Thorne: O Fantasma na Máquina

Thorne: O Fantasma na Máquina PT

Sci-Fi
Última atualização: 2026-01-13
Raii  Atualizado agora
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​"Para destruir o sistema, ela teve que se tornar parte dele. Para salvá-lo, ele teve que deixar de existir" Clarice Valente tinha tudo: um legado, um amor e um futuro. Em uma noite de traição brutal, ela foi deixada para morrer em um iate em chamas nas águas do Rio de Janeiro. Mas o fogo não a consumiu; ele a forjou. ​Sob a tutela de Arthur, um homem de segredos profundos, e Marcus, o hacker mais procurado do planeta, Clarice morre para que Claire Thorne possa nascer. Com um novo rosto e uma mente implacável, ela inicia uma caçada que começa por vingança pessoal, mas revela uma conspiração global que ameaça a própria liberdade da humanidade. ​Da selva amazônica aos centros de poder em Brasília, Claire enfrenta a Nova Gênese e a inteligência artificial Perséfone — uma criatura digital feita à sua imagem e semelhança. Ao seu lado, Marcus opera nas sombras, lutando contra o seu próprio passado no MIT e sacrificando sua identidade para garantir que a "Mão de Gelo" de Claire nunca falhe. ​Neste thriller de alta voltagem onde a tecnologia é tanto arma quanto prisão, a verdade é a única moeda que resta. Quando todos estão sendo vigiados, a única forma de vencer é ser invisível. Uma saga épica sobre poder, redenção e o preço da liberdade na era da vigilância total. Autora: R. L. Serpa Gênero: Thriller Político / Ficção Tecnológica

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Capítulo 1

Capítulo 1: O Peso da Intensidade

A luz da manhã em Santa Teresa não era meramente um fenômeno físico para Clarice; era uma sinfonia silenciosa que ela regia com os olhos. Ela costumava acordar antes do despertador, não por obrigação, mas pelo desejo quase infantil de testemunhar o exato momento em que o sol beijava as colinas do Rio de Janeiro, transformando o cinza do asfalto em um dourado vibrante. Para ela, a vida não acontecia na superfície; cada respiração era carregada de um significado que a maioria das pessoas ao seu redor preferia ignorar ou rotular como um "exagero sentimental".

Clarice possuía uma beleza que desafiava as regras passageiras das revistas de moda. Seus cabelos castanhos, da cor da terra fértil após a chuva de verão, caíam em ondas pesadas e naturais até a cintura, emoldurando um rosto de traços clássicos que pareciam ter sido esculpidos em mármore por um mestre antigo. No entanto, eram seus olhos que realmente perturbavam o silêncio de quem a via: grandes e de um castanho-dourado profundo, eles tinham a clareza de um lago transparente, parecendo enxergar as verdades que a elite carioca preferia manter sob sete chaves.

Naquela manhã, ela escolheu um vestido de algodão cru, simples e fluido, que se movia com a leveza de sua alma. Ela não precisava de camadas de maquiagem para simular vida; sua pele tinha o viço natural de quem ainda se encantava com o orvalho nas flores. Ao descer para a sala de jantar, porém, a harmonia de sua manhã foi quebrada pelo tilintar metálico dos talheres contra a porcelana. O ar ali era denso, saturado pelo cheiro de café forte e pela amargura de seus pais, que já a esperavam com o rigor habitual de quem analisa um investimento que não está rendendo o esperado.

Sua mãe, Dona Helena, nem sequer ergueu os olhos do jornal ao ouvir os passos da filha. Com um tom ríspido, criticou a escolha do traje antes mesmo do primeiro "bom dia".

— Você parece uma camponesa com esse vestido, Clarice — disparou Helena, sem qualquer preâmbulo. — Onde está a elegância que tentamos incutir em você? Vitor virá aqui hoje e você se apresenta dessa forma... transparente. Homens como ele gostam de mistério e sofisticação, não de alguém que parece um livro aberto.

— Eu estou apenas sendo eu mesma, mamãe — Clarice respondeu com a voz suave, embora sentisse a pontada familiar no peito. — Vitor diz que ama minha naturalidade.

— Vitor diz o que é educado dizer! — retrucou o pai, Sr. Valente, batendo a colher de prata na xícara com uma precisão irritante. — Mas a verdade é que ele precisa de uma mulher que o ajude a subir, não de uma menina que chora por poemas. Seus sentimentos são um custo operacional que não podemos mais arcar, Clarice. Lembre-se que nossa posição depende deste noivado.

A tensão foi interrompida pela chegada de Beatriz, que entrou na mansão sem ser anunciada, trazendo consigo um perfume doce e invasivo. Beatriz era a sombra que Clarice insistia em chamar de amiga. Ela não possuía a beleza intrínseca de Clarice; seus traços eram comuns e dependiam de uma arquitetura complexa de contornos e iluminadores para ganhar alguma graça. Mas o que lhe faltava em genética, sobrava em estratégia: ela usava o corpo como uma arma, sempre envolta em roupas provocantes que gritavam por atenção.

— Bom dia, família! — Beatriz exclamou, indo direto beijar o rosto do Sr. Valente, um gesto que ele aceitou com um sorriso que raramente dava à própria filha. — Clarice, querida, você ainda está com esse visual "natureba"? Ah, me desculpe... eu sempre esqueço que você se recusa a evoluir.

— É apenas um vestido de manhã, Bia. O que traz você aqui tão cedo? — Clarice tentou manter o tom amigável, ignorando o desdém da outra.

