — Valéria sorri só com os lábios.
Bianca vira para mim, sem esperar resposta de verdade.
— Passou? Porque se encolheu, fico furiosa. É importada.
— Sim — minto, esfregando uma taça com força. Passei mesmo — com ferro velho e tanto ódio que o vapor sibilou como minha raiva contida. Quase queimei o tecido caro.
Camila aparece mastigando torrada com geleia.
— Cuidado, mana. Pelo jeito que ela olha nossas coisas, capaz de cuspir na blusa antes de passar. Viu a cara dela quando vestiu aquele vestido da Zara mês passado? Puro veneno.
Valéria solta risadinha seca.
— Camila, que exagero. Elisa não teria coragem.
O olhar glacial volta para mim, percorrendo meu corpo desleixado.
— Termine aqui e suba para ajudar suas irmãs a se arrumarem. Lave bem as mãos antes de tocar em qualquer coisa delas. Com sabonete.
Elas saem, deixando o rastro enjoativo de jasmim e pachuli — perfume caro que nunca mascara o cheiro de podridão que invadiu a casa.
Minutos depois, meu pai arrasta os pés até a cozinha, pantufas surradas, fantasma em roupão. Olha a pia transbordante, minhas costas, o chão lascado.
— Valéria pediu café — diz, voz rouca de sono ou desinteresse crônico. — Forte.
— Já faço — respondo, secando as mãos num pano úmido e duvidoso.
Ele fica parado, fitando minha nuca como se tentasse lembrar quem sou. Quem fomos. As mãos grandes e ossudas — que um dia me erguiam para alcançar estrelas pintadas no teto do quarto — se contraem levemente, incertas.
— Tá tudo bem por aí? — pergunta, eco vazio.
— Tudo sob controle.
Ele assente devagar, vira para sair, mas hesita na porta.
— Não deixe suas irmãs esperando. Elas têm compromissos importantes hoje. Coisas de futuro.
Irmãs. A palavra queima ácido no estômago. Elas nunca foram.
— Sim, pai — digo para as costas dele já distantes.
Do andar de cima vem a voz aguda e impaciente de Bianca, cortando o ar:
— Elisa! Anda logo, pelo amor de Deus! Preciso que ache meus brincos de pérola verdadeira, os pequenos! E lave essa cara de sono antes de subir!
Respiro fundo. O ar pesa gordura e mágoa. A água da pia gela as mãos, mas o tremor vem de algo mais fundo. O rangido da casa forma um coral constante de queixas. Ainda assim, o pulsar acelerado do meu sangue nos ouvidos soa mais alto.
ELISAMeu tempo não é mais meu. Foi fatiado, dividido, roubado. Transformou-se num relógio cruel que nunca para, marcando apenas horas de trabalho.Segunda a sexta, às 5h30 da manhã. O despertador não toca — não tenho mais celular —, mas o medo e a tensão no corpo me arrancam do sono como um choque elétrico. O sofá da sala de visitas é duro e frio. A casa ainda dorme, um silêncio opressivo que pesa mais que qualquer ruído.É a hora de Valéria. O preço pela minha estadia de fim de semana, pelo “favor” de ainda poder pisar neste inferno. Arrasto-me para a cozinha. Começo o café, ritual silencioso do servo. Enquanto a água esquenta, já aspiro a sala, espanando móveis, tentando não fazer barulho que desperte o dragão adormecido do desagrado do meu pai. Às 6h15, estou no banheiro dos fundos, esfregando o vaso com a escova dedicada, o cheiro de água sanitária queimando a garganta.O cansaço é um véu pesado sobre os pensamentos. São apenas trinta minutos de faxina frenética e muda, mas cada
ELISAA marca no rosto é um farol de vergonha. Um selo vermelho e roxo que grita a verdade que a casa inteira se esforça para calar. Não tenho gelo, nem remédio. Só o peso da dor pulsando em uníssono com o medo.Durmo — se é que se pode chamar aquela vigília tensa de sono — no sofá duro da sala de visitas. Os móveis de veludo cheiram a poeira e abandono. Cada som da casa me faz estremecer: o ronco distante do meu pai, o passo leve de Valéria indo buscar água, a risada abafada de uma das irmãs vinda do andar de cima. Sou uma intrusa no meu próprio exílio.De manhã, encaro o ritual do café com o rosto baixo, o cabelo puxado cuidadosamente para o lado esquerdo. Inútil. A marca é grande, violenta. Meu pai não levanta os olhos do jornal. Valéria me serve uma xícara com gesto mecânico, os olhos pousando na minha face sem pena, apenas com avaliação prática, como se visse um móvel riscado.— Você vai voltar para o trabalho hoje? — pergunta ela, não por interesse, mas por logística.— Tenho qu
