Sustos e Sapos

Cecília

A primeira coisa que senti ao despertar naquela manhã foi algo frio encostando no meu braço.

Ainda sonolenta, franzi a testa e me virei na cama, acreditando que fosse apenas uma dobra do lençol ou talvez o travesseiro fora do lugar. Porém, quando abri os olhos e finalmente enxerguei o que estava sobre mim, precisei usar toda a força de vontade que possuía para não soltar um grito que provavelmente acordaria a fazenda inteira.

Um sapo.

Um sapo enorme.

Verde.

Muito vivo.

E muito confortável sobre a minha barriga.

Fechei os olhos por um segundo.

Respirei fundo.

Depois mais uma vez.

Lentamente, ouvi risadinhas abafadas do outro lado da porta.

Claro.

Os gêmeos.

Quem mais seria?

Aparentemente, aquela era a forma deles de dizer bom dia.

Continuei imóvel por alguns segundos, observando o animal como se ele pudesse desaparecer sozinho por obra divina.

Não desapareceu.

Ao contrário, pareceu bastante satisfeito com sua nova residência.

Suspirei.

— Certo... você também é uma vítima nessa história.

Levantei-me devagar para não assustá-lo e procurei um pano sobre a cômoda. Com cuidado, envolvi o pequeno invasor e o segurei junto ao corpo.

As risadinhas atrás da porta aumentaram.

Eu conseguia praticamente visualizar Matteo e Merliah esperando um escândalo.

Uma gritaria.

Talvez lágrimas.

Quem sabe até uma demissão.

Que pena para eles.

Abri a porta tão repentinamente que os dois quase caíram para trás.

Matteo arregalou os olhos.

Merliah piscou várias vezes.

Os dois olharam para mim.

Depois para o sapo.

Depois voltaram a olhar para mim.

— Bom dia — falei educadamente.

Passei por eles como se carregar um anfíbio pelos corredores fosse a coisa mais normal do mundo.

Atrás de mim, ouvi um cochicho indignado.

Sorri sozinha.

Atravessar a casa naquela situação foi uma experiência curiosa.

Alguns funcionários me cumprimentavam normalmente. Outros olhavam para o sapo e depois para mim com expressões confusas.

Felizmente ninguém fez perguntas.

Quando cheguei ao jardim, caminhei até uma área próxima aos arbustos e me abaixei.

— Pode voltar para sua vida normal.

Afastei o pano.

O sapo saltou imediatamente para a grama.

— Foi um prazer conhecê-lo.

— Manhã difícil?

A voz masculina surgiu atrás de mim.

Virei-me.

Marcello acabava de descer de um cavalo castanho enorme e elegante. Enquanto prendia as rédeas próximo à cerca, seus olhos escuros já estavam fixos em mim.

Ou melhor.

No sapo.

— Depende do ponto de vista — respondi.

Ele aproximou-se.

— Deixe-me adivinhar.

— Acho que consegue.

Seu olhar desviou para a direção da casa.

— Matteo e Merliah?

— Temos um vencedor.

Uma sombra divertida apareceu em seus olhos.

A primeira que eu via naquela manhã.

Quando me levantei, porém, percebi algo que até então havia passado despercebido.

Eu ainda estava usando apenas a camisola.

Não era exatamente indecente.

O tecido chegava abaixo dos joelhos e cobria tudo o que precisava cobrir.

Mas ainda era uma roupa íntima.

E eu estava parada diante de um homem absurdamente bonito usando apenas aquilo.

O calor subiu imediatamente para minhas bochechas.

— Eu...

Limpei a garganta.

— Acho melhor eu subir.

Marcello não respondeu imediatamente.

Seu olhar demorou um segundo além do necessário.

Talvez dois.

— Provavelmente é uma boa ideia.

Assenti rapidamente.

— Tenha um bom dia.

— Você também, senhorita Cecília.

Subi as escadas quase correndo.

E só quando fechei a porta do quarto atrás de mim percebi que meu coração estava acelerado de um jeito completamente ridículo.

---

Depois de tomar banho, me vestir e recuperar um pouco da dignidade, desci para a cozinha.

O aroma de café fresco e pão assando preenchia o ambiente.

Uma senhora baixinha e simpática movimentava-se entre panelas e bancadas com a confiança de quem comandava aquele território há décadas.

— Bom dia Nonna — cumprimentei.

Ela sorriu.

— Bom dia menina Cecília.

— Os pestinhas já tomaram café e estão la em cima.

– Já tive o prazer da visita deles hoje.

Durante os minutos seguintes, conversamos enquanto ela organizava os preparativos das refeições do dia.

Foi então que uma ideia começou a tomar forma na minha cabeça.

— Nonna?

— Sim?

— O que teremos no jantar?

— Peixe.

Meu sorriso aumentou.

— Que coincidência.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Coincidência?

— A senhora poderia me fazer um favor?

— Depende.

