Ponto de vista do narrador
A reunião terminou às duas e quarenta da madrugada.
O auditório do vigésimo andar estava vazio, só restavam papéis espalhados, garrafas d’água pela metade e o eco das vozes que ainda discutiam números e contratos. Carlos Alberto assinou o último documento, entregou a caneta Montblanc ao advogado e dispensou todos com um aceno seco. Ninguém ousou se demorar.
Quando o elevador desceu, ele já não pensava mais em ações, fusões ou prazos.
Pensava nela.
Natália sorrindo para Rebeca.
Natália corando quando ele roçava o cotovelo no dela na padaria.
Natália de olhos vendados na suíte do Le Rêve, gemendo o nome dele enquanto gozava várias vezes.
O desejo doía fisicamente.
No último andar do estacionamento subterrâneo, o carro dele esperava. Ao lado, Letícia Matos, secretária-executiva há quatro anos, pernas longas realçadas pela saia lápis preta, blusa de seda branca entreaberta no primeiro botão, cabelo preso num coque perfeito. Ela sabia o ritual.