Uma ideia absurda

Marcello

— Você quer que eu me case? — as palavras saíram da minha boca como se fossem veneno.

Eu encarei Gustavo, certo de que ele tinha perdido completamente o juízo. Dei uma risada seca, sem qualquer humor, e bati com a mão na mesa de mogno.

— Isso é um absurdo, Gustavo! Você ficou louco? Eu não vou me dobrar a esse teatro, não vou me sujeitar a uma humilhação dessas só para agradar a um juiz ou para calar a boca dos Gallardini. Casar de novo está fora de cogitação.

Gustavo não se abalou com a minha explosão.

Ele continuou calmo, com os dedos cruzados sobre os joelhos, mantendo aquele olhar profissional de quem estava frio diante da minha tempestade.

— Marcello, se acalme e me escute — ele disse, a voz baixa e ponderada. — Essa pode ser a única maneira de você manter a guarda dos seus filhos. O argumento central do Dr. Fontes é que a sua casa é um ambiente instável, sem uma figura feminina e materna, onde as babás entram e saem como se fosse uma porta giratória. Se você se apresentar diante do juiz como um homem casado, com uma esposa dedicada a estruturar aquele lar, o castelo de cartas dos Gallardini desmorona antes mesmo do julgamento começar. É uma jogada de mestre no xadrez jurídico.

Virei as costas para ele, caminhando até a janela da biblioteca.

Olhei para o horizonte da fazenda, onde os campos de videiras se estendiam.

Meu peito subia e descia com força. A ideia de colocar outra mulher no lugar que um dia foi de Larissa fazia meu estômago revirar, mas a menção de perder o Matteo e a Merliah fez um frio cortante congelar a minha espinha.

Eu faria qualquer coisa por eles.

Qualquer coisa.

Respirei fundo, engolindo o meu orgulho a contragosto. Virei-me devagar e apoiei as mãos na mesa, inclinando-me na direção de Gustavo.

— Digamos que eu aceitasse essa loucura... Onde você acha que eu arrumaria uma esposa de uma hora para outra? Uma mulher que os gêmeos aceitassem e que não fizessem ir embora chorando em menos de uma semana? Você leu os depoimentos das vinte babás, Gustavo. Meus filhos não facilitam para ninguém.

Gustavo deu um meio sorriso, aquele tipo de sorriso que me dava a certeza de que ele já tinha arquitetado o plano inteiro antes mesmo de entrar na minha casa.

— Você não precisa procurar longe, Marcello. Você tem a candidata ideal morando ali mesmo, no andar de cima da sua fazenda.

O entendimento me atingiu como um raio. Meus olhos se estreitaram e o meu sangue gelou.

— Não. De jeito nenhum — declarei, a voz subindo um tom. — Você está falando da Cecília? Isso é ainda mais absurdo! Eu não posso fazer isso. Eu não vou me casar com a Cecília de forma alguma! Ela é a babá dos meus filhos, Gustavo! É uma funcionária!

— Meu amigo, pare para pensar por um minuto — Gustavo levantou-se da poltrona, adiantando-se até a mesa para falar mais perto. — Pense de forma puramente estratégica. Ela é uma menina órfã, não tem família, não tem amarras e, teoricamente, não tem nada a perder. Os gêmeos gostam dela, e ela visivelmente gosta deles. Além de tudo, convenhamos, a garota é linda. Não seria nenhum sacrifício terrível para você assinar um papel com ela.

— Eu não vou usar a garota, Gustavo. Isso é imoral.

— E quem disse que você vai usar? — ele rebateu, gesticulando com as mãos. — Você não precisa abordar isso como se estivesse pedindo um favor ou uma caridade. Faça um contrato formal. Ofereça algo que uma jovem na posição dela queira: estabilidade financeira, uma quantia substancial, uma garantia para o futuro dela depois que tudo isso acabar. Estabeleça um prazo. Um ano, talvez dois. Assim que eu conseguir a guarda definitiva dos gêmeos na justiça e o processo for arquivado, vocês se divorciam. Uma transação limpa, de negócios.

— Eu não posso aceitar... — balancei a cabeça, passando a mão pelo rosto, tentando afastar a lembrança incômoda do perfume de jasmim e da forma como ela ficava vulnerável e forte ao mesmo tempo. — Eu jamais faria isso com ela. É errado.

