Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sol de sábado nasceu impiedoso, refletindo-se nas águas da Marina da Glória com um brilho que parecia ferir os olhos de Clarice. O iate da família Albuquerque, batizado de O Imperador, balançava suavemente no cais — uma fortaleza de luxo, mármore e madeira nobre que custava mais do que a maioria das pessoas ganharia em dez vidas. Clarice caminhava pelo deck sentindo o cheiro do salitre misturado ao perfume caro de sua mãe, que já ditava ordens aos tripulantes como se fosse a dona do oceano.
Clarice escolhera um vestido de linho branco, simples e elegante, que acentuava o bronzeado suave de sua pele e a cor mel de seus olhos. Ela segurava uma bolsa de palha com um livro de poesias, o único refúgio que conseguira levar consigo. No entanto, sua tentativa de paz foi estraçalhada assim que Beatriz surgiu na popa do barco, rindo alto de alguma piada que Vitor acabara de contar. A risada de Beatriz era aguda, uma nota dissonante que parecia arranhar a serenidade da manhã. Beatriz parecia ter se esforçado para o oposto da elegância de Clarice. Usava um biquíni de tiras minúsculas em um tom dourado chamativo e uma saída de praia transparente que não deixava nada à imaginação. A maquiagem era pesada para uma manhã de mar, com cílios postiços que pareciam pesar em suas pálpebras, mas ela caminhava com uma confiança predatória, os saltos das sandálias estalando contra a madeira de teca do convés. — Olhem só, Vitor! — Beatriz exclamou, apontando para Clarice com um sorriso debochado que não chegava aos olhos. — A nossa "Noiva do Mar" chegou. Clarice, querida, você esqueceu que estamos indo para um iate e não para um retiro espiritual? Esse seu visual está tão... apagado. Você quer que as pessoas pensem que o Vitor está saindo com a governanta? Vitor, que usava uma bermuda de linho e óculos escuros de uma grife italiana, olhou para Clarice de cima a baixo. Não havia admiração em seus olhos cinzas, apenas uma pontada de aborrecimento, como se a presença dela fosse um erro de decoração em seu cenário perfeito. — Ela gosta de passar despercebida, Bia — Vitor comentou, ajustando o relógio de ouro no pulso, o mesmo relógio que Clarice lhe dera no aniversário anterior. — O problema é que em eventos assim, Clarice, você me faz parecer um homem sem companhia. Aprenda com a Beatriz; ela sabe o que é ter presença. Ela brilha, enquanto você parece estar sempre em funeral. — Eu só queria estar confortável, Vitor — Clarice respondeu, sentindo o nó na garganta começar a se formar antes mesmo de o barco desatracar. — Achei que a viagem era para relaxarmos e termos um tempo de qualidade. — Relaxar não significa se tornar invisível — disparou Dona Helena, a mãe de Clarice, aproximando-se com uma taça de champanhe já nas mãos às dez da manhã. — Você tem a beleza que Deus lhe deu, mas parece que faz questão de escondê-la sob esses panos velhos para nos punir. Veja a Beatriz, que frescor! Isso sim é uma mulher que sabe valorizar o que tem e honrar o convite que recebeu. Beatriz piscou para Vitor e se inclinou sobre a mureta, garantindo que o decote ficasse bem à vista dele enquanto a tripulação passava com as malas. — Não briguem com ela. A Clarice é uma alma pura, não é, Clari? Ela prefere a alma ao corpo. O problema é que os homens... bem, os homens são visuais e precisam de estímulo. Não é, Vitor? Vitor deu um sorriso de lado e passou a mão pela cintura de Beatriz sob o pretexto de ajudá-la a se equilibrar conforme os motores do iate roncavam, iniciando a manobra de saída. O toque foi demorado, íntimo demais para ser apenas um gesto de cortesia entre amigos. Clarice sentiu o sangue fugir do rosto, mas seus pais, que assistiam à cena de camarote, apenas sorriam e brindavam com o Sr. Valente, como se