Uma Saída Desesperada

Marcello

O sol da manhã castigava a terra seca da fazenda, levantando uma poeira fina conforme eu caminhava pelas ruelas da vila dos funcionários.

Aquele setor da propriedade funcionava como uma pequena comunidade independente, e o coração dali era, sem dúvida, a produção vinícola.

Aproximei-me dos galpões de armazenamento, onde os barris de carvalho descansavam, e encontrei o homem que eu procurava.

— Buongiorno, Donato — cumprimentei, ajustando a aba do meu chapéu para proteger os olhos da claridade.

Donato Bellini virou-se para mim com um sorriso largo, as mãos calejadas limpando-se em um pano de prato. Ele era um dos funcionários mais antigos da fazenda, um italiano rústico que vieram morar e trabalhar na fazenda ainda jovem e que cuidava das nossas videiras como se fossem suas próprias filhas. Se havia alguém ali que conhecia cada palmo daquela terra e a alma daquela gente, era ele.

— Señor Marcello! — Donato exclamou, com seu sotaque carregado que o tempo não conseguira apagar. — Que honra tê-lo por aqui tão cedo. Estava justamente revisando os últimos detalhes para o nosso sábado.

— É exatamente sobre isso que vim falar, Donato. Como estão os preparativos para a festa da roça? Falta apenas dois dias e quero garantir que tudo saia perfeito. A vila inteira espera por isso.

— Ah, não se preocupe, chefe. Está tudo sob controle. O palco para os músicos já está montado perto do casarão antigo, as barracas de comida típica estão sendo erguidas e o vinho da última colheita já foi separado. Vai ser uma festa linda, como nos velhos tempos. Os pequenos, vão se esbaldar.

Assenti, sentindo uma leve trégua na tensão que vinha acumulando desde o último domingo.

Eu queria aquela festa. Queria que meus filhos corressem pelo gramado, rissem e esquecessem, mesmo que por algumas horas, a sombra que os Gallardini tentavam lançar sobre as nossas vidas.

Nossa conversa foi abruptamente interrompida pelo som ritmado de cascos contra o chão batido.

Olhei para o lado e vi um dos funcionários mais jovens da fazenda aproximando-se a cavalo em ritmo acelerado. Ele puxou as rédeas, fazendo o animal parar perto de nós, a respiração arfante.

— Sr. Marcello! Desculpe interromper — o rapaz disse, tirando o chapéu em sinal de respeito. — Mas o Sr. Gustavo acabou de chegar na casa principal. Ele disse que é urgente e que está esperando o senhor no escritório da biblioteca.

A notícia me atingiu como um soco no estômago.

Senti meus músculos se contraírem instantaneamente. Fazia exatamente uma semana desde a nossa última conversa por telefone, aquela em que ele havia prometido colocar um investigador atrás do passado de Cecília e dar andamento à nossa defesa contra a notificação dos Gallardini.

Gustavo havia ficado de me retornar por ligação. Para ele ter pegado o carro e dirigido até a fazenda sem avisar... algo muito grave ele havia descoberto.

— Obrigado, rapaz — respondi, a voz já recuperando a frieza habitual. Olhei para o velho italiano. — Preciso ir, Donato. Nos falamos mais tarde.

— Vá com Deus, Sr. Marcello. Boa sorte — Donato desejou, o semblante também se tornando sério ao notar a mudança no meu humor.

Caminhei a passos largos até a minha caminhonete, bati a porta e dei a partida, fazendo os pneus cantarem na estrada de terra em direção à casa principal.

Minha mente trabalhava em alta velocidade, traçando cenários possíveis, todos eles pessimistas.

Quando estacionei em frente ao casarão, nem me preocupei em tirar o chapéu direito.

Entrei na casa como um rastro de tempestade e fui direto para a biblioteca. Empurrei a porta de madeira escura e encontrei Gustavo sentado em uma das poltronas de couro diante da minha escrivaninha, segurando uma xícara de café fumegante.

Ele parecia cansado, a gravata ligeiramente afrouxada e uma pasta de couro preta pousada sobre os seus joelhos.

