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Capítulo 6: A Morte de Clarice Valente

O saguão do aeroporto internacional era um mar de rostos desconhecidos e vozes apressadas, o cenário perfeito para quem desejava deixar de existir. Clarice carregava apenas uma mochila desgastada e a alma em frangalhos, mas seu olhar, antes suave e contemplativo, agora tinha a dureza de um diamante bruto. Ela não olhou para trás quando entregou o passaporte ao agente da imigração. Naquele pedaço de papel, o nome "Clarice Valente" ainda brilhava em letras oficiais, mas, para ela, aquele nome já cheirava a traição e cinzas.

O voo para Londres foi uma travessia entre dois mundos. Enquanto o avião cortava as nuvens, Clarice observava o oceano lá embaixo — o mesmo oceano que tentara matá-la e que, ironicamente, lhe dera a liberdade. Ela passou as dez horas de viagem com um caderno no colo, mas não escrevia poesias. Ela desenhava um diagrama de cada empresa do pai, cada holding dos Albuquerque, e cada ponto fraco que ela conhecia por ter sido a "sombra silenciosa" em tantas reuniões de negócios.

Ao pousar no solo gelado da Inglaterra, a primeira coisa que ela fez foi vender o colar de esmeraldas que pertencera à sua avó, a única pessoa que realmente a amara e que o deixara como herança secreta. O dinheiro foi o suficiente para garantir um quarto minúsculo em um subúrbio londrino e os trâmites legais para sua nova identidade.

— Você tem certeza disso? — perguntou o advogado de imigração, um homem de cabelos brancos que parecia ter visto todas as formas de desespero humano. — Uma vez que este processo termine, Clarice Valente será dada como desaparecida ou morta no Brasil. Você não poderá voltar para reclamar sua herança.

— Eu não tenho herança lá — Clarice respondeu, sua voz agora firme, destituída de qualquer tremor. — Eu tenho apenas dívidas de sangue que pretendo cobrar com juros. Meu nome é Claire Thorne a partir de hoje.

Os primeiros anos foram um teste de resistência que faria qualquer pessoa comum desistir. Claire trabalhou como garçonete durante o dia e estudou economia e mercado financeiro durante as madrugadas gélidas, aquecendo as mãos em canecas de chá barato. Sua intensidade, que antes era voltada para o amor, agora estava focada em entender como o dinheiro se movia, como impérios eram construídos e, principalmente, como eram destruídos.

Foi em uma dessas madrugadas, em uma biblioteca pública, que ela chamou a atenção de um homem que mudaria seu destino. Arthur Thorne, um investidor bilionário conhecido por sua reclusão e por seu olho clínico para talentos, a observava há semanas. Ele notou que aquela mulher não apenas lia livros de finanças; ela os devorava, fazendo anotações marginais que revelavam uma mente brilhante e perigosamente analítica.

— Você está tentando salvar o mundo ou comprá-lo? — Arthur perguntou, sentando-se à mesa em frente a ela.

Claire ergueu os olhos âmbar, agora cercados por olheiras de exaustão, mas brilhando com uma inteligência que fez Arthur recuar um milímetro. — Eu estou tentando entender por que o mundo permite que homens medíocres governem impérios enquanto pessoas reais são descartadas como lixo.

Arthur sorriu, um sorriso que continha o respeito de um predador por outro. — Se você quer destruir homens medíocres, precisa de mais do que livros. Precisa de capital e de uma armadura. Eu posso lhe dar ambos, se você me provar que sua "intensidade" não vai nublar seu julgamento.

— Meu julgamento nunca esteve tão claro, Sr. Thorne — ela respondeu, fechando o livro com um estrondo seco. — Eu já morri uma vez. Nada mais pode me assustar.

Arthur viu as cicatrizes nas mãos dela quando ela se levantou — marcas que ela nunca escondera, mas que agora usava como medalhas. Ele viu ali uma mulher que não buscava caridade, mas uma oportunidade de guerra.

Enquanto isso, no Brasil, a "morte" social de Clarice foi tratada como um alívio. O Sr. Valente e Dona Helena, após meses sem notícias da filha que fugira do hospital, assinaram os papéis de desaparecimento com uma indiferença que beirava o macabro. Para a sociedade carioca, Clarice era a "menina instável" que não suportara o trauma e se perdera no mundo. Beatriz e Vitor, por sua vez, casaram-se em uma cerimônia suntuosa, construída sobre o heroísmo forjado na areia.

O capítulo termina com Claire Thorne parada diante de uma janela envidraçada no 40º andar de um edifício na City de Londres. Ela usava um terno preto sob medida, o cabelo agora curto e moderno, e o olhar focado em um gráfico que mostrava a decadência gradual das Empresas Valente no Brasil. Ela não sentia pressa. A fênix estava sendo forjada no aço e no gelo.

— Dez anos, Arthur — ela disse, sem se virar. — Eu preciso de dez anos para estar pronta.

— Você terá o tempo que precisar, Claire — Arthur respondeu, colocando uma mão em seu ombro. — Mas lembre-se: quando você voltar, eles não verão uma filha ou uma ex-noiva. Eles verão o apocalipse.

Claire Thorne sorriu. Era a primeira vez que ela sorria em anos, e era um sorriso que não prometia misericórdia. Clarice Valente estava morta e enterrada. E a sua assassina estava prestes a se tornar a mulher mais poderosa do mercado global.

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