Porto Seguro

O sol mal havia começado a apontar no horizonte, tingindo o céu de um tom suave de dourado e rosa, quando o despertador do meu celular vibrou na cabeceira.

Levantei-me sem pestanejar.

Aquele não era um domingo comum, era o terceiro domingo do mês, o que significava apenas uma coisa naquela casa: o dia de visitar os pais da falecida Sra. Larissa.

A atmosfera nesses dias costumava ser uma mistura peculiar de ansiedade e tristeza.

A mãe dos gêmeos havia partido há alguns anos, e a conexão com aquele lado da família era mantida quase que exclusivamente por essas visitas mensais.

Para as crianças, era um momento importante, mas que sempre desenterrava muitas emoções.

Para Marcello, o pai deles, era visivelmente um dia estressante.

Depois de um banho rápido para espantar o sono e de prender o cabelo em um rabo de cavalo prático, caminhei pelo corredor silencioso em direção ao quarto dos gêmeos.

Segurei a maçaneta com cuidado e empurrei a porta devagar.

O quarto ainda estava na penumbra, e os dois continuavam exatamente na mesma posição em que os deixei na noite anterior.

Aproximei-me primeiro da cama de Matteo.

Ele estava com a cara enfiada no travesseiro, os cabelos loiros totalmente desgrenhados.

— Bom dia, dorminhoco — sussurrei, sentando-me na beirada do colchão e passando a mão de leve em seus cabelos. — Vamos acordar? O sol já nasceu e hoje é dia de ver a vovó e o vovô.

Matteo resmungou algo incompreensível, puxando a coberta até as orelhas.

Sorri e fui até a cama de Merliah.

A pequena abriu os olhos quase imediatamente ao sentir o meu toque em seu braço. Ela piscou algumas vezes, se espreguiçando como um gatinho.

— Bom dia, senhorita Cecília... — a voz dela saiu rouca, mas com um traço de animação. — Já está na hora?

— Já sim, meu amor. E você tem uma missão muito importante hoje: ajudar a tirar esse bicho-preguiça da cama — brinquei, apontando para o irmão.

Merliah deu uma risadinha e não hesitou. Pulou da própria cama e se jogou em cima de Matteo, desatando a fazer cócegas nele. O quarto foi imediatamente invadido por uma mistura de protestos irritados e gargalhadas sinceras. Ver os dois interagindo daquela forma, sem a hostilidade da noite anterior, aqueceu o meu coração.

— Tá bom, tá bom! Eu acordo! Agora sai de cima de mim, Merliah! — Matteo berrou, finalmente se rendendo e sentando na cama com os olhos semicerrados pela claridade.

Dei as instruções para que fossem direto para o banheiro escovar os dentes enquanto eu separava as roupas.

Para Matteo, escolhi uma calça jeans confortável e uma camiseta polo azul que combinava com seus olhos.

Para Merliah, um vestido florido de tecido leve e uma sapatilha.

Eles já estavam em uma idade em que conseguiam se vestir sozinhos, mas ainda precisavam de uma supervisão firme para não colocarem as meias trocadas ou esquecerem de pentear o cabelo.

Cerca de quarenta minutos depois, descemos as escadas em fila indiana. O cheiro de café fresco e torradas já subia da cozinha, cortando o ar fresco da manhã.

— Quero panquecas! — Matteo anunciou, praticamente correndo os últimos degraus e entrando na sala de jantar.

— Matteo, não corre na escada! — repreendi, embora soubesse que era uma batalha perdida contra a energia dele.

Uma mesa farta, mas com um silêncio pesado esperava por nós na copa.

O Sr Moretti já estava sentado à cabeceira, vestindo uma camisa social escura com as mangas dobradas até o antebraço.

Ele digitava algo no celular, a expressão séria e imponente de sempre, com aquela ruga característica entre as sobrancelhas que denunciava sua eterna preocupação.

Quando os gêmeos entraram, o semblante dele pareceu suavizar por uma fração de segundo.

— Bom dia, crianças — disse Marcello, guardando o aparelho no bolso da calça. — Dormiram bem?

— Bom dia, papai! A senhorita Cecília leu uma história muito legal ontem — Merliah contou, puxando a cadeira para se sentar ao lado dele.

— Que bom, querida — ele respondeu, dando um sorriso contido, antes de desviar o olhar para mim. — Bom dia, senhorita Cecília.

— Bom dia, Sr. Moretti — respondi, mantendo a postura profissional enquanto ajudava Matteo a servir o suco de laranja para evitar desastres na toalha de mesa.

O café da manhã seguiu com o falatório habitual dos gêmeos, que pareciam ter esquecido completamente a briga da noite anterior.

Matteo tentava impressionar o pai contando sobre um gol que havia feito no jogo de futebol junto com os meninos da fazenda, enquanto Merliah planejava os desenhos que queria fazer junto com a avó.

