Mundo de ficçãoIniciar sessão"Para destruir o sistema, ela teve que se tornar parte dele. Para salvá-lo, ele teve que deixar de existir" Clarice Valente tinha tudo: um legado, um amor e um futuro. Em uma noite de traição brutal, ela foi deixada para morrer em um iate em chamas nas águas do Rio de Janeiro. Mas o fogo não a consumiu; ele a forjou. Sob a tutela de Arthur, um homem de segredos profundos, e Marcus, o hacker mais procurado do planeta, Clarice morre para que Claire Thorne possa nascer. Com um novo rosto e uma mente implacável, ela inicia uma caçada que começa por vingança pessoal, mas revela uma conspiração global que ameaça a própria liberdade da humanidade. Da selva amazônica aos centros de poder em Brasília, Claire enfrenta a Nova Gênese e a inteligência artificial Perséfone — uma criatura digital feita à sua imagem e semelhança. Ao seu lado, Marcus opera nas sombras, lutando contra o seu próprio passado no MIT e sacrificando sua identidade para garantir que a "Mão de Gelo" de Claire nunca falhe. Neste thriller de alta voltagem onde a tecnologia é tanto arma quanto prisão, a verdade é a única moeda que resta. Quando todos estão sendo vigiados, a única forma de vencer é ser invisível. Uma saga épica sobre poder, redenção e o preço da liberdade na era da vigilância total. Autora: R. L. Serpa Gênero: Thriller Político / Ficção Tecnológica
Ler maisA luz da manhã em Santa Teresa não era meramente um fenômeno físico para Clarice; era uma sinfonia silenciosa que ela regia com os olhos. Ela costumava acordar antes do despertador, não por obrigação, mas pelo desejo quase infantil de testemunhar o exato momento em que o sol beijava as colinas do Rio de Janeiro, transformando o cinza do asfalto em um dourado vibrante. Para ela, a vida não acontecia na superfície; cada respiração era carregada de um significado que a maioria das pessoas ao seu redor preferia ignorar ou rotular como um "exagero sentimental".
Clarice possuía uma beleza que desafiava as regras passageiras das revistas de moda. Seus cabelos castanhos, da cor da terra fértil após a chuva de verão, caíam em ondas pesadas e naturais até a cintura, emoldurando um rosto de traços clássicos que pareciam ter sido esculpidos em mármore por um mestre antigo. No entanto, eram seus olhos que realmente perturbavam o silêncio de quem a via: grandes e de um castanho-dourado profundo, eles tinham a clareza de um lago transparente, parecendo enxergar as verdades que a elite carioca preferia manter sob sete chaves. Naquela manhã, ela escolheu um vestido de algodão cru, simples e fluido, que se movia com a leveza de sua alma. Ela não precisava de camadas de maquiagem para simular vida; sua pele tinha o viço natural de quem ainda se encantava com o orvalho nas flores. Ao descer para a sala de jantar, porém, a harmonia de sua manhã foi quebrada pelo tilintar metálico dos talheres contra a porcelana. O ar ali era denso, saturado pelo cheiro de café forte e pela amargura de seus pais, que já a esperavam com o rigor habitual de quem analisa um investimento que não está rendendo o esperado. Sua mãe, Dona Helena, nem sequer ergueu os olhos do jornal ao ouvir os passos da filha. Com um tom ríspido, criticou a escolha do traje antes mesmo do primeiro "bom dia". — Você parece uma camponesa com esse vestido, Clarice — disparou Helena, sem qualquer preâmbulo. — Onde está a elegância que tentamos incutir em você? Vitor virá aqui hoje e você se apresenta dessa forma... transparente. Homens como ele gostam de mistério e sofisticação, não de alguém que parece um livro aberto. — Eu estou apenas sendo eu mesma, mamãe — Clarice respondeu com a voz suave, embora sentisse a pontada familiar no peito. — Vitor diz que ama minha naturalidade. — Vitor diz o que é educado dizer! — retrucou o pai, Sr. Valente, batendo a colher de prata na xícara com uma precisão irritante. — Mas a verdade é que ele precisa de uma mulher que o ajude a