ELISAVolto no sábado à tarde, depois de uma semana tentando decifrar o silêncio das gêmeas e desviar do olhar cortante de Rafael. Trago o cheiro do detergente caro de lá e a exaustão de uma alma espremida entre dois mundos. A Sra. Lúcia me deu uma pequena bolsa com pijama e muda de roupa — esmolas do novo cativeiro.A primeira coisa que vejo é a porta do meu quarto aberta. Não, não meu quarto. O quarto. Está vazio. Radicalmente vazio. A cômoda, o guarda-roupa, o tapete fino… tudo sumiu. Só restam marcas no carpete e um cheiro forte de tinta fresca nas paredes. Parece um buraco, uma cavidade arrancada da casa.Paro no limiar. A bolsa cai da minha mão. Não preciso perguntar. O perfume de Valéria ainda paira no corredor, doce e vitorioso.— Ah, você está aí.A voz de Bianca vem de trás. Ela encosta na porta do próprio quarto — agora maior, com roupão de seda.— A mãe achou melhor reformar. O quarto estava um nojo, cheirando a mofo. E você nem está mais aqui, pra que precisa?As palavras
VALÉRIAO silêncio da casa, na segunda-feira de manhã, soa como melodia doce e vitoriosa. Alberto já saiu, arrastando o casaco de sempre rumo ao escritório-fantasma. As meninas ainda dormem, exaustas da noite no clube. E eu fico aqui, no hall de entrada, saboreando o café enquanto a luz da manhã corta a poeira suspensa no ar.A maior perturbação finalmente se foi.Elisa partiu antes do amanhecer, engolida pela cidade para cumprir a sentença naquele apartamento moderno e gelado de Rafael Mendes. Um frio na espinha, aquele homem. Olhos que calculam o preço da própria sombra. Mas foi um golpe de mestre, digo a mim mesma. Livrou-nos do problema, colocou-a no lugar exato — o da servidão — e ainda criou uma dívida de favor com alguém cujo poder nem eu consigo medir por inteiro. Tudo graças a um fio de vinho tinto.Um sorriso satisfeito curva meus lábios. Levo a xícara de porcelana fina à boca. O gosto é puro conquista.Meus olhos sobem pela escada e pousam na porta fechada do quarto dos fun
Segunda-feira, sete da manhã em ponto. O sol ainda promete pouco no céu de inverno quando paro diante do portão automático da mansão na Avenida Paulista. Não é uma casa; é uma fortaleza de vidro e concreto, linhas retas e frias contra o cinza. Aperto o casaco fino contra o vento cortante — o mesmo de sempre. A única bagagem especial que trago é o medo, um nó fixo no estômago.O interfone tilinta, eletrônico e impessoal. A voz que responde não pertence a ele. É de uma mulher mais velha, cansada.— É a menina do serviço? Suba. Penthouse A.O elevador todo espelhado e silencioso parece um caixão. Meu reflexo me encara: olheiras fundas, postura curvada, mancha antiga no jeans. Pareço exatamente o que sou: uma intrusa.A porta do Penthouse A se abre antes que eu bata. A mulher do interfone — Sra. Lúcia, a governanta — me mede com olhar exausto, mas não hostil. Olhos bondosos cercados por rugas de preocupação.— Entre. Ele está esperando.A primeira impressão da casa é de um museu após um t
O ar na sala de jantar carrega uma tensão diferente. Não é o silêncio pesado de sempre, mas um zumbido de expectativa. Tudo brilha de forma agressiva: a prataria, os cristais, os sorrisos plásticos de Bianca e Camila. Valéria é um raio de ambição vestido de seda. Meu pai, engomado no terno, parece um fantasma que esqueceram de vestir para a festa.Eu sou a parte invisível da decoração. O uniforme preto e branco, ridículo e rígido, coça meu pescoço. Minhas mãos, já trêmulas de cansaço, seguram a pesada saladeira de prata. Meu único dever: passar, servir, desaparecer.Os convidados chegam. Primeiro, Rodrigo, herdeiro do “Preço Bom”. Alto, bronzeado, com uma risada que preenche o vazio. Avalia tudo — o mobiliário, o vinho, o decote de Bianca — com o mesmo olhar proprietário.E então ele entra.Rafael Mendes não entra; a sala se contrai ao seu redor. Alto, terno cinza-escuro perfeito e frio como armadura. O rosto é uma escultura de cansaço e desinteresse absoluto. Cabelos escuros, um pouc
Último capítulo