Mundo ficciónIniciar sesiónCecília
O cheiro de maresia sempre encontrava uma forma de atravessar os muros do Orfanato Santa Maria degli Angeli. Misturado à fumaça densa das zonas industriais que cercavam a periferia de Livorno, ele se espalhava pelos corredores de pedra e pelos pátios internos como uma lembrança constante de que existia um mundo além daqueles portões de ferro. Durante quinze anos, aquele aroma salgado foi a única prova concreta de que a vida continuava acontecendo do lado de fora, distante da rotina cuidadosamente organizada que moldava cada um dos meus dias. Naquela manhã, porém, tudo parecia diferente. Parei diante do espelho antigo preso à parede do dormitório e permaneci imóvel por alguns instantes, observando meu reflexo como se estivesse diante de uma estranha. O vidro estava manchado pelo tempo, marcado por pequenas rachaduras nos cantos, mas ainda refletia com clareza a jovem que me encarava do outro lado. Passei os dedos pela barra simples do vestido e tentei enxergar algo além dos cabelos claros presos em uma trança e dos olhos verdes que pareciam carregados de dúvidas. Eu havia completado vinte e um anos há poucas semanas. Durante a infância, aquela idade parecia distante e grandiosa. Crescer significava liberdade. Significava independência. Significava ter respostas para todas as perguntas que me atormentavam nas noites silenciosas do orfanato. Agora que finalmente havia chegado até ela, descobria uma verdade bem menos reconfortante: crescer não significava encontrar respostas. Significava aprender a conviver com perguntas cada vez mais difíceis. Atrás de mim, o dormitório permanecia silencioso. Algumas camas estavam vazias, ocupadas apenas pelas lembranças das meninas que haviam passado por ali antes de seguirem seus próprios caminhos. Outras pertenciam às crianças mais novas, que ainda dormiam sem imaginar que aquele seria meu último dia entre aquelas paredes. Deixei meu olhar percorrer cada detalhe do ambiente. As colchas dobradas com perfeição, as janelas estreitas, o crucifixo acima da porta. Durante anos, aquele lugar foi tudo o que eu conhecia. Meu lar. Meu abrigo. Minha prisão. Respirei fundo antes de atravessar o corredor em direção ao gabinete da Madre Superiora. A porta estava entreaberta quando cheguei. Bati levemente e ouvi sua voz autorizando minha entrada. A sala tinha o mesmo aspecto de sempre: móveis antigos, estantes repletas de livros religiosos e o suave aroma de incenso impregnado nas cortinas. Sentada atrás da grande mesa de madeira escura, a madre ergueu os olhos dos documentos que analisava e me recebeu com um sorriso sereno. — Sente-se, minha filha. Obedeci em silêncio. Sobre a mesa repousavam algumas folhas cuidadosamente organizadas. Meu olhar foi imediatamente atraído pelo documento posicionado à frente dos demais. A madre percebeu. — As irmãs do convento de Florença já foram informadas da sua chegada. Estão muito felizes em recebê-la. Assenti, embora a ideia não despertasse em mim o mesmo entusiasmo. Desde criança, todos pareciam acreditar que aquele seria meu destino natural. Eu havia crescido cercada por mulheres que dedicaram suas vidas à fé, à disciplina e ao serviço. Muitas vezes tentei imaginar a mim mesma seguindo o mesmo caminho, mas sempre que fechava os olhos, algo dentro de mim resistia. Era uma inquietação difícil de explicar. Uma sensação de que existia mais. Mais do que aqueles muros. Mais do que uma vida planejada por outras pessoas. Mais do que um destino escolhido antes mesmo que eu tivesse idade para opinar. A madre deslizou o documento em minha direção. — Basta assinar aqui. Segurei a caneta. Por alguns segundos, permaneci observando a linha destinada ao meu nome. Parecia algo simples. Apenas uma assinatura. Mas eu sabia que era muito mais do que isso. Aquele pequeno gesto encerraria uma etapa inteira da minha vida e definiria a próxima. Engoli em seco. Então assinei. O som da caneta deslizando pelo papel pareceu estranhamente alto dentro da sala silenciosa. Quando terminei, devolvi o documento. A expressão da madre suavizou-se. — Que Deus a acompanhe nessa nova jornada. Forcei um sorriso. Mas, pela primeira vez, não tive certeza de que estava seguindo o caminho que Ele havia escolhido para mim. As despedidas consumiram boa parte da manhã. As freiras me abraçaram nos corredores, desejando bênçãos e felicidade. Algumas haviam participado da minha criação desde que eu era uma menina assustada de seis anos, recém-chegada após a morte da minha mãe. Eu conhecia cada uma delas pelo nome, conhecia suas histórias, seus hábitos e até os sons dos seus passos pelos corredores. Era impossível