Mundo de ficçãoIniciar sessão
Marcello
A trigésima nona babá pediu demissão numa terça-feira. A essa altura, eu já deveria estar acostumado. Mesmo assim, observei a mulher atravessar o pátio principal da propriedade arrastando duas malas enormes e reclamando tão alto que provavelmente metade dos funcionários da vinícola conseguia ouvi-la. Permaneci parado na varanda da casa principal, segurando uma xícara de café que já estava fria havia mais de uma hora. — Senhor Moretti, eu não vou ficar nem mais um dia nesta casa. — O contrato prevê aviso prévio. Ela soltou uma gargalhada sem humor. — Então desconte do meu salário. — Posso aumentar seu salário. — Não. — Dobrar. — Não. — Triplicar. A mulher parou no meio do caminho e se virou para mim. Pela expressão dela, eu teria mais sorte negociando com um banco. — O senhor está me ouvindo? — Estou. — Dinheiro nenhum no mundo vale o que eu passei aqui. Suspirei. Aquilo estava ficando repetitivo. Todas elas diziam a mesma coisa. Todas. Sem exceção. — Eles são crianças. — Crianças? Ela abriu uma das malas e puxou um sapato feminino. Apenas um. — Encontrei o outro dentro do galinheiro. Fechei os olhos por um segundo. — Entendo. — Não, o senhor não entende. Ela puxou uma cobra de borracha da bolsa. — Isso apareceu na minha cama. Depois tirou uma fotografia. — E alguém desenhou bigodes em todas as fotos da minha família. Passei a mão pelo rosto. Eu nem precisava perguntar quem tinha feito aquilo. Sabia exatamente quem eram os culpados. Uma gargalhada ecoou acima das nossas cabeças. Ergui os olhos. Matteo e Merliah estavam sentados sobre o telhado da garagem. Os dois tinham os mesmos cabelos loiros, os mesmos olhos azuis e exatamente a mesma expressão de inocência. A expressão era uma mentira. Eu sabia. Porque eram meus filhos. — Vocês dois. Os gêmeos sorriram ao mesmo tempo. Aquilo nunca era um bom sinal. — Sim, papai? — Querem me explicar o que aconteceu? — Não sabemos. — Não fazemos ideia. — Claro que não. A babá apontou para eles como se estivesse mostrando provas de um crime. — Está vendo? — Estou. — Eles fazem isso o tempo todo! — Fazer o quê? — Parecer anjinhos! Merliah colocou a mão no peito. — Eu estou ofendida. Matteo concordou com a cabeça. — Muito ofendido. A mulher soltou um som de puro desespero. Cinco minutos depois, ela entrou no carro e foi embora. Eu a observei desaparecer pela estrada principal sem sentir nada além de irritação. Mais uma entrevista. Mais uma contratação. Mais um problema para resolver. A porta da casa se abriu atrás de mim. Nem precisei me virar para saber que era minha mãe. — Outra foi embora? — Como pode perceber. — O que vocês fizeram desta vez? — ela perguntou para os netos. — Nada! — responderam os dois em uníssono. — Mentira! — gritou a babá pela janela do carro antes de desaparecer na estrada. Os dois começaram a rir. Minha mãe tentou esconder um sorriso. Meu pai surgiu logo atrás dela carregando uma xícara de café. — Admito que essa durou mais do que eu esperava. — Duas semanas. — Um novo recorde. Revirei os olhos. — Vocês dois não ajudam. — Nós ajudamos muito mais do que você — respondeu minha mãe. Ignorei o comentário. Porque já sabia onde aquela conversa iria parar. Sempre parava no mesmo lugar. Os gêmeos. Minha falta de jeito com eles. Minha ausência. Minha incapacidade de demonstrar sentimentos. Francamente, eu estava cansado de ouvir sobre isso. Amava meus filhos. Não precisava repetir aquilo para ninguém. Trabalhava todos os dias para garantir que eles tivessem tudo. A melhor casa. As melhores escolas. A melhor vida possível. Se aquilo não era amor, então eu não sabia o que era. — A nova candidata chega amanhã — anunciou minha mãe. Soltei uma risada seca. — Já contrataram outra? — Ainda não. — Então por que está falando como se fosse certo? — Porque ela vem. Balancei a cabeça. — Não vai durar uma semana. — Talvez seja diferente. — Não é. — Você nem a conhece. Olhei para Matteo e Merliah, que naquele exato momento cochichavam alguma coisa enquanto apontavam para um dos tratores da propriedade. Aquilo nunca terminava bem. Então voltei minha atenção para os vinhedos que se estendiam até onde a vista alcançava. O sol começava a desaparecer atrás das colinas da Toscana. A propriedade inteira parecia tranquila. Bonita. Perfeita. Uma mentira completa. — Ninguém fica — murmurei. Minha mãe não respondeu. Mas eu sabia que ela tinha ouvido. Porque aquela frase nunca foi sobre as babás. E, até aquele momento, eu realmente acreditava nela.