subir, não de uma menina que chora por poemas. Seus sentimentos são um custo operacional que não podemos mais arcar, Clarice. Lembre-se que nossa posição depende deste noivado. A tensão foi interrompida pela chegada de Beatriz, que entrou na mansão sem ser anunciada, trazendo consigo um perfume doce e invasivo. Beatriz era a sombra que Clarice insistia em chamar de amiga. Ela não possuía a beleza intrínseca de Clarice; seus traços eram comuns e dependiam de uma arquitetura complexa de contornos e iluminadores para ganhar alguma graça. Mas o que lhe faltava em genética, sobrava em estratégia: ela usava o corpo como uma arma, sempre envolta em roupas provocantes que gritavam por atenção. — Bom dia, família! — Beatriz exclamou, indo direto beijar o rosto do Sr. Valente, um gesto que ele aceitou com um sorriso que raramente dava à própria filha. — Clarice, querida, você ainda está com esse visual "natureba"? Ah, me desculpe... eu sempre esqueço que você se recusa a evoluir. — É apenas um vestido de manhã, Bia. O que traz você aqui tão cedo? — Clarice tentou manter o tom amigável, ignorando o desdém da outra. — Vitor me ligou — Beatriz disse, sentando-se à mesa com uma familiaridade predatória. — Ele estava estressado com a reunião de ontem e eu sugeri que ele passasse aqui para darmos um passeio. Ele precisa de leveza, sabe? Coisas práticas, sem dramas existenciais. O coração de Clarice deu um salto doloroso. Vitor não a ligara naquela noite; ele dissera que estaria ocupado demais com os contratos da holding. Por que ele ligaria para Beatriz para falar de estresse e não para a mulher que ele dizia amar profundamente? A dúvida era uma semente venenosa, e Beatriz sabia exatamente como regá-la com seu sorriso calculado. Quando Vitor Albuquerque finalmente cruzou a porta, a sala pareceu ficar pequena. Ele era o "Herói de Vidro" — impecável, com seu terno cinza sob medida e o maxilar esculpido que o tornava o sonho de qualquer colunista social. Ele cumprimentou os pais de Clarice com a confiança de um rei, mas quando seus olhos encontraram Clarice, seu beijo na bochecha foi casto, quase burocrático. — Oi, Clarice — ele disse, a voz desprovida de emoção. — Você está... bem. — Só "bem", Vitor? — Beatriz interveio, levantando-se e caminhando até ele com um requinte calculado. — Eu disse a ela que esse look camponesa é fofo, mas talvez não para o nível de um Albuquerque, não é? Vitor soltou uma risada seca, que soou como um chicote nos ouvidos de Clarice. — Beatriz tem um olho clínico para a estética, Clarice. Você sabe que eu gosto de brilho. Enfim, vim avisar que o jantar de hoje foi cancelado. Vou levar a Bia para revisar alguns termos de marketing, ela tem ideias muito mais... estimulantes e práticas. — Mas Vitor, nós tínhamos planejado aquele jantar há semanas — Clarice argumentou, a voz trêmula pela intensidade da mágoa. — Eu até preparei o álbum de fotos da nossa última viagem, você disse que queria recordar... — Fotos, Clarice? — Vitor a interrompeu com um suspiro de tédio. — Eu vivo para o futuro. Esse seu apego a "momentos" é exaustivo. Beatriz me oferece progresso, você me oferece nostalgia de coisas que ninguém mais se importa. Dona Helena apressou-se em concordar, sorrindo para o genro enquanto lançava um olhar de nojo para a própria filha. — Ela é tão boba, Vitor! Não ligue para isso. Vá com a Beatriz, ela certamente será uma companhia melhor para um homem da sua importância agora. Clarice ficará aqui refletindo sobre como deixar de ser tão cansativa e aprender a se portar como uma mulher de negócios. Clarice olhou para os quatro — seus pais, seu noivo e sua amiga. Ela era a mulher mais bela naquela sala, mas ali, cercada por predadores, suas virtudes eram vistas como moedas sem valor. Beatriz lançou-lhe um olhar de triunfo por cima do ombro de Vitor, um olhar que dizia: eu posso não ter o seu rosto, mas eu tenho o controle do seu mundo. — Vamos, Vitor? — Beatriz