Mundo ficciónIniciar sesiónVALÉRIA
O silêncio da casa, na segunda-feira de manhã, soa como melodia doce e vitoriosa. Alberto já saiu, arrastando o casaco de sempre rumo ao escritório-fantasma. As meninas ainda dormem, exaustas da noite no clube. E eu fico aqui, no hall de entrada, saboreando o café enquanto a luz da manhã corta a poeira suspensa no ar.
A maior perturbação finalmente se foi.
Elisa partiu antes do amanhecer, engolida pela cidade para cumprir a sentença naquele apartamento moderno e gelado de Rafael Mendes. Um frio na espinha, aquele homem. Olhos que calculam o preço da própria sombra. Mas foi um golpe de mestre, digo a mim mesma. Livrou-nos do problema, colocou-a no lugar exato — o da servidão — e ainda criou uma dívida de favor com alguém cujo poder nem eu consigo medir por inteiro. Tudo graças a um fio de vinho tinto.
Um sorriso satisfeito curva meus lábios. Levo a xícara de porcelana fina à boca. O gosto é puro conquista.
Meus olhos sobem pela escada e pousam na porta fechada do quarto dos fundos. O quarto dela. Ou melhor: o quarto de hóspedes que ela ocupou indevidamente por todos esses anos.
Espaço desperdiçado. Pequeno, sim, com infiltração no canto, mas ainda assim um cômodo inteiro. Bianca reclama há meses que não tem closet digno. Camila precisa de um ateliê para suas “criações” — leia-se: bagunça de maquiagem e roupas espalhadas.
E ela… ela nem está mais aqui.
A decisão se forma, clara e lógica. Não é maldade. É eficiência. É alocar recursos de forma inteligente.
Subo os degraus. O salto toca a madeira com cadência de autoridade. A porta range ao abrir — coisa barata, preciso mandar trocar.
O quarto ainda cheira a ela. Desespero mofado, sabonete barato, tristeza antiga impregnada nas paredes. Enjoo. A cama está feita, tentativa patética de ordem. Na cômoda, poucos pertences: escova de cabelo com cerdas gastas, potinho vazio de vaselina, uma foto pequena e desbotada dela com a mãe — aquela mulher insípida.
Abro o guarda-roupa. Três jeans desbotados. Blusas largas, cor de nada. Um vestido único, simples, que deve ter sido da mãe. Nada que minhas filhas usariam, nem para limpar o chão. Tecido pobre, cortes que não valorizam ninguém.
Começo pelo guarda-roupa. Tiro tudo, jogo as roupas num saco de lixo grande que trouxe do andar de baixo. Sem emoção. Apenas praticidade. É lixo. Roupas de criada. Ela usará uniforme na casa do Sr. Mendes agora, ou o que ele permitir. Não precisa disso aqui.
Os sapatos velhos vão para o saco seguinte. A foto… hesito um segundo. Os olhos de Ana parecem me seguir. Sensação desagradável. Embrulho a moldura em jornal velho e coloco no fundo do saco, junto com a escova e a vaselina. São coisas dela. Que fiquem com ela, onde quer que durma.
Em menos de vinte minutos, o quarto perde qualquer traço de personalidade. Fica apenas um cubículo vazio, cheirando a poeira e oportunidade.
Bianca aparece na porta, espiando com interesse.
— O que está fazendo, mãe?
— Otimizando espaço, querida. Você não queria um closet para bolsas e sapatos de festa? Este cômodo é perfeito. Podemos instalar prateleiras, um espelho grande.
O rosto dela se ilumina com ganância pura.
— Sério? E a Elisa?
— A Elisa — respondo, fechando o zíper do último saco com gesto firme — nem está mais aqui. Mora e trabalha em outro lugar agora. Para todos os efeitos, esta não é mais a casa dela. Ela não precisa de quarto aqui.
Olho para minha filha, transmitindo a lição.
— Recursos devem ser alocados para quem realmente os utiliza e merece.
Bianca sorri, entendendo perfeitamente.
— E as coisas dela?
— Lixo — digo, simplesmente. — Coisas velhas e inúteis. Já está resolvido.
Chamo Jorge, o caseiro, e mando levar os dois sacos pretos volumosos para a calçada. O lixeiro passa amanhã cedo. É assim que se faz. Não se guarda lixo sentimental.
Mais tarde, quando Alberto volta, levo-o até o quarto vazio. Ele para na porta, confuso.
— Onde estão as coisas da Elisa?
— Arrumamos, amor. Ela não vive mais aqui, Alberto. Está trabalhando e, pelo que entendi, morando na casa do patrão durante a semana. Faria sentido mantermos um quarto ocioso? Bianca precisa tanto de espaço…
Ele franze a testa. Uma sombra de desconforto passa pelos olhos. É a ponta solta da culpa que ele ainda carrega. Preciso cortá-la.
— Ela… ela pode precisar voltar…
— Voltar para quê, querido?
Coloco a mão suave em seu braço. Minha voz é razão pura.
— Ela causou um grande constrangimento. Está pagando por isso, construindo uma nova vida. É melhor para todos. Até para ela. Aqui, seria só um lembrete constante do próprio fracasso. Estamos fazendo um favor, libertando-a.
Ele olha o quarto vazio, depois para mim. Vejo a dúvida se dissolver na lógica cansada que ofereço. É mais fácil assim. Sempre é.
— Sim… talvez você tenha razão — murmura, virando-se para sair. — Só… só espero que o Mendes não a trate mal.
— Claro que não, amor — minto com doçura, fechando a porta do quarto vazio. — Ele é um cavalheiro. E ela está aprendendo uma lição valiosa.
À noite, deitada ao lado do ronco suave de Alberto, olho para o teto escuro. Não há remorso. Há satisfação profunda e silenciosa. A casa finalmente se ajusta à forma correta. Minhas filhas e eu no centro. Alberto orbitando ao nosso redor, útil e maleável.
E Elisa… Elisa é um saco de lixo preto na calçada, esperando para ser levado. Uma mancha removida.
A linha de sucessão está clara. A conquista, completa.
E ninguém, nem mesmo aquele olhar assustado de menina que ela às vezes tinha, vai perturbar a paz que construí aqui.







