Capítulo 2: O Veneno e a Preparação

O veneno de Valéria não age rápido. É lento, metódico, gota a gota no ouvido do meu pai. E eu assisto, impotente, enquanto o homem que já foi meu porto seguro vira um estranho hostil, um agente dela.

Tudo começa com sussurros. Sempre que os dois estão na cozinha tomando café, o murmúrio baixo e constante dela chega até mim.

— Não sei mais o que fazer com ela, Alberto… Tão fechada. Tão rude com as meninas. Ou então: — Ela olha para nós com tanto ódio, querido. Às vezes me dá medo.

Nunca estou por perto para me defender. Estou sempre no lugar errado: esfregando o banheiro, aspirando o andar de cima, recolhendo roupa do varal. Quando apareço na sala, o ar já pesa. Meu pai me observa de soslaio, os olhos antes apenas distantes, agora tingidos de suspeita recém-plantada.

O primeiro golpe direto vem no almoço de domingo, dois dias antes do grande jantar.

É uma refeição forçada, um “ensaio” para a noite importante, segundo Valéria. Sirvo a mesa antes de me sentar com meu prato mais simples.

— Elisa, passa o sal para o seu pai, por favor — pede ela, voz doce como mel.

Estendo o saleiro. Minha mão, exausta de um dia inteiro limpando para deixar a casa impecável para os convidados, treme de leve. Um grão minúsculo cai sobre a toalha de linho branca.

Invisível, quase.

Valéria suspira, profunda decepção no ar.

— Ah, Elisa… Essa toalha era da sua avó. Uma relíquia. E amanhã teremos convidados muito especiais.

Camila encosta o garfo com um tilintar seco.

— Fez de propósito. Ela sempre fica desastrada quando sabe que vai ter gente importante. Quer chamar atenção.

— Não fiz! — escapa antes que eu consiga segurar. A defesa soa agressiva no silêncio que se segue.

Meu pai, que cortava o bife, para. Ergue os olhos. Não é mais o olhar cansado de antes. É duro, irritado.

— Ninguém disse que foi de propósito, Elisa. Por que já sai na defensiva? Está com a consciência pesada?

As palavras acertam como soco.

— Pai, foi só um tremor… Estou cansada.

— Todos estamos cansados — resmunga ele, voltando ao prato. — Mas alguns de nós não precisam dramatizar tudo, especialmente quando sua madrasta está se desdobrando para organizar algo importante para o futuro desta família.

Valéria pousa a mão reconfortante no braço dele.

— Vamos lá, Alberto. Ela é jovem. Ainda tem que aprender a ter cuidado com as coisas dos outros — diz, e o olhar pousa em mim com um brilho de vitória. — E amanhã, especialmente, precisamos de perfeição. Você entende, não é, Elisa? Nada de… acidentes.

A mensagem não deixa dúvida: eu sou o risco. O elemento que pode desmoronar os planos grandiosos dela.

O golpe seguinte vem mais baixo, mais doloroso.

Na tarde anterior ao jantar, encontro na biblioteca um livro antigo do meu pai: A Linguagem da Cor, presente da minha mãe. Empoeirado, esquecido numa prateleira alta. Pego-o com cuidado, limpo a capa com a barra da blusa. Um gesto automático, uma tentativa de tocar algo que ainda cheira a eles, aos meus pais de verdade.

Bianca me vê.

Uma hora depois, meu pai aparece no quarto dos fundos. Expressão fechada, raivosa.

— Onde está o livro?

— Qual livro, pai?

A Linguagem da Cor, da sua mãe. Bianca disse que você pegou e saiu correndo, como se não quisesse que ninguém visse. Precisamos da biblioteca impecável para amanhã, Elisa. Não é hora de remexer nas coisas.

O sangue congela.

— Eu só estava limpando… Está na estante, no mesmo lugar.

Ele não acredita. Os olhos varrem meu quarto pequeno, como se eu fosse ladra.

— Elisa, se você pegou algo… isso é inaceitável. Com o jantar de amanhã, a última coisa que preciso é de você criando problemas, escondendo coisas.

As lágrimas queimam, mas me recuso a deixar cair.

— Não peguei nada, pai. Pode procurar.

Ele não procura. Apenas balança a cabeça, mistura de decepção e descrença.

— Não sei mais o que pensar em você. Sua madrasta está sempre cobrindo suas falhas, tentando incluí-la nos preparativos, e você só responde com má vontade e agora… com isso.

Isso. Sou um “isso”. Um problema. Um obstáculo na noite perfeita de Valéria.

Na véspera, a tensão atinge o pico. Valéria reúne as filhas — e eu, por extensão — no canto da sala, enquanto polia a última colher de prata.

— Rodrigo é o objetivo. Mas o Sr. Mendes… ele é a oportunidade. Sejam encantadoras, interessadas, brilhantes — instrui, virando-se para meu pai. — Alberto, você precisa estar no seu melhor. Conversa fluida, conhecimento dos vinhos… mostre que ainda é o homem influente que conheceram.

Meu pai assente, mas vejo o desconforto nos olhos dele. Ele não é mais aquele homem. Valéria tenta ressuscitar um fantasma.

Então o olhar dela corta o ar e me encontra.

— E você, Elisa.

A doçura some. Fica só a frieza de aço.

— Você vai servir. Vai usar o uniforme. E vai ser invisível. Nada de tremer, nada de derrubar, nada de abrir a boca. Você é o pano de fundo. Se algo sair errado por sua causa… bem, seu pai e eu teremos uma conversa muito séria.

Bianca e Camila trocam sorrisos cúmplices, cruéis. Mal podem esperar para me ver curvada, servindo, enquanto elas brilham.

Meu pai me encara. O rosto fechado.

— Você ouviu sua madrasta, Elisa — diz, voz cansada, mas firme. — Comporte-se. É só uma noite. Não estrague isso para nós.

Para nós. As palavras ecoam. Não é mais “para mim”, nem “para nossa família”. É “para nós”. Ele e elas.

Subo para o quarto, o coração pesado como chumbo. O uniforme preto e branco, ridículo, cheirando a naftalina, pende na porta do armário como sentença.

Meu pai não é mais meu aliado. Virou o primeiro soldado de Valéria nessa guerra por status. Amanhã eu não serei a filha. Serei a criada. A sombra. O risco a controlar.

E o pior é saber que, sob as camadas de veneno e pressão, ainda existe o homem que me carregava nos ombros. Mas ele está tão perdido, tão determinado a acreditar na fachada de família que Valéria construiu, que me vendeu como preço por uma noite de sucesso.

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