— Talvez você não tenha outra oportunidade, Marcello. Talvez não tenha outra chance de salvar a sua família — Gustavo insistiu, o tom voltando a ser grave e urgente. — A Cecília é a candidata perfeita porque todos nesta fazenda gostam dela. O Donato, os funcionários da vila, todo mundo se dá muito bem com ela. E é nítido para qualquer um que entra nesta casa que o Matteo e a Merliah a amam. Ela é a única que conseguiu desarmar os dois. Se você trouxer uma mulher estranha para cá, os gêmeos vão transformá-la num alvo. Com a Cecília, a transição para o juiz parecerá a coisa mais natural e genuína do mundo.

Aquelas palavras ecoaram na biblioteca vazia, pesadas como chumbo. Eu estava encurralado.

Olhei para a pasta de couro preta com os depoimentos que poderiam destruir a minha vida com os meus filhos. A lógica fria de Gustavo estava certa, e isso era o que mais me irritava.

— E por que... — comecei, a voz saindo baixa, quase um sussurro arrastado pela garganta seca. — Por que você acha que a Cecília aceitaria uma loucura dessas? Ela tem vinte e um anos, Gustavo. Tem a vida toda pela frente. Por que ela se amarraria a um homem como eu e a um contrato de casamento de fachada?

Gustavo recolheu seus papéis, guardando-os de volta na pasta com a calma de quem tinha cumprido a sua missão de plantar a semente da discórdia. Ele caminhou até a porta da biblioteca, parou com a mão na maçaneta e olhou para mim por cima do ombro.

— Isso, meu amigo... só a Cecília vai poder te responder. A bola está no seu campo. Pense nos seus filhos.

Eu ainda encarava a maçaneta da porta, sentindo o peso das palavras de Gustavo esmagar qualquer resquício de racionalidade que me sobrava.

Ele já estava com o corpo metade para fora da biblioteca quando uma dúvida — um temor genuíno que não tinha nada a ver com leis ou estratégias judiciais — travou a minha garganta.

— Gustavo, espere — chamei, a voz saindo mais grave e ríspida do que eu pretendia.

Ele parou imediatamente, soltando a maçaneta e virando-se para mim com as sobrancelhas erguidas, esperando o meu último protesto.

— Supondo que eu faça essa loucura... e supondo que ela aceite — apoiei as duas mãos na mesa, inclinando meu corpo para a frente, fixando meus olhos nos dele. — E se ela se apaixonar? Cecília é uma jovem de vinte e um anos, romântica, que cresceu em um orfanato sonhando com uma família. Se ela confundir esse acordo com a realidade, o que eu faço? E se eu tiver que magoá-la no final desse contrato? Eu não sou um monstro, Gustavo. Não quero destruir a vida de uma garota inocente.

Gustavo me encarou em silêncio por alguns segundos.

A expressão provocativa que ele exibia antes desapareceu por completo, dando lugar a um olhar profundo, quase penalizado. Ele soltou um suspiro curto, ajeitou a pasta de couro sob o braço e deu um passo de volta para dentro da sala.

— Acho que o seu maior problema, meu amigo... — ele disse, a voz mansa, mas que ecoou como um trovão na biblioteca — é se não vai ser você quem vai sair com o coração partido no final de tudo isso.

O comentário me desarmou.

Senti minhas feições se enrijecerem instantaneamente, a negação subindo fervendo pelo meu peito, mas antes que eu pudesse mandá-lo calar a boca, Gustavo continuou, retomando o tom prático.

— De qualquer forma, eu vou estar por aqui pela fazenda para o final de semana. Vim para ficar para a festa da roça no sábado, então temos tempo. Aliás, aquela festa seria uma grande oportunidade para você apresentar a Cecília como sua noiva. Todos os funcionários estarão lá, o clima é propício e a transição pareceria perfeitamente natural para qualquer um que quisesse investigar depois.

Ele deu dois tapinhas leves na madeira da porta, exibindo um último sorriso de canto.

— Pensa nisso, Marcello. E se você quiser um advogado para conversar com a Cecília e redigir os termos desse contrato sem que você precise se expor de cara... sabe onde me encontrar.

Ele finalmente se virou, cruzou o portal e saiu, fechando a porta da biblioteca atrás de si com um clique suave.

Fiquei estático no centro do cômodo, o silêncio voltando a me sufocar.

As palavras dele martelavam na minha mente como um aviso perigoso. Um absurdo completo.

Eu era um homem incapaz de sentir aquilo de novo.

O tempo estava se esgotando, e a decisão mais difícil da minha vida estava a apenas alguns passos de distância, no andar de cima daquela casa.

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