partir sem sentir que estava deixando para trás uma parte de mim. A despedida mais difícil, porém, veio na forma de um pequeno furacão chamado Pietro. Assim que me viu carregando a mala, ele correu pelo corredor até se jogar contra minhas pernas. — Você vai embora mesmo? A tristeza em sua voz apertou meu coração. Ajoelhei-me diante dele e afastei uma mecha escura que havia caído sobre sua testa. — Vou, pequeno. — E quem vai me contar histórias antes de dormir? Sorri, apesar do nó que se formava na minha garganta. — As irmãs podem contar. Ele fez uma careta imediatamente. — Não contam igual. Uma risada escapou antes que eu pudesse impedir. Então o abracei com força. Por alguns segundos permaneci ali, tentando memorizar aquele momento, porque sabia que sentiria falta dele. Quando finalmente nos afastamos, seus olhos estavam marejados. Os meus também. Pouco depois, cheguei aos portões principais. O velho porteiro abriu as grades de ferro e me lançou um olhar que misturava orgulho e compaixão. — Boa sorte, menina Cecília. — Obrigada. — Que os anjos acompanhem seus passos. Assenti e atravessei os portões. O som metálico se fechando atrás de mim ecoou pela rua. Instintivamente, virei o rosto. Os muros permaneciam lá, imponentes e familiares. Durante anos eles haviam sido minha proteção contra o mundo. Agora, pela primeira vez, eu precisava descobrir quem era sem eles. O vento vindo do porto bagunçou meus cabelos e trouxe consigo o cheiro salgado do mar. À minha frente, Livorno seguia seu ritmo habitual. Pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas. Comerciantes organizavam suas barracas. Carros passavam em um fluxo constante. Ninguém sabia quem eu era. Ninguém estava me esperando. A liberdade tinha um peso que eu nunca havia imaginado. Caminhei sem destino por quase uma hora. Minhas pernas começaram a doer antes que eu encontrasse uma pequena lanchonete de esquina e decidisse entrar. O aroma de café recém-passado e pão quente envolveu-me imediatamente, oferecendo um conforto inesperado. Depois de comprar uma focaccia e uma garrafa de água, sentei-me próxima ao balcão e comecei a contar mentalmente o dinheiro que a Madre Superiora havia me entregado para a viagem até o convento. Não era muito. Mas era tudo o que eu possuía. Foi então que meus olhos encontraram um anúncio preso na parede. A folha branca parecia deslocada entre propagandas antigas e avisos locais. Talvez por isso tenha chamado minha atenção. Ou talvez fosse destino. Li o título. PROCURA-SE BABÁ. Continuei lendo. A vaga oferecia moradia, alimentação e um salário tão alto que precisei verificar duas vezes para ter certeza de que não havia entendido errado. A candidata deveria se mudar imediatamente para uma propriedade rural no interior da Toscana e cuidar dos filhos gêmeos de um fazendeiro viúvo. Meu coração acelerou. No final do anúncio havia um detalhe que me fez prender a respiração. As entrevistas estavam acontecendo naquele mesmo dia. Na Fazenda Agricola Moretti. Olhei novamente para o papel. Depois para o envelope de dinheiro sobre a mesa. Depois para a rua além da janela. Durante toda a minha vida, outras pessoas tomaram decisões por mim. As freiras decidiram onde eu moraria. O orfanato decidiu como eu seria criada. Agora o convento decidiria o restante do meu futuro. Mas aquela vaga... Aquela vaga era uma escolha. Minha escolha. Levantei-me tão rápido que quase derrubei a cadeira. Guardei o dinheiro, peguei a mala e saí da lanchonete. Do lado de fora, encontrei um feirante organizando caixas de frutas. — Com licença, o senhor sabe onde fica a propriedade dos Moretti? Ele apontou para o final da avenida. — Está vendo aquele ônibus azul parado no terminal? Assenti. — É deles. Se correr, ainda consegue embarcar. Não precisei ouvir mais nada. Agradeci e atravessei a rua praticamente correndo. A mala parecia mais pesada a cada passo, mas a adrenalina empurrava meu corpo para frente. Consegui alcançar o ônibus segundos antes das portas se fecharem. Subi ofegante. Encontrei um assento próximo à janela e tentei recuperar o fôlego enquanto o motorista colocava o veículo em movimento. A cidade começou a desaparecer lentamente atrás do vidro. Observei os prédios se afastarem, os telhados diminuírem e as ruas familiares ficarem para trás. Talvez eu estivesse cometendo o maior erro da minha vida. Talvez estivesse correndo diretamente para ele. Mas, pela primeira vez desde que conseguia me lembrar, ninguém havia decidido por mim. A escolha era inteiramente minha. E, enquanto o ônibus seguia em direção ao desconhecido, percebi que aquilo me assustava tanto quanto me fazia sentir viva.






