ELISA
Meu tempo não é mais meu. Foi fatiado, dividido, roubado. Transformou-se num relógio cruel que nunca para, marcando apenas horas de trabalho.
Segunda a sexta, às 5h30 da manhã. O despertador não toca — não tenho mais celular —, mas o medo e a tensão no corpo me arrancam do sono como um choque elétrico. O sofá da sala de visitas é duro e frio. A casa ainda dorme, um silêncio opressivo que pesa mais que qualquer ruído.
É a hora de Valéria. O preço pela minha estadia de fim de semana, pelo “favor” de ainda poder pisar neste inferno. Arrasto-me para a cozinha. Começo o café, ritual silencioso do servo. Enquanto a água esquenta, já aspiro a sala, espanando móveis, tentando não fazer barulho que desperte o dragão adormecido do desagrado do meu pai. Às 6h15, estou no banheiro dos fundos, esfregando o vaso com a escova dedicada, o cheiro de água sanitária queimando a garganta.
O cansaço é um véu pesado sobre os pensamentos. São apenas trinta minutos de faxina frenética e muda, mas cada