estivessem celebrando um acordo de negócios bem-sucedido. — Vamos para o alto-mar! — o Sr. Valente anunciou, ignorando o olhar de súplica da filha. — Vitor, esse motor é uma maravilha técnica. Quero ver do que essa máquina é capaz quando atingirmos águas abertas. O iate cortou as ondas, ganhando velocidade e deixando o Rio de Janeiro para trás. Enquanto o vento despenteava Clarice e trazia lágrimas involuntárias aos seus olhos, Beatriz se instalou na área de solteiro ao lado de Vitor. Ela abriu um frasco de protetor solar de uma marca francesa e o estendeu para ele com um olhar de convite. — Vitor, querido, você pode passar nas minhas costas? Eu não consigo alcançar e minha pele é tão sensível... — ela pediu, a voz carregada de uma falsa doçura que parecia derreter sob o sol. Vitor olhou para Clarice por cima dos óculos. Ela estava sentada a poucos metros dali, tentando ler seu livro, mas as mãos tremiam tanto que as páginas mal paravam abertas. Ele poderia ter passado o protetor na noiva, poderia ter pedido para ela se aproximar, mas em vez disso, ele pegou o frasco das mãos de Beatriz com um entusiasmo perturbador. Clarice assistiu, em um silêncio agonizante, as mãos de seu noivo deslizarem pela pele de Beatriz. Era uma provocação pública, um espetáculo de desrespeito orquestrado diante de seus próprios pais. Beatriz soltava pequenos risinhos e comentava sobre como a mão de Vitor era "forte e firme", lançando olhares de soslaio para Clarice para conferir se o veneno estava surtindo efeito. — Clarice, por que você não vai lá dentro buscar mais gelo e ver se os canapés estão prontos? — Dona Helena ordenou, percebendo que a filha estava prestes a explodir em prantos e querendo evitar o "desconforto". — Pare de olhar com essa cara de tragédia grega. Você está estragando o clima da viagem para todos nós. — Eu não sou empregada, mamãe — Clarice sussurrou, a voz falhando, sentindo a dignidade ser estilhaçada peça por peça. — Mas age como uma sombra pesada — Vitor interveio, sem parar o movimento das mãos nas costas de Beatriz. — Vá lá, Clarice. Faça algo útil em vez de ficar aí julgando todo mundo com esses seus olhos de santa. Sua passividade está me dando sono. Clarice levantou-se, sentindo o deck balançar sob seus pés, mas a tontura vinha mais da alma do que do mar. Ela entrou na cabine luxuosa, onde o ar-condicionado era frio demais, contrastando com o calor sufocante da traição lá fora. Ela se apoiou na bancada de granito da cozinha e chorou em silêncio, as lágrimas caindo sobre as próprias mãos, que ela apertava com tanta força que as articulações ficaram brancas. Lá fora, a risada de Beatriz ecoou novamente, seguida pela voz grave de Vitor. Eles falavam sobre a próxima fusão, sobre o futuro, sobre como a vida era curta para ser gasta com pessoas "complicadas e intensas". O plano de Beatriz estava funcionando perfeitamente: ela estava isolando Clarice sob a luz do dia, transformando a beleza real da amiga em um fantasma incômodo dentro de sua própria vida. Clarice pegou o gelo, limpou o rosto e respirou fundo, tentando retomar a máscara de calma que sua família exigia. Ela não sabia que, em poucas horas, aquele iate seria um inferno de fumaça e metal retorcido. Ela não sabia que aquelas mesmas mãos que agora tremiam de mágoa seriam as únicas capazes de mergulhar no abismo para buscar a vida de Vitor. Ela não sabia que o mar estava apenas esperando o momento de cobrar o preço de tanta crueldade silenciosa. O iate estava alcançando águas profundas e escuras, longe de qualquer porto seguro. O sol começava a baixar, tingindo o céu de um laranja sangrento, enquanto o motor do barco emitia um sibilo quase imperceptível — um som que ninguém, além da sensível Clarice, parecia notar no meio daquela festa de indiferença e traição.






