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Capítulo 5: O Despertar no Inferno

O tique-taque dos aparelhos no quarto de isolamento era o único som que preenchia o vazio deixado por uma família que já a considerava um capítulo encerrado. Clarice despertou lentamente, sentindo como se estivesse emergindo de quilômetros de profundidade sob um oceano de chumbo. Cada fibra de seu corpo doía, mas nada se comparava à pressão em seu peito, um peso que não era físico, mas a premonição do abandono. Quando seus olhos âmbar finalmente se abriram, não encontraram flores, nem cartões, nem o rosto preocupado de sua mãe; encontraram apenas as paredes descascadas de uma unidade pública para onde fora transferida assim que o pai cortara o seguro privado.

Uma enfermeira de olhar cansado entrou no quarto e quase derrubou a bandeja ao ver a paciente consciente. — Você é um milagre, menina — sussurrou a mulher, aproximando-se com cautela. — Quatro meses em silêncio absoluto. Ninguém achou que você voltaria, nem mesmo os médicos.

— Onde... onde está minha mãe? — A voz de Clarice saiu como uma lixa, seca e quebradiça, mal reconhecível para si mesma.

A enfermeira desviou o olhar, uma hesitação que cortou o que restava da esperança de Clarice. — Seus pais deixaram um telefone para contato no início, mas não atendem há semanas. O hospital enviou notificações, mas... bem, você precisa de repouso agora. Não se esforce.

Clarice não esperou pelo repouso. Três dias depois, ignorando as dores agudas nas costelas e o tremor nas mãos, ela usou suas últimas economias que guardava em uma conta de infância e vestiu as roupas simples que o hospital lhe doara. Ela pegou um táxi para a mansão dos Valente, o trajeto parecendo uma marcha fúnebre sob o sol escaldante do Rio. Ao chegar, o jardim que ela tanto cuidava estava impecável, mas havia algo diferente: faixas brancas e douradas decoravam a fachada, e o som de risadas e música clássica transbordava pelas janelas abertas.

Ela entrou pelos fundos, movendo-se como um fantasma em sua própria casa. Ninguém a viu atravessar a cozinha, pois os funcionários estavam ocupados servindo champanhe no salão principal. Ao chegar à fresta da porta da biblioteca, ela viu a cena que destruiria sua inocência para sempre. Seu pai, o Sr. Valente, brindava com Vitor. Vitor, o homem que ela quase morrera para salvar, estava radiante, abraçado a Beatriz, que exibia um anel de diamante colossal.

— É o melhor investimento que já fiz — dizia o Sr. Valente, rindo com um cinismo que Clarice nunca vira. — Casar o herdeiro dos Albuquerque com a heroína que o salvou... a fusão das nossas empresas será assinada amanhã. E pensem só, se Clarice não tivesse "morrido" naquele coma, ainda estaríamos lidando com as crises de choro e a intensidade dela. O destino sabe o que faz.

— Realmente, sogrão — Vitor respondeu, a voz carregada de uma gratidão cega. — A Beatriz é a mulher que eu sempre precisei. Corajosa, prática e, acima de tudo, não me cobra esse "amor profundo" que a Clarice tanto pregava. Às vezes eu acho que o acidente foi uma bênção para nos livrar do fardo que ela era. Eu me sentia sufocado por ela, mas a Bia... ela me deu a vida.

Beatriz soltou uma risadinha melosa, ajeitando a seda do vestido que Clarice reconheceu como sendo de uma de suas estilistas favoritas. — Pobre Clarice. Ela era tão sem graça, não é? Ficou lá na praia, paralisada, enquanto eu mergulhava. O médico disse que ela pode nunca acordar, e sinceramente, é melhor assim. Ela não suportaria ver o nosso sucesso e a nossa felicidade. Ela sempre foi tão... frágil.

Clarice recuou, sentindo o estômago revirar. Mas o golpe final veio de sua mãe. Dona Helena entrou na sala com um catálogo de joias. — Olhe este colar, Bia! Você ficará deslumbrante no altar. Já mandamos as coisas da Clarice para a caridade. Não fazia sentido guardar entulho de alguém que não faz mais parte da família. O quarto dela agora é o seu novo closet de sapatos.

O pai de Clarice assentiu, limpando o canto da boca com o lenço de seda. — Aquela menina foi o meu maior erro. Fraca, sentimental e inútil. Beatriz, você é a filha que eu sempre quis. Que a Clarice apodreça naquele hospital; nós temos um império para construir e não há lugar para os fracos nesta mesa.

Clarice não gritou. Ela não entrou na sala para exigir seu lugar ou mostrar suas cicatrizes. Ela percebeu, com uma clareza cortante, que aquelas pessoas nunca a haviam amado. Ela era apenas um objeto quebrado que eles haviam descartado no lixo da conveniência. Ela saiu da mansão sob a luz forte da tarde, as mãos enfaixadas latejando, mas sua mente agora era um cristal frio e determinado. Ela não era mais uma vítima; ela era uma sobrevivente que acabara de descobrir que sua casa era, na verdade, um ninho de cobras.

Naquela mesma noite, Clarice foi até o pequeno apartamento que alugara com o pouco que lhe restava. Ela cortou o próprio cabelo diante do espelho, vendo as mechas castanhas caírem no chão como as camadas de sua antiga identidade. — Clarice Valente morreu naquele iate — ela sussurrou para o reflexo. — Vocês queriam alguém prática? Pois agora vocês terão.

Ela pegou um envelope que continha o relógio de Vitor — que ela recuperara discretamente da areia antes de apagar, e que as enfermeiras haviam guardado em seus pertences — e o trancou em um cofre de banco. Seria sua única prova, sua única arma para o futuro. Com o restante do dinheiro, comprou uma passagem só de ida para o exterior. Ela não levou lembranças, apenas a dor transformada em combustível.

Clarice no saguão do aeroporto, olhando para o painel de voos. Ela não sentia medo, apenas um vazio imenso que logo seria preenchido por uma ambição feroz. Ela desapareceria do mapa, mudaria de nome e de rosto, mas cada palavra de desprezo dita por seu pai naquela tarde seria o tijolo com o qual ela construiria seu novo império. O "despertar no inferno" estava completo; agora, o inferno teria que aprender a lidar com ela.

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