Mundo ficciónIniciar sesiónCecília
A viagem pareceu durar uma eternidade. Depois que o ônibus deixou Livorno para trás, a paisagem começou a mudar pouco a pouco. Os prédios cinzentos deram lugar a colinas cobertas de vegetação, estradas estreitas e campos que se estendiam até onde meus olhos conseguiam alcançar. Eu permaneci grande parte do trajeto observando pela janela, tentando ignorar a ansiedade que crescia dentro de mim a cada quilômetro percorrido. Em alguns momentos, quase pedi ao motorista para parar. Não porque tivesse mudado de ideia, mas porque começava a perceber a dimensão da loucura que havia cometido. Eu havia abandonado o único lugar que conhecia para atravessar parte da Toscana atrás de um anúncio pregado na parede de uma lanchonete. Quando pensava dessa forma, parecia absurdo. Mas já era tarde demais para voltar atrás. A propriedade Moretti surgiu no horizonte pouco depois do meio-dia. Meu primeiro pensamento foi que aquilo não podia ser apenas uma fazenda. Era grande demais. Muito grande. Os vinhedos cobriam colinas inteiras em fileiras perfeitamente organizadas. Mais adiante, consegui avistar enormes galpões de produção, tratores, caminhões e diversas construções espalhadas pela propriedade. O ônibus atravessou um portão de ferro ornamentado e continuou avançando por uma estrada interna cercada por ciprestes. Poucos minutos depois, fez sua primeira parada. Alguns trabalhadores começaram a descer. Curiosa, observei pela janela. Pequenas casas de pedra estavam distribuídas ao redor de uma praça simples, onde algumas crianças brincavam enquanto mulheres conversavam próximas aos jardins. Parecia uma pequena vila. O motorista percebeu meu interesse. — Vila dos funcionários — explicou. — Muitas famílias moram aqui há gerações. Assenti, impressionada. Aquilo sozinho já era maior do que o bairro inteiro onde eu havia crescido. Quando o ônibus voltou a se movimentar, restaram apenas eu e mais dois passageiros. A estrada continuou subindo por alguns minutos até que finalmente a vi. A casa principal. Meu coração quase parou. A construção parecia saída de um filme. Feita em pedra clara, com varandas amplas e janelas enormes, a residência dominava uma pequena colina cercada por jardins impecáveis. Era tão diferente de tudo que eu conhecia que me senti ridícula ao olhar para minha mala gasta. O motorista estacionou diante da entrada principal. Então se virou para mim. — E você, ragazza? Vai ficar onde? — Tenho uma entrevista para a vaga de babá. Por um instante, algo parecido com pena passou pelo rosto dele. — Na casa principal? — Sim. Ele coçou a nuca. — Entendi. Estranhamente, seu tom não parecia animador. Levantei-me do banco. — Obrigada pela carona. — Não precisa agradecer. Quando coloquei a mala no primeiro degrau, ouvi sua voz novamente. — Boa sorte. Franzi a testa. — Obrigada... Só fui entender que aquela não era uma simples gentileza alguns minutos depois. A porta principal estava entreaberta quando subi os degraus da varanda. Segurei a alça da mala com mais força e bati duas vezes. Nenhuma resposta. Bati novamente. — Pode entrar! — alguém gritou de dentro. Empurrei a porta devagar. — Com licença... Mal dei o primeiro passo e senti algo prender meu tornozelo. Um fio. Ou uma corda. Nem tive tempo de reagir. Ouvi um estalo acima da minha cabeça. Depois um grito infantil. E, no segundo seguinte, uma quantidade absurda de água misturada com lama despencou diretamente sobre mim. Soltei um grito de surpresa. Meu pé escorregou. Perdi completamente o equilíbrio. A última coisa que vi antes de cair foi a figura de um homem entrando pela porta lateral da casa. Então nos chocamos. Caímos juntos. Meu corpo aterrissou sobre algo extremamente sólido. Ou melhor. Sobre alguém. Por alguns segundos permaneci imóvel, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Quando finalmente ergui a cabeça, encontrei um par de olhos escuros me encarando. Muito de perto. Perto demais. Meu coração disparou. O homem parecia ter saído da capa de uma revista. Cabelos escuros. Maxilar forte. Olhos quase negros. E uma expressão nada amigável. — Quem diabos é você? A voz grave me arrancou do transe. — Eu... Olhei para minhas roupas cobertas de lama. Depois para ele. Ele também estava coberto. Ótimo. Simplesmente ótimo. — Eu sinto muito. — Quem é você? — repetiu. — Cecília. Levantei-me rapidamente. Ou tentei. Acabei escorregando de novo. O homem segurou meu braço antes que eu caísse pela segunda vez. Atrás de nós, duas gargalhadas ecoaram pelo corredor. Viramos ao mesmo tempo. Dois rostinhos idênticos surgiram no topo da escadaria. Os culpados nem tentavam esconder. — Matteo. — Merliah. A voz do homem ficou perigosamente calma. — Aqui. Agora. As crianças pararam de rir imediatamente. — Papai... — Agora. Foi então que entendi. Pai. Meu Deus. Aqueles eram os filhos. Os filhos que eu deveria entrevistar para cuidar. E aquele homem... Só podia ser Marcello Moretti. O dono de tudo aquilo. Os gêmeos desceram os degraus devagar. Pela primeira vez pareciam nervosos. — Vocês fizeram isso? Silêncio. — Eu perguntei se vocês fizeram isso. — Foi só uma brincadeira — murmurou o menino. — Nós não sabíamos que ela ia cair — completou a menina. Marcello passou a mão pelo rosto. Parecia estar lutando para não perder a paciência. — Peçam desculpas. Os dois me encararam. Claramente contrariados. — Desculpa. — Desculpa. Eu ainda estava tentando processar tudo. A viagem. A casa. A armadilha. A queda. O homem absurdamente bonito me encarando como se eu fosse mais um problema para resolver. E, pela primeira vez desde que deixei o orfanato, um pensamento realmente assustador passou pela minha cabeça. Talvez eu tivesse cometido um erro enorme vindo até ali. Como se lesse meus pensamentos, Marcello voltou a olhar para mim. Algo parecido com preocupação atravessou sua expressão. — Senhorita... — Cecília. — Isso não costuma acontecer. Assenti. As duas crianças atrás dele fizeram exatamente a mesma cara de quem sabia que aquilo era mentira. — Certo... — Meus filhos são boas crianças. Dessa vez precisei morder o interior da bochecha para não rir. Porque nem eles acreditaram nisso. Marcello percebeu. E suspirou profundamente. — Vou pedir para alguém ajudá-la a se limpar e mostrar um quarto para descansar antes da entrevista. Olhei para minha roupa coberta de lama. Depois para minha mala. Depois para os dois pequenos sabotadores. Eu não tinha dinheiro. Não tinha casa. Não tinha para onde voltar. Talvez aquela propriedade fosse um desastre. Mas era o único desastre que eu tinha. — Certo — respondi. Marcello assentiu. Então segurou cada um dos gêmeos por uma mão. — Vocês dois vêm comigo. — Mas pai... — Agora. Enquanto ele os conduzia escada acima sob uma chuva de reclamações indignadas, fiquei parada no enorme hall de entrada, cercada por móveis elegantes, roupas enlameadas e escolhas duvidosas. E, pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas, tive a estranha sensação de que minha vida acabara de mudar completamente.






