Mundo ficciónIniciar sesiónO tempo em Londres não passava em segundos, mas em transações. Para Claire Thorne, cada inverno que cobria o Tâmisa de névoa era uma camada a mais na armadura que ela construía em torno do próprio coração. Ela não era mais a jovem que buscava o sol; ela era o próprio eclipse. Sob a mentoria de Arthur, Claire não apenas aprendeu as regras do mercado financeiro; ela aprendeu a reescrevê-las.
Sua "intensidade", que o Sr. Valente rotulara como fraqueza, transformou-se em uma visão periférica infalível. Claire conseguia sentir a fraqueza de uma empresa como sentia a aproximação de uma tempestade. Ela se tornou a "Mão de Gelo" da Thorne Capital. Enquanto Arthur era a face pública e diplomática, Claire era a estrategista que operava nas sombras, desmantelando monopólios e comprando dívidas de gigantes que se julgavam intocáveis. — Você está se tornando impiedosa, Claire — comentou Arthur certa noite, enquanto revisavam a aquisição de um banco de investimentos em Frankfurt. — Às vezes, vejo você olhar para os números como se estivesse contando baixas em uma guerra. Claire levantou os olhos do monitor. O brilho âmbar de suas pupilas agora era cortante. — Porque é uma guerra, Arthur. No Rio, eles me ensinaram que quem não devora, é devorado. Eu apenas decidi que nunca mais estarei no cardápio. Arthur a observava com uma mistura de orgulho e preocupação. Ele a amava — um amor que nascera do respeito intelectual e florescera na convivência diária. Ele fora o único a ver as lágrimas que ela derramava em silêncio nos primeiros anos, o único a segurar suas mãos quando as cicatrizes latejavam no frio europeu. Mas ele sabia que, para Claire ser completa, ela precisava enfrentar os fantasmas que deixara no Brasil. Enquanto Claire ascendia, o império de mentiras no Rio de Janeiro começava a apresentar rachaduras profundas. O casamento de Vitor e Beatriz, que deveria ser o pilar da elite carioca, era um teatro de horror. Beatriz, incapaz de sustentar a farsa da "heroína ativa" por muito tempo, tornou-se uma mulher amargurada e fútil, gastando fortunas em joias e festas para mascarar o fato de que Vitor a detestava. Vitor Albuquerque, por sua vez, transformara-se em um homem sombrio. Ele bebia demais e administrava de menos. A culpa, embora ele se recusasse a dar nome a ela, corroía sua intuição. Ele olhava para Beatriz e via o preço alto demais que pagara por sua vida. A fusão das empresas, que o Sr. Valente prometera ser o negócio do século, estava sangrando. O mercado mudara, o mundo se tornara digital e veloz, e o Sr. Valente continuava operando com a arrogância de quem achava que o sobrenome era garantia de crédito. — Precisamos de um aporte externo, Valente! — Vitor gritou em uma reunião de diretoria, a voz rouca pelo uísque da noite anterior. — Nossas ações caíram 15% este mês. Se não encontrarmos um investidor internacional, a holding Albuquerque vai colapsar e levar a sua empresa junto. O Sr. Valente, com os cabelos agora totalmente brancos e a face vincada pela soberba, bateu na mesa. — Eu não vou entregar o controle para qualquer aventureiro! Estamos em crise, mas somos sólidos. Beatriz é uma heroína nacional, o público nos ama. A imagem dela é o que nos sustenta. — Imagem não paga dividendos! — Vitor rebateu, sentindo um asco profundo pelo sogro. Foi nesse cenário de desespero que o nome "Thorne Capital" surgiu pela primeira vez nos escritórios da Avenida Rio Branco. Um fundo de investimentos britânico que estava comprando, silenciosamente, cada título de dívida que os Valente emitiam no mercado secundário. Eles não sabiam que a mão que segurava a caneta em Londres era a mesma que eles deixaram para trás, coberta de sangue e areia. No décimo ano de seu exílio, Claire Thorne parou diante do espelho de sua cobertura em Belgravia. Ela usava um vestido de seda cinza que parecia metal líquido. Seu reflexo não mostrava mais Clarice. Mostrava uma mulher que possuía bilhões em ativos e um desejo de justiça que nenhum dinheiro poderia saciar. — Está na hora, Arthur — ela disse, a voz calma como o olho de um furacão. — O Grupo Valente e os Albuquerque entraram em colapso técnico hoje pela manhã. Eles vão lançar um pedido de socorro ao mercado internacional. Arthur aproximou-se e colocou um colar de diamantes negros em seu pescoço. — E quem responderá ao pedido? Claire sorriu, e desta vez, o sorriso chegou aos seus olhos, mas não havia doçura neles. Havia o brilho do aço forjado no fogo. — A mulher que eles disseram que não tinha valor algum. Vamos para o Rio, Arthur. Prepare o jato. Quero que cheguemos no momento exato em que eles acharem que encontraram a salvação. Ansiosamente, Claire Thorne fecha sua mala. Dentro, em um compartimento secreto, estava o relógio de ouro de Vitor e a pequena foto de sua avó. Ela não estava voltando para casa. Estava voltando para o campo de batalha onde sua vida fora roubada, pronta para comprar cada tijolo da existência daqueles que a traíram.






