Histórias para Dormir

Cecília

Eu já tinha terminado de ajudar Nonna a organizar a cozinha quando olhei para o relógio preso na parede e percebi que os gêmeos provavelmente já estariam prontos para dormir.

A conversa que eu tivera com Marcello naquela tarde ainda permanecia rondando meus pensamentos como uma nuvem incômoda, mas eu me recusava a permitir que aquilo estragasse completamente o meu dia. Durante os anos que vivi no orfanato, aprendi que algumas situações simplesmente não podiam ser mudadas, e gastar energia tentando lutar contra elas apenas tornava tudo mais difícil. Eu não tinha gostado do que ele disse. Na verdade, se fosse completamente sincera comigo mesma, admitiria que suas palavras haviam me machucado mais do que eu gostaria. Ainda assim, aquele era o emprego dele para oferecer e o meu para cumprir. Eu precisava ser madura o suficiente para entender isso.

Respirei fundo, ajeitei os cabelos atrás da orelha e subi as escadas em direção ao quarto das crianças.

Quando bati levemente na porta e a abri, encontrei os dois exatamente como imaginei.

Matteo e Merliah já estavam de pijama, deitados em suas camas, com os cabelos ainda úmidos do banho e os rostos iluminados pela luz suave do abajur que ficava entre as duas camas.

Os dois ergueram a cabeça imediatamente quando me viram.

— Cecília! — Merliah exclamou.

— Você demorou — reclamou Matteo.

Sorri.

— Que recepção calorosa.

Encostei a porta atrás de mim e caminhei até eles.

— Já escovaram os dentes?

— Sim — responderam os dois ao mesmo tempo.

— Posso conferir?

— Não! — respondeu Matteo.

— Então vou acreditar em vocês.

Merliah abriu espaço na própria cama.

— Você pode sentar aqui.

Olhei para ela por um instante.

— Tem certeza?

— Claro.

Sentei-me cuidadosamente ao lado dela enquanto Matteo observava tudo com atenção.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.

O silêncio era estranho para crianças que normalmente tinham mil perguntas e opiniões sobre qualquer assunto.

Foi Matteo quem acabou quebrando o silêncio.

— Por que você não jantou com a gente?

Eu já esperava aquela pergunta.

Talvez não tão cedo, mas esperava.

— Eu jantei.

— Não com a gente.

Olhei para ele.

— Não.

— Foi porque o papai proibiu?

A pergunta veio direta.

Sem rodeios.

Exatamente como costumam ser as perguntas feitas por crianças.

Por um instante, pensei na resposta mais fácil.

Pensei em dizer a verdade.

Pensei em admitir que a decisão havia partido dele.

Mas imediatamente descartei a ideia.

Os dois não precisavam ser colocados no meio de um problema que não lhes dizia respeito.

Sorri suavemente.

— Não.

Matteo continuou me observando.

Claramente desconfiado.

— Tem certeza?

— Tenho.

Merliah puxou o cobertor até o queixo.

— Então ele brigou com você?

— Não.

— Nem um pouquinho?

— Nem um pouquinho.

A menina pareceu aliviada.

— Ah.

Passei a mão em seus cabelos.

— O seu pai apenas estava conversando comigo sobre o meu trabalho.

— Conversando sobre o quê?

— Sobre minhas funções como babá.

Os dois permaneceram atentos.

— E o que isso significa? — perguntou Matteo.

Sorri.

— Significa que ele estava me lembrando das minhas responsabilidades.

— E isso fez você comer na cozinha?

— Um pouco.

Eles trocaram olhares.

Eu sabia exatamente o que estavam pensando.

Por isso resolvi continuar antes que chegassem às próprias conclusões.

— Honestamente, não foi um problema para mim.

— Não?

Balancei a cabeça.

— De onde eu vim, eu também costumava fazer as refeições na cozinha muitas vezes.

Os dois me encararam.

— No orfanato? — perguntou Merliah.

— No orfanato.

— Você gostava de lá?

A pergunta me pegou de surpresa.

Pensei por alguns segundos antes de responder.

— Eu gostava das pessoas.

Ela assentiu como se entendesse perfeitamente.

Talvez entendesse.

— Então você não ficou triste?

Olhei para os dois.

Para aqueles olhos azuis tão parecidos.

Para aquelas expressões preocupadas que tentavam desesperadamente fingir que não estavam preocupadas.

E uma vontade enorme de sorrir surgiu dentro de mim.

— Escutem uma coisa.

Os dois aguardaram.

— Do jeito que vocês estão falando, até parece que estão gostando da minha companhia.

Matteo imediatamente cruzou os braços.

— Não estamos.

— Claro que não — concordou Merliah depressa demais.

— Ah, entendi.

— Você é só nossa babá.

— Claro.

— E você faz algumas brincadeiras legais.

— Algumas?

— Poucas.

— Muito poucas — acrescentou Merliah.

— Entendi.

Precisava fazer um esforço enorme para não rir.

— Então ninguém sentiria minha falta.

— Não foi isso que eu disse — resmungou Matteo.

— Nem eu — completou Merliah.

Sorri.

Porque aquela era provavelmente a declaração de carinho mais próxima que eu conseguiria arrancar daqueles dois naquele momento.

Foi então que Merliah apontou para a pequena estante ao lado da cama.

— Você pode ler uma história para a gente?

Olhei para ela.

Depois para Matteo.

— Posso, mas apenas se os dois concordarem.

Matteo fingiu pensar profundamente.

Como se estivesse analisando uma decisão extremamente importante.

— Pode ser.

— Nossa, que honra.

— Não se acostume.

— Vou tentar.

Merliah correu para escolher um livro e voltou segundos depois segurando um volume ilustrado quase do tamanho dela.

Abri o livro e comecei a ler.

Aos poucos, o quarto foi ficando mais silencioso.

As perguntas diminuíram.

Os comentários desapareceram.

As interrupções se tornaram cada vez mais raras.

Quando cheguei à metade da história, percebi que Merliah já estava dormindo.

Sua respiração tranquila preenchia o ambiente.

Matteo resistiu um pouco mais.

Como se estivesse determinado a provar que era mais forte que o sono.

Mas não demorou muito para que seus olhos também começassem a fechar.

Continuei lendo por mais alguns minutos.

Apenas o suficiente para garantir que ambos estivessem completamente adormecidos.

Então fechei o livro com cuidado.

Ajeitei os cobertores.

Afastei uma mecha de cabelo do rosto de Merliah.

Apaguei a luz principal.

E permaneci alguns segundos observando os dois.

Dormindo, eles pareciam muito menores.

Muito mais vulneráveis.

Muito menos assustadores do que gostavam de aparentar.

Sorri sozinha.

Depois saí do quarto silenciosamente e fechei a porta atrás de mim.

O corredor estava vazio.

A casa inteira parecia mais tranquila.

Desci as escadas devagar e segui para a cozinha.

Tudo o que eu queria naquele momento era um copo de leite quente e alguns minutos de silêncio antes de dormir.

Mas, por algum motivo, enquanto colocava a panela sobre o fogão, a pergunta que Matteo havia feito continuava ecoando na minha cabeça.

Foi porque o papai proibiu?

Mexi o leite lentamente enquanto observava a superfície branca começar a aquecer.

Então sorri para mim mesma.

Porque, apesar de tudo o que tinha acontecido naquele dia, uma coisa era impossível negar.

Pela primeira vez desde que cheguei àquela fazenda, eu tinha a estranha sensação de que não estava mais completamente sozinha.

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