Capítulo 4: A Prisão de Mármore

Segunda-feira, sete da manhã em ponto. O sol ainda promete pouco no céu de inverno quando paro diante do portão automático da mansão na Avenida Paulista. Não é uma casa; é uma fortaleza de vidro e concreto, linhas retas e frias contra o cinza. Aperto o casaco fino contra o vento cortante — o mesmo de sempre. A única bagagem especial que trago é o medo, um nó fixo no estômago.

O interfone tilinta, eletrônico e impessoal. A voz que responde não pertence a ele. É de uma mulher mais velha, cansada.

— É a menina do serviço? Suba. Penthouse A.

O elevador todo espelhado e silencioso parece um caixão. Meu reflexo me encara: olheiras fundas, postura curvada, mancha antiga no jeans. Pareço exatamente o que sou: uma intrusa.

A porta do Penthouse A se abre antes que eu bata. A mulher do interfone — Sra. Lúcia, a governanta — me mede com olhar exausto, mas não hostil. Olhos bondosos cercados por rugas de preocupação.

— Entre. Ele está esperando.

A primeira impressão da casa é de um museu após um terremoto. Tudo absurdamente caro: mármore branco no piso, móveis minimalistas de design, vista panorâmica da cidade. E tudo coberto por uma fina camada de caos. Pilhas de papéis na mesa de centro. Brinquedos caros, intocados, espalhados pelo chão. Garrafas vazias de uísque e vinho como troféus de uma guerra solitária. E o silêncio. Pesado. Doente.

Ele está de pé diante da janela panorâmica, de costas. Roupão escuro sobre camiseta e moletom. Nem terno hoje. Só a postura permanece: rígida, impenetrável.

— Pontual. Um milagre.

A voz ecoa no vidro, sem se voltar. Ele gira devagar. O rosto está mais pálido que no jantar, olhos escuros com sombras violáceas por baixo. O desdém, porém, segue intacto.

— A Sra. Lúcia vai lhe mostrar o quarto. Cômodo de serviço. Não espere luxos.

— Eu não espero nada — murmuro.

Ele ouve. Um canto da boca sobe num quase-sorriso.

— Bom. Porque não terá. Sua função é cuidar de Laura e Isabel. Alimentar, vestir, garantir que não se matem acidentalmente. Não é pedagogia. Não é psicologia. Supervisão básica. Consegue fazer isso sem derrubar nada sobre elas?

O sarcasmo corta como lâmina. Aperto as mãos atrás das costas.

— Sim.

— Excelente. As meninas estão no quarto. Último corredor à direita. Raramente saem. Boa sorte fazê-las falar.

Ele volta-se para a janela, dispensando-me.

— Sra. Lúcia, a partir de agora a babá é responsabilidade sua. Relate qualquer desastre.

A governanta me leva por um corredor interminável. A casa é labirinto de portas fechadas e espaços vazios. Abre a porta de um quarto minúsculo: cama de solteiro, armário simples, janela para o fosso de ventilação.

— É aqui. Banheiro ao lado. Refeições na cozinha de serviço, depois que a família terminar.

Ela hesita, baixa a voz.

— As meninas… são boas garotas. Só estão muito assustadas. Ele… o senhor não está bem. Tenha paciência.

Paciência. Como se fosse um luxo que ainda me sobrasse.

Chego à porta do quarto das gêmeas. O coração acelera. Bato de leve. Nada. Empurro. A porta range.

O quarto é grande, claro, decorado com tudo que dinheiro compra para crianças: camas em forma de carruagem, estantes cheias de bonecas importadas, tapete macio. E está imundo. Roupas limpas e sujas misturadas no chão. Pratos com restos secos na mesa. O ar cheira a leite azedo e solidão.

No centro do tapete, sentadas frente a frente, estão elas. Laura e Isabel. Uns cinco anos. Idênticas: cabelos cacheados e escuros como os dele, olhos grandes castanhos. Pijamas que já foram rosa, agora manchados. Não brincam. Apenas sentam, uma segurando a mão da outra, em silêncio absoluto. Quando me veem, dois pares de olhos se arregalam, cheios de terror puro.

Isabel — acho que é Isabel — solta um gemido pequeno e se encolhe atrás da irmã.

— Olá — digo, voz o mais suave possível, ajoelhando-me à distância. — Meu nome é Elisa. Vou ficar com vocês por um tempo.

Nenhuma resposta. Laura me encara como se eu fosse um monstro do armário. Lábios apertados, trêmulos.

Tento sorrir. Os músculos parecem enferrujados.

— Que bonecas lindas vocês têm.

Nada. Só silêncio e medo palpável.

Levanto devagar e começo a recolher os pratos sujos. Elas me observam, tensas a cada movimento. Quando me aproximo demais para pegar um ursinho caído, as duas se encolhem juntas, sincronizadas no pavor.

Uma voz corta o ar da porta, que eu não havia fechado.

— Comovente.

Rafael encosta no batente, braços cruzados, expressão de tédio amargo.

— A criada das taças de vinho fazendo serviço de limpeza. Pelo menos é útil para alguma coisa. Vejo que as meninas estão tão encantadas com sua presença quanto eu.

Olho para ele. Pela primeira vez, um fio de revolta — não medo — percorre minhas veias.

— Elas têm medo — digo, baixo.

Ele ri, seco, sem humor.

— Todo mundo tem medo de alguma coisa, menina. Elas vão aprender a conviver com o delas. Assim como você.

Os olhos percorrem meu corpo: cabelo desalinhado, sapatos gastos. Julgamento rápido e brutal.

— Não espere fazer amizade. Faça seu trabalho. E mantenha-se fora do meu caminho.

Ele vai embora, deixando o eco da hostilidade e o cheiro do desprezo.

Volto-me para as meninas. Laura ainda me encara, mas agora uma lágrima teimosa escorre pela bochecha suja. Isabel esconde o rosto no ombro da irmã.

O peito aperta. Esta não é uma casa. É um mausoléu. E as duas criaturas mais vivas aqui estão enterradas vivas, assim como eu.

Aperto os pratos sujos contra o corpo e saio em silêncio. Sra. Lúcia está na cozinha de serviço, lavando algo.

— E então? — pergunta, sem muita esperança.

— Elas têm medo de mim — respondo, voz quase sumida.

Ela suspira, resignação infinita.

— Elas têm medo de tudo, minha flor. Até do próprio pai.

Olho pela porta entreaberta para o corredor vazio e luxuoso. A fortaleza de mármore é tão fria quanto a minha, só que aqui os gritos são silenciosos. E o carcereiro, ao contrário do meu pai, não está cego. Ele vê tudo. E simplesmente não se importa.

O primeiro dia. A primeira de muitas manhãs. E a dívida que carrego agora parece muito maior do que o preço de uma camisa.

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