Mundo ficciónIniciar sesiónCecília
O sol da tarde trazia uma brisa morna que balançava as folhas das laranjeiras no pomar. Matteo e Merliah corriam ao redor de um canteiro, tentando equilibrar uma bola de gude em colheres de sopa, uma brincadeira que eu havia ensinado para tentar canalizar aquela energia sem fim. Eu estava sentada no banco de madeira, rindo do foco quase cirúrgico de Matteo, quando passos suaves quebraram o som das risadas das crianças. Olhei para o lado e vi Dona Clarice, aproximando-se com seu habitual sorriso impecável e uma expressão curiosa no rosto. — Cecília, querida — ela chamou, parando a poucos passos de mim. — Meu filho está na biblioteca e pediu para que você vá até lá agora. Ele quer conversar com você. Senti meu estômago dar uma leve reviravolta. Toda vez que Marcello me chamava para uma conversa naquele escritório, meu subconsciente entrava em alerta. Será que fiz alguma coisa de errado essa manhã? — Tudo bem, Dona Clarice. Obrigada — respondi, levantando-me e limpando as mãos na calça jeans. Virei-me para as crianças. — Matteo, Merliah, vou precisar entrar um minutinho. Continuem com a colher, e nada de correr com isso na boca, entenderam? — Tá bom, Cecília! Vê se não demora! — Matteo gritou, quase deixando a gude cair. Caminhei em direção ao casarão principal, cruzando o hall com o coração batendo um pouco mais rápido. Parei diante da imensa porta de madeira escura da biblioteca e bati de leve duas vezes. — Entre — a voz profunda de Marcello ecoou. Empurrei a porta e, assim que dei o primeiro passo para dentro do cômodo, meus olhos se arregalaram levemente. Marcello não estava sozinho. Sentado em uma das poltronas de couro estava o homem que eu soube mais tarde ser o advogado e amigo dele, o mesmo que havia chegado de surpresa ontem na fazenda. Estranhei profundamente aquele cenário. Por que o advogado da família estaria em uma reunião comigo?, pensei, sentindo um frio na espinha. Marcello estava atrás de sua escrivaninha. Ele parecia sério, mas havia um brilho diferente em seu olhar, algo que não consegui decifrar de imediato. — Sente-se, por favor, Cecília — ele pediu, indicando a cadeira estofada diante dele. — Este é o Gustavo, meu advogado e grande amigo. — Muito prazer, Sr. Gustavo — cumprimentei, forçando um sorriso educado enquanto me acomodava na ponta da cadeira, segurando minhas próprias mãos no colo para disfarçar o nervosismo. Olhei diretamente para Marcello. — O que está acontecendo, Sr. Moretti? Eu... eu vou ser demitida? Gustavo soltou um sorriso aberto, quase divertido, e balançou a cabeça de forma reconfortante. — Não, Cecília. Fique tranquila, é justamente o contrário — o advogado interveio, com um tom de voz bastante amigável que ajudou a aliviar um pouco do peso no meu peito. Olhei para Marcello, esperando que ele assumisse a palavra, mas ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, apenas me encarando. Gustavo, percebendo o transe do amigo e o meu início de constrangimento, pigarreou alto, quebrando o silêncio magnético do ambiente. Marcello piscou, balançando levemente a cabeça para recuperar a postura rígida e profissional de sempre. Ele ajeitou os papéis sobre a mesa e limpou a garganta. — Bem... Cecília, eu a chamei aqui porque tenho uma proposta para lhe fazer — Marcello começou, a voz firme, embora seus olhos ainda guardassem aquele brilho intenso. — Mas, antes de entrarmos nos detalhes, eu preciso saber quais são as suas reais expectativas quanto ao seu emprego de babá aqui na fazenda. Onde você planeja estar no futuro? Fiquei sem entender o rumo daquela pergunta. Olhei para ele, confusa, mas resolvi ser sincera sobre as minhas origens e os meus anseios. — Bom... como eu já havia dito ao senhor quando fui contratada, eu saí do orfanato com um encaminhamento direto para o convento das freiras — expliquei, gesticulando levemente. — Mas eu sempre senti no meu coração que precisava e podia fazer mais da minha vida do que ficar presa em um único lugar para sempre. Por isso, quando vi o anúncio da vaga colado no mural da lanchonete da rodoviária, senti que precisava arriscar. E quando cheguei na fazenda... bom, foi bem diferente de tudo o que eu pudesse ter imaginado na vida. Deixei escapar um riso espontâneo, lembrando-me do meu início caótico naquela casa. — Para falar a verdade, eu pensei em desistir algumas vezes. Principalmente na vez do sapo... e do balde de farinha em cima da porta — completei, rindo abertamente da memória. Gustavo imediatamente interrompeu, inclinando-se para a frente na poltrona, os olhos brilhando de divertimento. — Espere um pouco... você disse um sapo? Ele estava dentro do balde de farinha? — ele perguntou, rindo. — Não, não! — respondi, rindo junto com o advogado, esquecendo por um segundo o meu nervosismo. — Foram travessuras totalmente diferentes! O sapo foi no terceiro dia. E a farinha... bem, mesmo depois de quase dois meses, eu ainda encontro vestígios de farinha em alguns cantos do meu quarto. Eles são terríveis quando querem. Gustavo soltou uma gargalhada alta, genuinamente admirado com a audácia dos pequenos. — Céus, a criatividade desses dois não tem limites — o advogado comentou, balançando a cabeça. Enquanto nós dois ríamos, olhei de relance para Marcello. Ele não estava rindo. Pelo contrário, seu semblante havia se fechado drasticamente. Marcello bateu de leve com a caneta no topo da mesa, cortando a nossa graça. — Podemos voltar ao foco da conversa, por favor? — ele perguntou, o tom de voz gélido e autoritário, fazendo Gustavo pigarrear e se calar imediatamente. Marcello voltou a fixar aqueles olhos severos em mim. — Continue, Cecília. Suas expectativas. Engoli em seco, recuperando a seriedade. — O que eu quero dizer, Sr. Moretti, é que... apesar de ter pensado em ir embora no começo, hoje isso não é algo que passa pela minha cabeça. Nem de longe. Eu me apeguei de verdade ao Matteo e à Merliah, e todo mundo na fazenda me trata muito bem. Eu me sinto em casa aqui. Mas... eu não quero ser babá para sempre. Eu tenho o sonho de estudar, de ter uma profissão de verdade algum dia. Só que, sendo órfã e sem recursos, eu sei que preciso dar um passo de cada vez. Marcello ouviu minhas palavras em silêncio absoluto, absorvendo cada detalhe da minha resposta. Ele trocou um olhar rápido e significativo com Gustavo, um olhar que me deu a certeza de que a tal "proposta" que eles tinham para mim mudaria completamente tudo o que eu achava que sabia sobre o meu futuro.






