ELISA
Volto no sábado à tarde, depois de uma semana tentando decifrar o silêncio das gêmeas e desviar do olhar cortante de Rafael. Trago o cheiro do detergente caro de lá e a exaustão de uma alma espremida entre dois mundos. A Sra. Lúcia me deu uma pequena bolsa com pijama e muda de roupa — esmolas do novo cativeiro.
A primeira coisa que vejo é a porta do meu quarto aberta. Não, não meu quarto. O quarto. Está vazio. Radicalmente vazio. A cômoda, o guarda-roupa, o tapete fino… tudo sumiu. Só restam marcas no carpete e um cheiro forte de tinta fresca nas paredes. Parece um buraco, uma cavidade arrancada da casa.
Paro no limiar. A bolsa cai da minha mão. Não preciso perguntar. O perfume de Valéria ainda paira no corredor, doce e vitorioso.
— Ah, você está aí.
A voz de Bianca vem de trás. Ela encosta na porta do próprio quarto — agora maior, com roupão de seda.
— A mãe achou melhor reformar. O quarto estava um nojo, cheirando a mofo. E você nem está mais aqui, pra que precisa?
As palavras