chamou, tocando o braço dele com as unhas vermelhas e postiças. — Temos muito o que "discutir" a sós. Vitor saiu sem olhar para trás. Clarice ficou parada no centro da sala, enquanto seus pais voltavam a comer como se nada tivesse acontecido. A indiferença deles era o golpe final. Ela subiu para o quarto e trancou a porta, sentindo o peso daquela casa onde o amor era visto como uma falha de caráter. "Eu amo demais", ela pensou, olhando-se no espelho enquanto as lágrimas finalmente transbordavam. "Eles me odeiam por isso, porque eles não amam nada". Suas mãos tocaram o vidro frio, e ela viu ali uma mulher que estava sendo lentamente apagada por pessoas que não suportavam seu brilho natural. Mal sabia ela que a intensidade que eles tanto desprezavam seria a única coisa capaz de mantê-la viva nos meses de escuridão que viriam. Pela tarde, o isolamento de Clarice foi quebrado por uma mensagem de Beatriz no celular: "Vitor e eu vamos viajar para o iate no fim de semana. Seus pais vêm conosco. Vitor disse que você pode vir, se prometer não causar cenas sentimentais. Tente ser normal por uma vez, Clari." Clarice sentiu um calafrio que não vinha do vento que soprava da janela. O iate. O mar. Ela sempre amou o oceano pela sua profundidade, mas agora, o pensamento da imensidão azul parecia um presságio de morte. Ela aceitaria o convite. Ela aceitaria porque seu amor profundo ainda sussurrava, tolamente, que ela poderia salvar Vitor da superficialidade de Beatriz. Ela fechou o celular e começou a arrumar a mala, sem saber que estava empacotando os últimos vestígios de sua inocência. No quarto ao lado, seus pais brindavam com um vinho caro, celebrando uma fusão de empresas que dependia do sacrifício silencioso da própria filha. O palco para o naufrágio estava montado, e as águas, implacáveis, já aguardavam por sua primeira vítima.Meses haviam se passado desde a noite apocalíptica em que o Atlântico devorara a "Lugar Nenhum", e o tempo, com a sua capacidade lenta e persistente de curar as feridas mais profundas, transformara a paisagem de Santo Alento. Nas montanhas de Minas Gerais, a vida retornara a uma normalidade bucólica que parecia quase insultuosa para quem conhecera o caos digital. O hospital de trauma fundado por Arthur estava agora em plena capacidade, operando não apenas como um centro cirúrgico, mas como um refúgio para as almas despedaçadas pela opressão das milícias. Arthur caminhava todos os dias pelos corredores, vendo o reflexo da missão de Claire em cada paciente que recebia uma segunda chance. Marcus e Lívia haviam se estabelecido em uma pequena casa na base da serra, utilizando as suas habilidades para fortalecer a infraestrutura comunitária de forma anônima e sustentável. Eles haviam se tornado os guardiões de uma paz que custara um preço que eles raramente ousavam mencionar em voz alta.Ar
A destruição da base "Lugar Nenhum" não foi uma explosão ruidosa ou um espetáculo pirotécnico de superfície; foi um evento de uma violência física silenciosa, rápida e absolutamente esmagadora que transformou quilômetros de engenharia de elite em um amontoado de pó orgânico e metal retorcido em frações de milissegundos. No fundo do oceano Atlântico, a quatro mil metros de profundidade, a pressão hidrostática não é apenas um conceito científico; é uma divindade punitiva. A água ali não flui de maneira graciosa; ela esmaga com a força de quatrocentas atmosferas, transformando qualquer microfissura estrutural em uma lâmina de corte hidráulico capaz de fatiar titânio como se fosse papel. O calor insuportável gerado pela sabotagem de Claire nos trocadores de calor fizera com que as imensas cúpulas de acrílico blindado dilatassem além do ponto de retorno elástico do material. O som que preenchia os corredores nos últimos instantes era o de estalidos secos e rítmicos, semelhantes a disparos