— Gustavo — cumprimentei com um aceno seco, contornando a mesa de mogno e me sentando na minha cadeira de chefe. — Dispense as formalidades. O que aconteceu para você vir até aqui pessoalmente?

Gustavo colocou a xícara de café sobre a mesa com cuidado. Ele me encarou com uma seriedade que poucas vezes vi em seu rosto ao longo dos nossos anos de amizade e parceria profissional.

— As notícias não são boas, Marcello — ele começou, a voz baixa e ponderada. Ele abriu a pasta de couro e retirou um calhamaço de papéis timbrados. — Eu usei alguns contatos no fórum e tive acesso antecipado às informações de acusação que o Dr. Fontes e os Gallardini estão montando para protocolar a ação de guarda formal. Eles não estão brincando.

— O que eles têm contra mim? Eu sou o pai, dou tudo o que meus filhos precisam! — esbravejei, batendo a mão espalmada contra a mesa.

— Eles estão construindo uma narrativa de que você não tem controle psicológico ou emocional sobre as crianças, Marcello. E, infelizmente, eles têm munição pesada para provar isso — Gustavo deslizou os papéis na minha direção. — Eles conseguiram anexar ao processo os depoimentos formais de mais de vinte babás que passaram por esta fazenda nos últimos anos.

Olhei para os papéis, sentindo uma queimação de puro ódio no peito.

— Vinte babás? Aquelas incompetentes que não aguentavam duas semanas de travessuras de duas crianças de sete anos?

— Para a justiça, Marcello, o argumento delas é devastador — Gustavo explicou, apontando para o documento. — Em quase todos esses depoimentos, a ausência de uma figura materna é citada como o principal motivo para o comportamento rebelde e destrutivo dos gêmeos.

Elas relatam que a casa é um ambiente hostil, isolado e que as crianças descontam a falta de uma mãe em qualquer funcionária que tente impor limites. O Dr. Fontes vai argumentar que você trabalha demais, negligencia a educação emocional deles e que a estrutura da fazenda é prejudicial.

— Isso é um absurdo! — levantei-me da cadeira, andando de um lado para o outro na biblioteca, a fúria pulsando nas minhas têmporas. — Isso significa que eu vou perder a guarda dos meus filhos para aqueles velhos manipuladores?

— Não necessariamente perder de imediato — Gustavo tentou me acalmar, embora seu tom continuasse sombrio. — Você ainda é o pai biológico e o provedor financeiro. Mas os Gallardini conseguiram uma vantagem processual imensa com isso. O juiz certamente vai conceder uma liminar de visitas estendidas ou, na pior das hipóteses, uma guarda compartilhada temporária onde eles passariam metade do mês na capital, longe de você. E nós sabemos que, uma vez que eles coloquem as mãos no Matteo e na Merliah, vão fazer de tudo para alienar as crianças contra você.

Parei de andar, fixando meus olhos em Gustavo.

Minhas mãos estavam fechadas em punhos. Eu me sentia encurralado por leis e termos técnicos, algo que eu detestava.

— O que eu posso fazer para evitar essa situação, Gustavo? Tem que haver uma saída. Eu compro aquele escritório de advocacia se for preciso, mas ninguém tira os meus filhos de mim!

Gustavo suspirou, recostando-se na poltrona.

Ele cruzou os dedos sobre o colo e me olhou com uma expressão enigmática, como se estivesse prestes a sugerir um pacto com o diabo.

— Na verdade... eu pensei em uma saída jurídica imediata. Uma forma de desarmar completamente o principal argumento do Dr. Fontes antes mesmo de o juiz ler a petição deles.

— Então fale de uma vez! — ordenei, impaciente.

— O argumento central deles é a ausência de uma figura materna estável e o histórico de demissões de babás, certo? Se nós provarmos que a casa agora tem essa figura, que as crianças se adaptaram e que há uma estrutura familiar sólida, o caso deles desmorona — Gustavo fez uma pausa dramática, medindo as palavras. — Mas eu conheço você, Marcello. E sei que você provavelmente vai odiar a minha ideia.

Estreitei os olhos, sentindo que o chão sob os meus pés estava prestes a sumir novamente.

— Diga logo, Gustavo. O que você propõe?

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