Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ar na sala de jantar carrega uma tensão diferente. Não é o silêncio pesado de sempre, mas um zumbido de expectativa. Tudo brilha de forma agressiva: a prataria, os cristais, os sorrisos plásticos de Bianca e Camila. Valéria é um raio de ambição vestido de seda. Meu pai, engomado no terno, parece um fantasma que esqueceram de vestir para a festa.
Eu sou a parte invisível da decoração. O uniforme preto e branco, ridículo e rígido, coça meu pescoço. Minhas mãos, já trêmulas de cansaço, seguram a pesada saladeira de prata. Meu único dever: passar, servir, desaparecer.
Os convidados chegam. Primeiro, Rodrigo, herdeiro do “Preço Bom”. Alto, bronzeado, com uma risada que preenche o vazio. Avalia tudo — o mobiliário, o vinho, o decote de Bianca — com o mesmo olhar proprietário.
E então ele entra.
Rafael Mendes não entra; a sala se contrai ao seu redor. Alto, terno cinza-escuro perfeito e frio como armadura. O rosto é uma escultura de cansaço e desinteresse absoluto. Cabelos escuros, um pouco longos, desalinhados como se ele tivesse passado as mãos neles com irritação repetidas vezes. Olhos castanhos tão escuros que parecem pretos, varrem o ambiente e desdenham de tudo o que encontram. Chegou atrasado. Não se desculpa.
Valéria quase se curva.
— Sr. Mendes, que honra.
Ele acena com a cabeça, movimento mínimo. O aperto de mão com meu pai é rápido, morto. Quando chega minha vez, Valéria faz um gesto apressado.
— E a Elisa, que nos ajuda hoje.
Ele nem pisca. Sou parte da parede.
O jantar avança. Rodrigo fala alto. Bianca ri no tom certo. Camila lança olhares para Rafael, que responde com monossílabos cortantes. Ele bebe um gole do tinto caríssimo que meu pai foi obrigado a comprar. O rosto permanece impassível, só tédio profundo.
Chega minha vez de servir o vinho. A mão direita de Valéria, escondida sob a mesa, faz sinal insistente: encha as taças. O peso da garrafa de cristal parece dobrar. O calor, a pressão, o olhar dela queima minha nuca.
Me aproximo de Rafael por trás. Inclino a garrafa sobre a taça quase cheia. Minha mão esquerda, a que segura o pano, treme incontrolável.
O fio escarlate escorre pela borda e cai, lento e perfeito, no imaculado tecido branco da camisa dele, bem no antebraço.
O silêncio é instantâneo e absoluto. O mundo para.
Toda conversa morre. Ouço a respiração ofegante de Camila. Vejo o sorriso de Bianca congelar em espasmo.
Meu sangue vira gelo. O mundo se reduz àquela mancha violácea crescendo no branco puro.
Lentamente, Rafael baixa os olhos para o estrago. Depois os levanta para os meus.
Não é raiva. É algo pior: um desdém tão profundo, tão glacial, que me transforma em inseto nojento.
— Impressionante — diz ele. A voz baixa, rouca, corta o silêncio como diamante no vidro. — Normalmente as pessoas pagam caro pela minha atenção, não para destruir minha propriedade.
Rodrigo solta uma risada nervosa, abafada.
— Elisa! Sua desastrada! — O sussurro furioso de Valéria é um chicote. — Olha o que você fez!
Fico paralisada. A garrafa ainda pesa na mão. Lágrimas de pânico e humilhação queimam atrás dos olhos, mas não caem. O choque é grande demais.
Rafael não desvia o olhar. Estende o braço, examina o estrago com expressão crítica e distante, como se avaliasse um quadro riscado.
— A camisa é Zegna. Cotonina egípcia, costura à mão em Milão — fala diretamente para mim, cada palavra uma faca. — Custa mais do que qualquer salário anual que uma pessoa na sua… posição poderia sonhar.
Valéria se levanta, pálida.
— Sr. Mendes, por favor, nós pagaremos, claro, qualquer limpeza…
— Não se limpa — interrompe ele, frio. A atenção volta totalmente para mim. — Você estragou. Você conserta.
Tento engolir. A garganta fecha.
— Preciso de uma babá para minhas filhas. Há duas semanas. É um serviço… adequado às suas habilidades, pelo visto — o sarcasmo é venenoso. — Você vai trabalhar para mim. Seu salário será zero até que a dívida — valor da camisa mais os juros do meu aborrecimento — seja quitada. Deve levar alguns anos.
O chão some sob meus pés. Trabalhar para ele? Naquela casa gelada, sob aquele olhar?
— Isso… isso é um absurdo! — minha voz sai estrangulada.
Valéria reage como se eu tivesse cuspido no chão.
— Cale a boca, Elisa!
Ela se volta para Rafael, fisionomia mudando num piscar de olhos. A fúria contra mim vira súplica calculada.
— Sr. Mendes, é claro. Elisa precisa aprender responsabilidade. Ela aceita.
— Não aceito! — grito, o pânico superando tudo.
É então que meu pai fala. Não olha para mim. Olha para a mesa, para as mãos.
— Elisa.
A voz dele é pesada, cansada, carrega uma decepção final.
— Você causou o problema. Você tem a obrigação de consertar. Não discuta. O Sr. Mendes está sendo mais que razoável.
As palavras são o golpe final. Meu próprio pai. Meu último porto frágil, jogando-me ao leão para acalmar as águas, agradar Valéria, não irritar o homem poderoso.
Rafael observa a cena, rosto impenetrável. Vê o desespero nos meus olhos, a traição no ar, a vitória mesquinha no rosto de Valéria. Pega o guardanapo de linho e j**a sobre a mancha, gesto de desprezo.
— Está decidido, então. Você começa segunda-feira às sete da manhã. A governanta dará os detalhes.
Ele se levanta, como se a noite tivesse terminado.
— Agora, se me desculpem. A noite perdeu o propósito.
Não espera resposta. Vira-se e sai, deixando um rastro de silêncio consternado e o cheiro do meu fracasso.
Valéria expira, mistura de alívio e triunfo.
— Viu, Alberto? Sua filha estragou nosso jantar.
Olha para mim. Nos olhos azuis-gelo brilha uma satisfação perversa.
— Você ouviu, Elisa. Arrume suas coisas. Vai pagar pelo seu desastre.
Fico de pé, ainda segurando a garrafa de vinho, o uniforme ridículo me enforcando. O gosto na boca é de cinzas e tinto. A humilhação queima, mas o que arde mais é o gelo do abandono no olhar do meu pai.
Não sou mais só a filha rejeitada. Agora sou devedora. Serva com sentença. E meu carcereiro não será Valéria, mas aquele homem de olhos escuros e coração aparentemente feito de pedra.
Segunda-feira às sete. O início da minha nova prisão.