Aproximei-me.

— Será que poderia guardar um peixe inteiro e cru para mim?

A cozinheira parou o que estava fazendo.

— Um peixe cru?

— Inteiro.

Ela me observou durante alguns segundos.

— Posso perguntar por quê?

— Pode.

— E vai responder?

— Não.

A gargalhada dela ecoou pela cozinha.

— Está bem, menina misteriosa. Vou guardar.

---

O restante da manhã transcorreu sem incidentes.

Ou pelo menos sem incidentes graves.

Após o almoço, convidei os gêmeos para caminharem até o lago da propriedade.

Eles me olharam como se eu tivesse enlouquecido.

— Por quê? — Matteo perguntou.

— Porque está um dia bonito.

— Isso não responde.

— Porque eu quero conhecer a propriedade.

— Ainda não responde.

— Porque estou mandando.

Os dois pareceram ofendidos.

Mas acabaram aceitando.

Durante horas caminhamos pelas trilhas da fazenda.

Passamos pelos vinhedos.

Pelos campos.

Pelos pastos.

E finalmente chegamos ao lago.

Enquanto eles corriam pela margem, jogavam pedras na água e discutiam sobre quem conseguia fazer mais círculos na superfície, permaneci observando.

Crianças felizes.

Crianças barulhentas.

Crianças que faziam de tudo para esconder o quanto precisavam de atenção.

Quando o céu começou a ganhar tons dourados, bati as mãos para chamar atenção deles.

— Hora de voltar.

— Ainda não — protestou Matteo.

— Concordo — disse Merliah.

— Eu não perguntei.

Os dois cruzaram os braços.

— Não queremos ir.

Assenti.

— Tudo bem.

Eles pareceram surpresos.

— Tudo bem?

— Claro.

Levantei-me.

— Eu estou cansada. Estou com fome. Então vou embora.

Matteo abriu um sorriso debochado.

— Você não pode ir sem a gente.

— Posso.

— Não pode.

— Posso sim.

— A gente não vai.

— Então fiquem.

Comecei a caminhar.

— Aproveitem os peixes.

— O quê?

Olhei por cima do ombro.

— Espero que vocês lembrem do caminho de volta.

Continuei andando.

Sem pressa.

Sem correr.

Sem olhar para trás novamente.

O silêncio durou poucos segundos.

— Cecília!

Reconheci a voz de Merliah.

— Eu vou com você!

— Merliah! — Matteo protestou.

— Nós não sabemos o caminho!

— Sabemos sim!

— Não sabemos!

— Não podemos ceder!

— Eu estou com fome!

Sorri discretamente.

Sem me virar.

— Bebezona! — ouvi Matteo reclamar.

Poucos segundos depois, passos apressados se aproximaram.

Merliah surgiu ao meu lado primeiro, ainda emburrada, mas claramente aliviada por não ter sido abandonada à própria sorte.

Logo atrás dela veio Matteo.

Carrancudo.

Irritado.

E tão inconformado que parecia estar mastigando a própria raiva.

Continuei caminhando sem comentar nada, como se aquela tivesse sido a decisão deles desde o início.

Por alguns minutos, seguimos em silêncio pela trilha que levava de volta à casa principal. O som dos grilos começava a preencher o entardecer e o céu assumia tons alaranjados sobre os vinhedos.

Foi Matteo quem quebrou o silêncio.

— Você fez isso de propósito.

Olhei para ele.

— Fiz o quê?

— Isso.

— Isso o quê?

Ele estreitou os olhos.

— Você sabe.

Precisei conter um sorriso.

— Não faço ideia do que está falando.

— Faz sim.

Merliah suspirou dramaticamente.

— Eu disse que ela estava fazendo alguma coisa.

— E eu disse que não estava — rebateu ele.

— Então por que você veio atrás dela?

— Porque você veio!

— Mentira.

— Não é mentira.

Balancei a cabeça enquanto os dois voltavam a discutir.

E foi naquele momento, observando-os trocar acusações completamente sem sentido enquanto caminhavam ao meu lado, que percebi algo curioso.

Eles não eram difíceis porque eram maus.

Não eram cruéis.

Nem mal-educados.

Muito menos impossíveis.

Eram apenas crianças.

Crianças inteligentes, teimosas e criativas que haviam descoberto, muito cedo, que afastar as pessoas era mais fácil do que correr o risco de gostar delas.

Talvez eu estivesse errada.

Talvez dentro de algumas semanas eu estivesse fazendo as malas e voltando para Livorno como todas as outras babás.

Mas, enquanto observava Matteo reclamar porque a irmã andava rápido demais e Merliah reclamar porque ele andava devagar demais, tive a estranha sensação de que aquele desafio seria muito mais interessante do que eu havia imaginado.

E, pela primeira vez desde que cheguei à propriedade Moretti, não me senti uma intrusa.

Senti que talvez estivesse exatamente onde deveria estar.

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