Marcello ouvia tudo sem prestar muita atenção, assentindo e fazendo comentários quando perguntado, mas eu conseguia notar o seu distanciamento mental.

Havia uma névoa de desconforto que sempre o envolvia quando o assunto era a família da falecida esposa.

Assim que as crianças terminaram de comer e Merliah limpou a boca com o guardanapo, Marcello limpou a garganta, chamando a atenção de todos.

— Crianças, subam e peguem os casacos de vocês. O motorista já deve estar chegando e não quero atrasos.

Os dois obedeceram prontamente, deixando os pratos na mesa e correndo escada acima.

Quando o som dos passos deles se distanciou, Marcello se levantou da cadeira. Ele ajeitou a postura, cruzando os braços, e fixou aqueles olhos cortantes em mim.

— Cecília, por favor. Podemos conversar um minuto na biblioteca? Preciso passar algumas instruções para o dia de hoje.

— Sim, Sr. Moretti — respondi imediatamente, sentindo um frio familiar na espinha.

Apesar de eu já estar trabalhando ali há algum tempo e de ter conquistado a confiança das crianças, a presença de Marcello ainda me impunha um respeito quase intimidador.

Ele era um homem de poucas palavras, pragmático e extremamente exigente com a segurança e o bem-estar dos filhos.

O segui pelo corredor até a biblioteca, uma sala imensa revestida de madeira escura e cheia de livros que iam do chão ao teto. Ele caminhou até a grande mesa de mogno, virou-se para mim e apoiou as mãos na superfície de madeira, se inclinando levemente para a frente.

— Como você sabe, hoje é o dia de visitar os avós deles — ele começou, a voz baixa e firme. — Quero deixar claro que você irá acompanhá-los no carro, mas permanecerá na sala de visitas ou onde a Sra. Leonor achar mais adequado. É um momento familiar deles, mas exijo a sua presença na casa para garantir que a rotina deles não seja totalmente quebrada.

— Entendo perfeitamente, senhor — assenti, demonstrando total atenção.

— Outra coisa importante: a alimentação — ele continuou, estreitando os olhos. — A Sra. Leonor tem uma tendência a mimar demais os netos, especialmente com doces e chocolates fora de hora. O Matteo tem o estômago sensível e a Merliah fica extremamente agitada. Eu quero que você controle isso de forma discreta. Não crie atritos com a avó deles, mas garanta que eles almocem comida de verdade antes de qualquer sobremesa. Fui claro?

— Sim, Sr. Moretti. Vou observar de perto e garantir que o almoço venha primeiro, sem causar nenhum mal-estar com a Sra. Leonor.

Marcello suspirou, e por um breve momento, a armadura de chefe corporativo implacável pareceu ceder, revelando apenas um homem exausto e protetor. Ele desviou o olhar para a janela da biblioteca por alguns segundos antes de voltar a focar em mim.

— Esses dias são... difíceis para eles, Cecília. Eles voltam muito emotivos, às vezes agressivos, ou tristes demais. A lembrança da mãe fica muito viva quando estão lá. Quero que você tenha paciência redobrada no retorno. Se notar qualquer alteração drástica no comportamento deles, ou se eles chorarem, não hesite em me ligar.

Aquela recomendação me tocou profundamente. Mostrava que, por mais distante que Marcello pudesse parecer na maior parte do tempo, ele conhecia perfeitamente as feridas dos próprios filhos.

— Pode deixar, senhor. Vou cuidar deles com todo o carinho e atenção. Ontem à noite mesmo, a Merliah expressou um pouco de insegurança sobre o medo de ser abandonada... Eu garanti a ela que estou aqui para tudo o que precisarem e pelo tempo que precisarem de mim. Vou ficar de olho em qualquer sinal de tristeza hoje.

Marcello ergueu as sobrancelhas, claramente surpreso com a informação sobre a conversa da noite anterior. Ele me encarou em silêncio por longos segundos, como se estivesse me avaliando de uma maneira totalmente nova. Havia um brilho de reconhecimento e, ousaria dizer, de gratidão naqueles olhos severos.

— Obrigado por isso, Cecília — ele disse, a voz subindo um tom mais suave do que o normal. — Fico aliviado em saber que podemos contar com você.

— Eu me importo com eles, Sr. Marcello — respondi, com sinceridade estampada na voz.

Ele assentiu com a cabeça, retomando a postura profissional logo em seguida, embora o clima tenso tivesse se dissipado quase por completo.

— Certo. O motorista está esperando. Pode ir. Boa viagem para vocês.

— Obrigada, com licença.

Saí da biblioteca respirando um pouco mais aliviada. Caminhei de volta para o hall de entrada, onde Matteo e Merliah já desciam as escadas, cada um segurando seu respectivo casaco.

Olhei para os dois e senti uma onda de determinação.

O dia seria longo e emocionalmente desgastante para aquelas duas criaturinhas, mas, assim como prometido na noite anterior, eu seria o porto seguro deles em cada passo daquele caminho.

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