Ponto de vista do narrador
A casa dos Rodrigues Silva sempre fora simples, mas cheia de vida. Antes da tragédia, havia risos na cozinha, barulho de panela, a voz do senhor Henrique Rodrigues Silva chamando os filhos para jantarem. Ele era o tipo de pai que chegava cansado, mas nunca sem um sorriso — um homem que acreditava que dignidade era o único luxo que jamais poderia perder.
Mas esse tempo parecia tão distante quanto um sonho esquecido.
Depois do acidente, tudo mudou.
A rotina da família passou a ser silenciosa, pesada, quase sufocante. Cada um andava como se carregasse o peso do mundo nas costas — e, de fato, carregavam.
O acidente de Henrique acontecera no trabalho. Um momento. Um único momento de descuido que transformou vidas inteiras em ruínas.
Henrique trabalhava como operador de máquinas numa grande transportadora, lidando todos os dias com toneladas de aço, carga e responsabilidade. Era experiente, cuidadoso, conhecido por ser o tipo de homem que só ia embora depois