O confronto final no epicentro da sala de controle de "Lugar Nenhum" foi desprovido de qualquer resquício da sofisticação tecnológica ou da elegância fria que Vitor Valente tanto prezava. Foi uma luta primitiva, visceral, carregada com o peso de cinco anos de traições, luto e uma busca por justiça que quase consumira a alma de Claire Thorne. Vitor disparou a sua arma de polímero com o desespero de um homem que vê o seu império de vidro desintegrar-se, mas Claire moveu-se com uma agilidade que parecia desafiar a física, uma fluidez forjada na dor e na sobrevivência. A bala estilhaçou um painel de comunicações holográficas atrás dela, lançando uma chuva de faíscas azuis que iluminou o rosto de Claire por um breve segundo — uma máscara de determinação gélida que não guardava mais vestígios da vulnerabilidade de Clarice Valente.Claire atingiu-o com uma sequência de golpes que combinavam a técnica de combate tático da Legião com a força bruta necessária para derrubar um gigante. Ela o lan
O ar rarefeito do corredor começou a queimar nos brônquios de Claire, uma sensação de agonia que ela transformou imediatamente em combustível para o seu foco mental. Ela sabia que Vitor estava assistindo a cada arquejo, saboreando a agonia deles através das lentes de alta definição como se fosse uma performance privada e exclusiva. No entanto, Vitor cometera o erro fatal de todos os tiranos: subestimar a resiliência orgânica e a capacidade de improvisação de quem não tem nada a perder. Enquanto Claire mantinha o contato visual desafiador com Vitor através do acrílico blindado, Marcus trabalhava freneticamente em um bypass de emergência que ele preparara semanas antes em Santo Alento, escondido sob camadas de código aparentemente inofensivo. Ele não tentou quebrar a criptografia impenetrável de Vitor; ele simplesmente sobrecarregou os capacitores do sistema de pressurização, forçando as comportas a se abrirem por um protocolo físico de segurança contra incêndios que fora gravado no har
A incursão pelos níveis inferiores da base "Lugar Nenhum" exigia uma sincronia que beirava o sobrenatural, uma coreografia de sombras em um ambiente onde cada superfície era projetada para a máxima visibilidade e assepsia. Claire Thorne liderava o grupo com a economia de movimentos de uma predadora que aprendeu a caçar no silêncio absoluto das montanhas, enquanto Marcus, agachado a cada nó de interface, utilizava um dispositivo portátil de interferência para criar "pontos cegos" temporários nos sensores de movimento da base. Cada passo dado no piso de polímero reforçado era uma aposta de vida ou morte; o som das botas, embora abafado pelo revestimento de borracha, parecia ecoar como trovões nos ouvidos atentos de Claire. Eles atravessaram os setores de processamento, onde quilômetros de cabos de fibra ótica pulsavam com um brilho violeta intermitente, transportando informações roubadas de governos, corporações e cidadãos comuns. Claire via as etiquetas digitais nos racks de servidores
A descida para as profundezas da Bacia de Campos começou com o som claustrofóbico e definitivo das comportas do submersível Nereu selando-se com um estalo pneumático que reverberou pelas paredes de titânio como um veredito de tribunal. O espaço interno era opressivo, um cubículo de policarbonato reforçado e metal onde o ar tinha um gosto metálico de oxigênio reciclado e o cheiro persistente de graxa hidráulica. O engenheiro naval, um aliado silencioso que vivia na clandestinidade desde o expurgo da Rede Thorne, acionou os motores elétricos de propulsão silenciosa. À medida que o submersível se desprendia do suporte oculto sob o casco de um antigo pesqueiro e mergulhava nas águas turvas, a luz do sol foi substituída por um azul que se tornava cada vez mais denso, até que o negro absoluto do oceano engoliu a embarcação por completo. Claire sentiu a pressão aumentar, não apenas no casco da nave que gemia sob o esforço, mas na própria alma. Era como se o peso físico de todo o oceano estiv
Último capítulo