— Vitor me ligou — Beatriz disse, sentando-se à mesa com uma familiaridade predatória. — Ele estava estressado com a reunião de ontem e eu sugeri que ele passasse aqui para darmos um passeio. Ele precisa de leveza, sabe? Coisas práticas, sem dramas existenciais.

O coração de Clarice deu um salto doloroso. Vitor não a ligara naquela noite; ele dissera que estaria ocupado demais com os contratos da holding. Por que ele ligaria para Beatriz para falar de estresse e não para a mulher que ele dizia amar profundamente? A dúvida era uma semente venenosa, e Beatriz sabia exatamente como regá-la com seu sorriso calculado.

Quando Vitor Albuquerque finalmente cruzou a porta, a sala pareceu ficar pequena. Ele era o "Herói de Vidro" — impecável, com seu terno cinza sob medida e o maxilar esculpido que o tornava o sonho de qualquer colunista social. Ele cumprimentou os pais de Clarice com a confiança de um rei, mas quando seus olhos encontraram Clarice, seu beijo na bochecha foi casto, quase burocrático.

— Oi, Clarice — ele disse, a voz desprovida de emoção. — Você está... bem.

— Só "bem", Vitor? — Beatriz interveio, levantando-se e caminhando até ele com um requinte calculado. — Eu disse a ela que esse look camponesa é fofo, mas talvez não para o nível de um Albuquerque, não é?

Vitor soltou uma risada seca, que soou como um chicote nos ouvidos de Clarice. — Beatriz tem um olho clínico para a estética, Clarice. Você sabe que eu gosto de brilho. Enfim, vim avisar que o jantar de hoje foi cancelado. Vou levar a Bia para revisar alguns termos de marketing, ela tem ideias muito mais... estimulantes e práticas.

— Mas Vitor, nós tínhamos planejado aquele jantar há semanas — Clarice argumentou, a voz trêmula pela intensidade da mágoa. — Eu até preparei o álbum de fotos da nossa última viagem, você disse que queria recordar...

— Fotos, Clarice? — Vitor a interrompeu com um suspiro de tédio. — Eu vivo para o futuro. Esse seu apego a "momentos" é exaustivo. Beatriz me oferece progresso, você me oferece nostalgia de coisas que ninguém mais se importa.

Dona Helena apressou-se em concordar, sorrindo para o genro enquanto lançava um olhar de nojo para a própria filha. — Ela é tão boba, Vitor! Não ligue para isso. Vá com a Beatriz, ela certamente será uma companhia melhor para um homem da sua importância agora. Clarice ficará aqui refletindo sobre como deixar de ser tão cansativa e aprender a se portar como uma mulher de negócios.

Clarice olhou para os quatro — seus pais, seu noivo e sua amiga. Ela era a mulher mais bela naquela sala, mas ali, cercada por predadores, suas virtudes eram vistas como moedas sem valor. Beatriz lançou-lhe um olhar de triunfo por cima do ombro de Vitor, um olhar que dizia: eu posso não ter o seu rosto, mas eu tenho o controle do seu mundo.

— Vamos, Vitor? — Beatriz chamou, tocando o braço dele com as unhas vermelhas e postiças. — Temos muito o que "discutir" a sós.

Vitor saiu sem olhar para trás. Clarice ficou parada no centro da sala, enquanto seus pais voltavam a comer como se nada tivesse acontecido. A indiferença deles era o golpe final. Ela subiu para o quarto e trancou a porta, sentindo o peso daquela casa onde o amor era visto como uma falha de caráter.

"Eu amo demais", ela pensou, olhando-se no espelho enquanto as lágrimas finalmente transbordavam. "Eles me odeiam por isso, porque eles não amam nada". Suas mãos tocaram o vidro frio, e ela viu ali uma mulher que estava sendo lentamente apagada por pessoas que não suportavam seu brilho natural. Mal sabia ela que a intensidade que eles tanto desprezavam seria a única coisa capaz de mantê-la viva nos meses de escuridão que viriam.

Pela tarde, o isolamento de Clarice foi quebrado por uma mensagem de Beatriz no celular: "Vitor e eu vamos viajar para o iate no fim de semana. Seus pais vêm conosco. Vitor disse que você pode vir, se prometer não causar cenas sentimentais. Tente ser normal por uma vez, Clari."

Clarice sentiu um calafrio que não vinha do vento que soprava da janela. O iate. O mar. Ela sempre amou o oceano pela sua profundidade, mas agora, o pensamento da imensidão azul parecia um presságio de morte. Ela aceitaria o convite. Ela aceitaria porque seu amor profundo ainda sussurrava, tolamente, que ela poderia salvar Vitor da superficialidade de Beatriz.

Ela fechou o celular e começou a arrumar a mala, sem saber que estava empacotando os últimos vestígios de sua inocência. No quarto ao lado, seus pais brindavam com um vinho caro, celebrando uma fusão de empresas que dependia do sacrifício silencioso da própria filha. O palco para o naufrágio estava montado, e as águas, implacáveis, já aguardavam por sua primeira vítima.

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Capítulo 1: O Peso da Intensidade
Capítulo 2: O Azul que Tudo Esconde
Capítulo 3: O Batismo de Fogo e Sal
Capítulo 4: O Silêncio das Almas Médias
Capítulo 5: O Despertar no Inferno
Capítulo 6: A Morte de Clarice Valente
Capítulo 7: O Forjar do Aço
Capítulo 8: O Retorno da Fênix
Capítulo 9: O Relógio da Consciência
Capítulo 10: O Leilão das Almas
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