O ar na sala de jantar carrega uma tensão diferente. Não é o silêncio pesado de sempre, mas um zumbido de expectativa. Tudo brilha de forma agressiva: a prataria, os cristais, os sorrisos plásticos de Bianca e Camila. Valéria é um raio de ambição vestido de seda. Meu pai, engomado no terno, parece um fantasma que esqueceram de vestir para a festa.Eu sou a parte invisível da decoração. O uniforme preto e branco, ridículo e rígido, coça meu pescoço. Minhas mãos, já trêmulas de cansaço, seguram a pesada saladeira de prata. Meu único dever: passar, servir, desaparecer.Os convidados chegam. Primeiro, Rodrigo, herdeiro do “Preço Bom”. Alto, bronzeado, com uma risada que preenche o vazio. Avalia tudo — o mobiliário, o vinho, o decote de Bianca — com o mesmo olhar proprietário.E então ele entra.Rafael Mendes não entra; a sala se contrai ao seu redor. Alto, terno cinza-escuro perfeito e frio como armadura. O rosto é uma escultura de cansaço e desinteresse absoluto. Cabelos escuros, um pouc
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