O Que Restou de Nós Cabia Num Diário
No verão de 1985.
Depois que a enchente passou, Lavínia organizou sozinha o funeral da filha, Clara, que tinha acabado de fazer um ano.
Foi uma despedida discreta, sem alarde.
Daquele dia em diante, os policiais e seus familiares que moravam no conjunto residencial perceberam a mudança em Lavínia.
De manhã, ela já não lavava o uniforme de Pietro todos os dias nem pendurava a roupa na varanda.
No almoço, já não passava horas preparando uma sopa para levar à delegacia, preocupada com a alimentação dele.
À noite, já não ficava sob a luz da lâmpada, remendando suas roupas e esperando, aflita, que voltasse.
Também não esperava ansiosa pela oportunidade de conversar um pouco, nem contava com entusiasmo as pequenas coisas do dia a dia.
Mais tarde, quando sofreu um acidente de carro e precisou ser internada para uma cirurgia, não procurou Pietro.
O médico pediu que avisasse algum familiar.
Lavínia respondeu que não tinha família e assinou o termo de consentimento com a mão coberta de sangue.
Ficou uma semana internada sem contar nada a Pietro.
No dia da alta, ele soube do acidente e correu para o hospital.