Mundo de ficçãoIniciar sessãoCecília
Aquela era a minha hora favorita do dia: o momento de acalmar os ânimos e preparar os dois furacões para dormir. No entanto, conforme me aproximava da porta semiaberta, o silêncio deu lugar a um sussurro ríspido, que rapidamente subiu de tom. Eles estavam discutindo. De novo. — Você é uma medrosa, Liah! Ela nunca ia descobrir que foi a gente! — a voz de Matteo ecoou, carregada daquela irritação típica de uma criança de sete anos que teve seus planos frustrados. — Ia descobrir sim! E eu não sou medrosa, você que é bobão! — Merliah rebateu no mesmo instante, a voz ardendo em indignação. Parei por um segundo diante da porta, respirando fundo. Como babá deles há apenas algumas semanas, eu já tinha aprendido que entrar no meio daquelas tempestades exigia tanto tato quanto paciência. Dei duas batidas leves na madeira, apenas por educação, e empurrei a porta por completo, exibindo o meu melhor sorriso de "está tudo bem por aqui?". — Com licença, pessoal — disse, entrando no quarto decorado em tons de azul e lilás. — O papo de vocês deu para ouvir lá do corredor. Posso saber qual é o assunto tão urgente que está fazendo os dois quase saírem no tapa a essa hora da noite? Matteo, que estava sentado de pernas cruzadas em sua cama, cruzou os braços imediatamente. Ele me encarou com aquele bico emburrado que costumava afastar qualquer um, tentando parecer muito mais durão do que realmente era. — Não pode saber não. Não é da sua conta, Cecília — disparou ele, virando o rosto para o lado. Antes que eu pudesse sequer processar a falta de gentileza do pequeno rebelde, Merliah saltou de sua própria cama, os olhos azuis faiscando enquanto apontava o dedo acusatório para o irmão gêmeo. — É da conta dela sim! Você tem que saber sim, Cecília! Eu vou falar para ela Matteo — Não fala nada, Merliah! Se você abrir a boca, eu juro que quebro o seu castelo de blocos amanhã bem cedo! — Matteo interrompeu, berrando e apontando de volta para a irmã. — Tenta a sorte! Eu quebro os seus carrinhos antes! O quarto virou um verdadeiro campo de batalha de gritos sobrepostos. Eles falavam ao mesmo tempo, gesticulavam e se acusavam com uma velocidade impressionante. Minha cabeça começou a latejar levemente. Eu sabia que, se tentasse investigar o motivo real da briga naquele momento, a noite se estenderia em um tribunal infantil sem fim, cheio de choros e negações. Eu precisava mudar o foco, e rápido. Dando dois passos firmes até o centro do quarto, bati as palmas das mãos uma única vez, de forma sonora, interrompendo o fluxo de ofensas dos dois. Eles congelaram, olhando para mim. — Chega, os dois — usei meu tom de voz mais calmo, porém firme, aquele que impunha limites sem precisar gritar. — Querem saber de uma coisa? Eu mudei de ideia. Eu não preciso saber do que se trata. Não me interessa quem começou, quem está certo ou quem está errado. Os gêmeos piscaram, claramente surpresos por eu não ter insistido em dar uma bronca ou arrancar uma confissão. — A única coisa que me interessa agora — continuei, levantando o livro em minhas mãos que peguei na biblioteca a caminho do quarto para que pudessem ver a capa ilustrada — é saber se vocês vão me deixar ler essa história para vocês irem dormir. Mas isso só vai acontecer se os dois deitarem, cobrirem os pés e fecharem a boca. O que me dizem? Matteo e Merliah se entreolharam, uma conversa silenciosa passando entre os dois. Matteo soltou um suspiro pesado, nitidamente relutante, e se jogou para trás no colchão, puxando o edredom até o peito com um movimento brusco. Merliah fez o mesmo, embora de forma mais suave, sem desviar os olhos de mim. — Tá bom... — resmungou Matteo, virando-se para a parede. — Pode ler, senhorita Cecília — consentiu Merliah, ajeitando o travesseiro. Sorri internamente com a pequena vitória. Caminhei até a poltrona confortável que ficava exatamente no espaço a frente, entre as duas camas e me sentei. Abri o livro na primeira página e comecei a ler. Usei uma voz mansa, modulando os tons para os personagens, criando uma atmosfera lúdica e tranquila que aos poucos foi preenchendo o quarto. Eu não precisei avançar muito. O cansaço do dia inteiro correndo pelo quintal finalmente cobrou o seu preço. Quando eu estava terminando a quinta página, olhei para o lado esquerdo e percebi que Matteo já estava completamente capotado. Ele respirava pesado, com a boca semiaberta, os braços largados para fora da coberta, sem nem lembrar da pose de durão de minutos atrás. Fechei o livro devagar, sem fazer barulho, e o deixei de lado na mesinha de cabeceira. Levantei-me com cuidado e fui até a cama de Matteo, puxando o edredom para cobrir seus braços e lhe dando um beijo casto no topo da cabeça. Depois, virei-me para o outro lado. Merliah ainda estava bem acordada. Seus olhinhos brilhavam na penumbra do quarto, fixos em mim. Aproximei-me da sua cama com passos de gato e me sentei na beirada do colchão. Estendi a mão e comecei a fazer um carinho suave em seus cabelos loiros e finos, tirando algumas mechas que insistiam em cair sobre seu rosto. — O que foi, minha linda? — perguntei em um sussurro quase inaudível. — Não consegue dormir? Merliah soltou um suspiro longo, que pareceu carregar um peso grande demais para o peito de uma menininha tão pequena. Ela se mexeu na cama, aproximando-se um pouco mais do meu toque. — A gente estava brigando... — ela começou, também sussurrando, olhando de relance para o irmão adormecido para ter certeza de que ele não acordaria. — É porque o Matteo queria colocar uma cobra de borracha no meio dos seus lençóis, senhorita Cecília. Para te dar um susto quando você fosse deitar. E eu não deixei. Fiquei segurando o braço dele para ele não fazer isso. A revelação me pegou de surpresa, mas não pude evitar que um sorriso genuíno surgisse em meus lábios. Aquilo era tão a cara do Matteo. Olhei para Merliah com carinho, achando a situação adorável. — Ah, é? — brinquei, baixinho. — Quer dizer então que a dona Merliah ficou boazinha de repente? Logo você, que semana passada me ajudou a procurar o "fantasma" que na verdade era um lençol que você tinha escondido no armário? Eu esperava uma risadinha dela, ou uma bochecha corada de travessura. Mas a reação de Merliah quebrou meu coração em mil pedaços. Seus olhinhos se encheram de lágrimas instantaneamente e os cantinhos de sua boca tremeram. — É que... eu não quero mais fazer brincadeiras ruins com você, Senhorita Cecília — ela disse, a voz embargada pelo choro contido. — Eu não quero que você fique brava. Eu não quero que você vá embora de verdade... igual a todas as outras babás. Elas eram chatas, você é legal. Um nó apertado se formou na minha garganta. O carinho nos cabelos dela parou por um segundo antes de se tornar ainda mais terno, mais protetor. Senti uma onda avassaladora de emoção atingir o meu peito. Olhando para aquela menininha tão vulnerável, compreendi a dor do abandono que os dois carregavam, camuflada atrás de travessuras e respostas atravessadas. As outras funcionárias viam apenas duas crianças insuportáveis e mimadas; eu via duas crianças carentes de afeto e estabilidade. Aproximei-me ainda mais, inclinando meu corpo para frente até que meu rosto estivesse bem perto do dela. — Ei... olha para mim — pedi, limpando com o polegar uma lágrima teimosa que escorreu pelo rosto dela. Merliah me encarou. — Você não precisa ter medo, está bem? Eu não vou a lugar nenhum. Eu vou ficar aqui pelo tempo que vocês precisarem de mim. O Matteo pode colocar quantas cobras de borracha ele quiser na minha cama, e você pode esconder quantos lençóis achar necessário. Eu não vou embora. Os olhos dela brilharam, dessa vez de alívio. Ela assentiu levemente com a cabeça, parecendo finalmente tirar um fardo enorme de suas pequenas costas. — Promete? — ela sussurrou, a voz já pesada pelo sono que finalmente a vencia. — Prometo com todo o meu coração — respondi. Inclinei-me um pouco mais e depositei um beijo terno e demorado em sua testa quentinha. Merliah fechou os olhos, soltando um último suspiro relaxado. Em poucos minutos, sua respiração se tornou compassada e profunda. Ela adormeceu. Permaneci ali, sentada na beirada daquela cama por um longo tempo, apenas observando o subir e descer ritmado do peito de Merliah, e ouvindo o ressonar baixinho de Matteo do outro lado do quarto. Minha mão continuava pousada nos cabelos da menina, em um movimento mecânico e suave. Ali, na penumbra daquele quarto, me peguei refletindo sobre como a minha vida havia mudado de forma tão drástica nos últimos meses. Quando aceitei aquele emprego, eu estava assustada. Todo mundo me alertava sobre os gêmeos terríveis, sobre como nenhuma babá durava mais de duas semanas naquela casa, sobre como a rotina seria um inferno. Nos primeiros dias, confesso que cheguei a cogitar a ideia de que eles estavam certos. Mas o tempo passou. E, por trás das armadilhas com tinta, farinhas, sapos, gritos e teimosias, eu acabei encontrando duas pequenas almas que só precisavam de alguém que não desistisse delas no primeiro sinal de dificuldade. Alguém que ficasse. Eu tinha entrado naquela casa para ser apenas uma funcionária, mas agora, olhando para os dois dormindo tão pacificamente, eu sabia que eles tinham se tornado parte de quem eu era. Eu não era mais apenas a babá. Eu era o porto seguro deles, e eles, sem saber, tinham se tornado o meu. Sorri sozinha na escuridão, levantei-me da cama com cuidado para não fazer nenhum ruído, dei uma última olhada nos meus dois monstrinhos e saí do quarto, fechando a porta com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, eu estaria ali disposta a enfrentar qualquer nova tempestade.






